…e o exílio continua…

 Acordei feliz e contente, hoje visitava a minha Presidenta da República do Chile, a convite do Senhor Embaixador da República em Portugal. Contente e feliz, porque ia estar dentro de uma parte da minha soberania, ia conhecer umas das mulheres mais destemidas do mundo. Pessoa que foi obrigada a presenciar as torturas inflingidas ao seu pai, nos seus quinze anos. Mulher médica e graduada de defesa nacional, o seu melhor saber. Não apenas governa, defende-nos.

Na Cimeira de Lisboa, que acabara ontem 1 de Dezembro, foi nomeada membro do Conselho de Segurança para América Latina, no qual já estava, e para Europa.

Infelizmente, uma doença que me tem às portas de deixar esta vida e o temporal não me permitiram visitar a nossa Soberana. Mais um golo do exílio dentro de meu pobre corpo e espírito. Tinha já passado por um campo de concentração em 1973, ao visitar o Chile de Allende. Já tinha sido ameaçado com fuzilamento, três vezes em diferentes dias, sempre

dentro do mesmo mês. A parte mais terrível, é se a ameaça não é cumprida. Pensava eu, como referi  noutro texto, por justa causa morreria.

Mas, não fui morto. Bem ao contrário, não apenas a vida, não sei porque, era-me perdoada sub custódia do exército do Chile, com um tutor que devia vigiar todos os meus movimentos. Para estarem certos de que eu não fugia do país, para cumprir no Chile todas as ordens que me mandavam, como dar aulas ao exército, escrever um livro sobre usos e costumes dos naturais do sítio em que eu estava e assim estarem certos que podiam dominar melhor  na base de essa terrível injustiça de asssassinar um Presidente legitimamente eleito e que o povo amava. Todos fomos punidos: os ameaçados de morte como eu, os mortos, como muitos amigos meus ou companheiros de causa, e o povo, com o seu amadao Presidente morto, um povo pobre e sem dinheiro. Ia, hoje, ver a minha Soberania. O médico não o permitiu e fiquei, em desespero, como este que sinto agora, fechado em casa. Este clima imclemente é perjudicial para a minha saúde.. Amigo nenhum me congratulou pela visita da minha Presidenta, nem se ofreceu a transpostar-me para o local do encontro. Certo estou, que o tempo que pudesse estar com a minha a minha Presidenta, melhoraria, se não o corpo, pelo menos o meu espírito. Não aconteceu assim. Senhora Presidente, bem sabemos que não existe mulher de milagres nem que Fátima tenha poderes de curação. Mas a sua solidariedade para nos receber dentro da sua apertada agenda, era já uma cura para a minha terrível melancolia e saudade de estar longe da minha terra, das minhas memórias, da nossa forma de falar. Não sei se vai ou não ler este texto. Talvez não: é triste mas não tem tempo. Acredite que só ver a sua foto e conhecer a sua história e ter estado perto do seu pai, já foam um milagre para mim, homem sem fé. Não vou pedir que o texto seja corregido, vou enviar como está, solitário e despatriado como meu coração. Não por ser Michele Bachelet, é por ser a minha soberania. Continue o seu trabalho para nós. Eu devo melhorar em breve e estou ao seu dispor como ao dispor da Pátria amada e tão longinqua. A sua presença, fez viajar o Chile para mim. Não estar com a minha Soberana, é parte da punição do exílio.

 

 

Exílio

Acaba por ser a sensação mais dolorosa que pode acontecer a um ser humano. Bem sabemos que exílio é a expulsão da pátria, é o desterro, deportação, degredo, tenha-se ou não cometido um crime.  É a solidão em que se vive como uma punição. Quem tem de abandonar a Pátria, abandona os que ama, perde os laços familiares, fica sem bens: parte do exílio tem uma punição, essa punição é arrecadar para si os meios de sobrevivência que a pessoa tem e deve procurar em idade adulta em alternativas de interacção social, conhecer outras pessoas e, talvez, partilhar com elas as desventuras causadas por essa perca da Pátria.  É o começo do relacionamento com pessoas que nunca tinha visto antes. O exílio é refazer a vida, a qualquer tempo, a toda a idade em que  o desterro acontece. Porquê desterro?

 

 

Não era mais conveniente a palavra desaterro? Esse acto de escavar entre relações sociais e vizinhança para retirar do fundo do poço do abandono, relações suaves e ternas.  É simples a definição, perde-se a terra em que se criou, as pessoas queridas e a memória vai-se apagando. A Europa sofreu uma imensidão de punições de exílio durante o Século XIX, quando a Revolução Industrial não precisou mais de seres humanos nas cidades e as pessoas tiveram que abandonar o sítio onde repousavam os seus antepassados, não poder visitar os túmulos para prestar veneração ritual aos seus antepassados que muitos pensam que moram com eles: uma continuidade entre a vida e a morte que se cultiva na memória enquanto há materialidade para recordar. O exílio obriga a aprender novas línguas e costumes e causa uma tristeza que não permite descansar nem como falar dos seres queridos que mais ninguém conhece em outras terras. Como Portugal durante a ditadura do Século XX, desde Sidónio Pais até ao 25 de Abril de 1974

 

 

 

 

A procura de novas alternativas orienta os seres humanos para sítios sem fim nem objectivo. É-me quase impossível esquecer o compositor polaco, Frederick Chopin, desterrado da sua terra pelo duque russo que em nome do Czar, a ocupava organizando a vida dos polacos, conforme o seu caprichoso entendimento. Queria ouvir Chopin noite e dia e se este não se apresentava, mandava a policia buscar o jovem compositor, a qualquer hora do dia, unicamente para seu prazer.  O pai, exilado francês das guerras napoleónicas, enviou-o de imediato para Paris, cidade na qual veio a falecer cedo na vida. Seu único desejo era que o seu coração fosse sepultado na sua terra de Varsóvia, a sua irmã Ludvicka cumpriu essa dolorosa vontade, pondo-o com cognac numa urna de cristal selada (ver mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cognac">Cognac). É aí onde o seu coração descansa e permanece, até hoje, dentro de um pilar da Igreja da Santa Cruz (Kościół Świętego Krzyża) em Krakowskie Przedmieście" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie _fcksavedurl="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie Przedmieście, debaixo de uma inscrição do Evangelho de Mateus, 6:21: "onde seu tesouro está, estará também seu coração". Formas de consolo  de um exilado que tudo tinha perdido. Como tantos outros que procuravam paz e confiança não apenas numa divindade que sabiam não existir, mas a angústia dava-lhe vida. Como a maior parte dos exilados em procura de trabalho em terras desconhecidas. O exílio é a imagem da desolação, solidão, traição e abandono , sem companhia que possa sentar-se ao pé da pessoa só, carente de ternura e carinho. O exílio é a morte em vida, antes, ontem e ainda hoje. Todavia, esta punição tem tido as suas vantagens. A circulação de pessoas por sítios diferentes passou a ser a base para convénios de trabalho e comerciais de operariado, entre países. Pode haver sucesso, pode haver perseguição, sedução para arrecadar sustento, mas, acima de tudo, há  um profundo luto do coração que não sabe como descrever os que perdeu. O exílio é a morte em vida, o desaparecer do mundo ainda em plena actividade. Um símbolo descreve-o, símbolo que fala mil palavras sobre o desterro: