Filhas, o vosso avô morreu…

Hoje, dia 11 de Fevereiro, a vossa mãe ficou órfã de pai. Isto quer dizer que vós, minhas queridas filhas, acabais de perder o primeiro dos vossos avós. O vosso avô materno. O vosso avô Zé.
É véspera de Carnaval. Todo o dia esteve estranho, alternando entre algum sol e muita chuva miudinha. Como o pai não trabalha e não vos levámos para o infantário, decidimos ir convosco a Esmoriz, para brincarem numa sala meio ATL, meio parque de diversões fechado, que adorais.
Almoçámos lá e, quando chegámos ao tal sítio, estava fechado. Pelo que nos disseram até é possível que tenha fechado de vez, como todos os negócios têm fechado neste país.
A tarde ficou horrível, chuvosa e muito ventosa e fria, mas o vosso pai lá arranjou maneira de andar a brincar convosco. Eu vi o mar de Inverno que adoro.
Está um tempo horrível. Sinto-me chateada, aborrecida, farta. Regressamos a casa pela Estrada Nacional. É bem mais agradável do que a Auto-Estrada. Passamos a Feira de Espinho. Ao ver aquela confusão, perguntas o que é, Leonor, e lá te dizemos que é uma feira muito grande. Vais reparando em tudo o que vês pelo caminho e vais comentando tudo. Tu, Carolina, segues o exemplo da tua irmã e lá vais também falando do que vês pela janela do carro novo.
Como ainda é cedo, e entretanto estais as duas a dormir, o pai pára em frente à praia de Salgueiros, para eu poder, mais uma vez, ver aquele mar que adoro. Saio do carro, apanho aquele vento forte e frio na cara, tiro umas fotos. Não me apetece vir embora, mas são horas. Sinto-me apaziguada, como sempre, depois de ver o mar Invernoso.
Quase a chegar ao Periscópio, no cruzamento da rua por onde passa o metro no empreendimento Cidade Jovem, o meu telemóvel toca. É a vossa avó. Estranho… Ela sabe que vou trabalhar a essa hora. Comento com o vosso pai: «a minha mãe… Será alguma coisa com o meu pai?» Faço esta pergunta sem sequer imaginar a gravidade, a profundidade do que já aconteceu e eu não sei. Imagino mais uma ida para o hospital.
«Nena, o pai acaba de falecer», anuncia a voz embargada da minha mãe. Reajo: «Mamã, estou a caminho do Periscópio, vou já para aí». Desligo o telefone. Anuncio ao vosso pai: «O meu pai acaba de morrer. Vamos já para lá.»
As duas já tinham acordado. Tu, Leonor, sempre atenta, percebes que se passa alguma coisa. Perguntas o que aconteceu. O que é que a avó me disse. [Read more…]