Avô

Adélia Pires

O meu avô João era o ídolo dos meus quatro anos.
Fazia magia com um relógio de bolso e com ramos de oliveira. Com essa magia encontrava água e nasciam poços.
Como era cantoneiro, plantava árvores ao longo das estradas e muitos anos depois da sua partida elas ainda lá estão.
Monumentos à sua memória.
Pedaços do tempo da sua vida.
Pedaços de mim porque as amo em memória dele.
Quando tinha tempo, amanhava um Chão, onde uma macieira esperava pacientemente até Setembro para dar à luz umas maçãs rosadas, que o meu avô guardava numa cesta e ficavam libertar perfume na frescura silenciosa da loja.
No quintal da casa fez um jardim de canteiros, onde antes da Primavera se anunciar, combatia os trevos de jardim, plantava bolbos de narcisos e túlipas, ajeitava os arbustos dos jasmins, aparava as “rapaziadas”, arranjava sombra para as hortenses, semeava amores-perfeitos e plantava açucenas.  [Read more…]

A carta do neto Manuel ao avô António

A carta do neto Manuel ao Avô António. Todos os avós e netos deveriam ler esta carta comovente, muito sentida, lado a lado com uma vida linda cheia de partilhas.

Filhas, o vosso avô morreu…

Hoje, dia 11 de Fevereiro, a vossa mãe ficou órfã de pai. Isto quer dizer que vós, minhas queridas filhas, acabais de perder o primeiro dos vossos avós. O vosso avô materno. O vosso avô Zé.
É véspera de Carnaval. Todo o dia esteve estranho, alternando entre algum sol e muita chuva miudinha. Como o pai não trabalha e não vos levámos para o infantário, decidimos ir convosco a Esmoriz, para brincarem numa sala meio ATL, meio parque de diversões fechado, que adorais.
Almoçámos lá e, quando chegámos ao tal sítio, estava fechado. Pelo que nos disseram até é possível que tenha fechado de vez, como todos os negócios têm fechado neste país.
A tarde ficou horrível, chuvosa e muito ventosa e fria, mas o vosso pai lá arranjou maneira de andar a brincar convosco. Eu vi o mar de Inverno que adoro.
Está um tempo horrível. Sinto-me chateada, aborrecida, farta. Regressamos a casa pela Estrada Nacional. É bem mais agradável do que a Auto-Estrada. Passamos a Feira de Espinho. Ao ver aquela confusão, perguntas o que é, Leonor, e lá te dizemos que é uma feira muito grande. Vais reparando em tudo o que vês pelo caminho e vais comentando tudo. Tu, Carolina, segues o exemplo da tua irmã e lá vais também falando do que vês pela janela do carro novo.
Como ainda é cedo, e entretanto estais as duas a dormir, o pai pára em frente à praia de Salgueiros, para eu poder, mais uma vez, ver aquele mar que adoro. Saio do carro, apanho aquele vento forte e frio na cara, tiro umas fotos. Não me apetece vir embora, mas são horas. Sinto-me apaziguada, como sempre, depois de ver o mar Invernoso.
Quase a chegar ao Periscópio, no cruzamento da rua por onde passa o metro no empreendimento Cidade Jovem, o meu telemóvel toca. É a vossa avó. Estranho… Ela sabe que vou trabalhar a essa hora. Comento com o vosso pai: «a minha mãe… Será alguma coisa com o meu pai?» Faço esta pergunta sem sequer imaginar a gravidade, a profundidade do que já aconteceu e eu não sei. Imagino mais uma ida para o hospital.
«Nena, o pai acaba de falecer», anuncia a voz embargada da minha mãe. Reajo: «Mamã, estou a caminho do Periscópio, vou já para aí». Desligo o telefone. Anuncio ao vosso pai: «O meu pai acaba de morrer. Vamos já para lá.»
As duas já tinham acordado. Tu, Leonor, sempre atenta, percebes que se passa alguma coisa. Perguntas o que aconteceu. O que é que a avó me disse. [Read more…]

as minhas memórias: netos

as minhas memórias

 ….para a minha neta mais nova, May Malen, que, nestes minutos, voa de volta para sua casa… acompanho-a com a escrita. 

Tenho a sensação que nós, adultos maiores, desejamos uma descendência, como tenho escrito noutros ensaios do nosso blogue, divertida, carinhosa, sem temor, que saiba rir e nos traga felicidade.

