Exílio

Acaba por ser a sensação mais dolorosa que pode acontecer a um ser humano. Bem sabemos que exílio é a expulsão da pátria, é o desterro, deportação, degredo, tenha-se ou não cometido um crime.  É a solidão em que se vive como uma punição. Quem tem de abandonar a Pátria, abandona os que ama, perde os laços familiares, fica sem bens: parte do exílio tem uma punição, essa punição é arrecadar para si os meios de sobrevivência que a pessoa tem e deve procurar em idade adulta em alternativas de interacção social, conhecer outras pessoas e, talvez, partilhar com elas as desventuras causadas por essa perca da Pátria.  É o começo do relacionamento com pessoas que nunca tinha visto antes. O exílio é refazer a vida, a qualquer tempo, a toda a idade em que  o desterro acontece. Porquê desterro?

 

 

Não era mais conveniente a palavra desaterro? Esse acto de escavar entre relações sociais e vizinhança para retirar do fundo do poço do abandono, relações suaves e ternas.  É simples a definição, perde-se a terra em que se criou, as pessoas queridas e a memória vai-se apagando. A Europa sofreu uma imensidão de punições de exílio durante o Século XIX, quando a Revolução Industrial não precisou mais de seres humanos nas cidades e as pessoas tiveram que abandonar o sítio onde repousavam os seus antepassados, não poder visitar os túmulos para prestar veneração ritual aos seus antepassados que muitos pensam que moram com eles: uma continuidade entre a vida e a morte que se cultiva na memória enquanto há materialidade para recordar. O exílio obriga a aprender novas línguas e costumes e causa uma tristeza que não permite descansar nem como falar dos seres queridos que mais ninguém conhece em outras terras. Como Portugal durante a ditadura do Século XX, desde Sidónio Pais até ao 25 de Abril de 1974

 

 

 

 

A procura de novas alternativas orienta os seres humanos para sítios sem fim nem objectivo. É-me quase impossível esquecer o compositor polaco, Frederick Chopin, desterrado da sua terra pelo duque russo que em nome do Czar, a ocupava organizando a vida dos polacos, conforme o seu caprichoso entendimento. Queria ouvir Chopin noite e dia e se este não se apresentava, mandava a policia buscar o jovem compositor, a qualquer hora do dia, unicamente para seu prazer.  O pai, exilado francês das guerras napoleónicas, enviou-o de imediato para Paris, cidade na qual veio a falecer cedo na vida. Seu único desejo era que o seu coração fosse sepultado na sua terra de Varsóvia, a sua irmã Ludvicka cumpriu essa dolorosa vontade, pondo-o com cognac numa urna de cristal selada (ver mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cognac">Cognac). É aí onde o seu coração descansa e permanece, até hoje, dentro de um pilar da Igreja da Santa Cruz (Kościół Świętego Krzyża) em Krakowskie Przedmieście" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie _fcksavedurl="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie Przedmieście, debaixo de uma inscrição do Evangelho de Mateus, 6:21: "onde seu tesouro está, estará também seu coração". Formas de consolo  de um exilado que tudo tinha perdido. Como tantos outros que procuravam paz e confiança não apenas numa divindade que sabiam não existir, mas a angústia dava-lhe vida. Como a maior parte dos exilados em procura de trabalho em terras desconhecidas. O exílio é a imagem da desolação, solidão, traição e abandono , sem companhia que possa sentar-se ao pé da pessoa só, carente de ternura e carinho. O exílio é a morte em vida, antes, ontem e ainda hoje. Todavia, esta punição tem tido as suas vantagens. A circulação de pessoas por sítios diferentes passou a ser a base para convénios de trabalho e comerciais de operariado, entre países. Pode haver sucesso, pode haver perseguição, sedução para arrecadar sustento, mas, acima de tudo, há  um profundo luto do coração que não sabe como descrever os que perdeu. O exílio é a morte em vida, o desaparecer do mundo ainda em plena actividade. Um símbolo descreve-o, símbolo que fala mil palavras sobre o desterro: