Vais levar, Fabiana

Ainda há meia dúzia de esplanadas pobres, longe das ruas da moda, onde a dona serve às mesas e o marido carrega o vasilhame e faz contas à vida ao balcão. As cadeiras nunca são confortáveis, as mesas assentam sobre o empedrado irregular, a garrafa que nos trazem bem pode deslizar pelo tampo inclinado e rebolar pelo chão. Tudo é precário como se a qualquer altura os donos tivessem de levantar mesas e cadeiras e sair a correr com elas à cabeça, tal e qual como as vendedeiras de meias, que nos tiram os collants das mãos quando estamos a apreçá-los e largam a correr, rua abaixo, com a polícia caça-licenças no encalço. Mas havendo sol, e uma nesga de rio, é quanto nos basta para desfrutar do precário.

Numa das mesas, uma mulher escreve versos num caderno e esconde-os com a mão, risca a última linha, resgata da rasura uma palavra, afaga a nuca e vai-se encolhendo toda, como quem fecha a concha.

Ao meu lado, um segurança de discoteca fala ao telefone com um cliente, discute preços, horários, quer saber que tipo de festa é, quantos homens terá de levar com ele. Fico a saber que o melhor dos seus homens levou um tiro num braço mas vai ficar porreiro, como o aço. [Read more…]