Certo está quem escreve, existir uma geração nova, entre os netos e nós, os avós. Essa geração é a que sabe como tratar os seus pequenos, não grita, acompanha-os nas viagens por sítios perigosos, se não estivermos, as duas gerações, de forma silenciosa, a medir essas aventuras. De forma escondida, a observar, não por felonia ou protecção, mas para quem experimenta se se pode sentir seguro das suas aventuras. [Read more…]

a morte do avô

textoi dedicado em 2004 à pequena querida Constança Souta, hoje já menina

Alice Miller, no seu texto de 1999, afirma que a verdade liberta os seres humanos, as pessoas. Mas liberdade para quê? Talvez para o caminho do engano e da falsa verdade que o adulto tenta transferir aos pequenos, por causa do seu próprio temor. Ou, por causa da sua própria dor. O adulto nem sempre entende o que é a realidade e pretende transferir o seu entendimento, para fugir da tristeza que certos processos da vida lhe causam. A morte é um deles. Especialmente, a morte do pai ou da mãe do adulto. Os grandes ficam presos nos seus sentimentos, do amor que têm e tiveram e vão continuar a ter, pelo adulto desaparecido. Essa dor faz com que disfarcem o real perante os mais novos, facto que me faz pensar noutra ideia de Alice Miller, a de 1981: não deves saber que…?

Nós, adultos, parecemos possuir a verdade que liberta, não está nos livros, está na vida e no decorrer do nascimento até partirmos para outro sítio. Qual o lugar, quem vamos ver outra vez, onde está a pessoa amada? Mas será que uma criança coloca esta pergunta? Nós, adultos, não temos resposta perante a morte. Para nós é um sentimento, uma comoção. Um terramoto nas nossas vidas, como se o chão nos fugisse. É um

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a morte do avô

O que o avô faz em vida

Não é em vão que Alice Miller recomenda, no seu texto de 1999, que a verdade liberta os seres humanos, as pessoas. Mas liberdade para quê? Talvez para o caminho do engano e da falsa verdade que o adulto tenta transferir aos pequenos, por causa do seu próprio temor. Ou, por causa da sua própria dor. [Read more…]

A minha menina

May Malen, Cambrige, 240310

A neta ri com brincadeiras do avô

Ou talvez, o meu bebé? Menina define uma criança já crescida, que fala, tem uso de razão, sabe usar a sua inteligência, enquanto um bebé apenas quer comer e dormir e estar no colo dos seus pais, especialmente nos braços da sua mãe. Para um bebé, essa mulher adulta que amamenta, é o mel dos seus olhos. Como são de mel, na permanente carícia, as palavras que me são impossíveis de descrever. São apenas sons, quase em silêncio, palavras doces, um permanente olhar para o fruto da sua criação, resultado de dois que se amam com imensa paixão. Nem podia ser de outra maneira. Referi num outro texto meu como os seus pais se tinham conhecido aos cinco anos de idade. Trinta anos depois. Passara um tempo, o rapazito de cinco anos teve de se ausentar da escola onde os dois estudavam as sua primeiras letras, por causa do trabalho dos seus pais e pelo mesmo motivo, voltaram a reencontrar-se já mais crescidos, na mesma escola que lhe transmitira os primeiros saberes. [Read more…]

O meu filho sai ao pai

Um dia o meu filho chegou aqui a casa e diz-me, é pá, levas-me amanhã ao aeroporto? Vou de férias para a Sicilia, com a Crischa. Eu nem sabia quem era a Crisha, mas como desde os dezassete anos que andava de comboio por essa Europa fora com amigos e amigas calculei que fosse uma namorada.
Passados quatro dias, como não obtinha “feed back” (estou muito liberal…) telefonei e diz o gajo, todo lampeiro: estamos bem e casados!
Quer dizer o jovem não está de modas casou-se numa pequena aldeia na pequena ilha, branca, cheia de sol e junto ao mar. E eu sem perceber nada apesar do gajo me ter pedido um casaco escuro, e uns sapatos pretos para as ocasiões “finas”.
Bem, hoje, veio cá jantar com a mulher para me ensinar a fazer “links” e mal me sento, digo-lhes com ar de “pater famílias” estilo Ricardo com a manta pelos joelhos, vão hoje ao Aventar que a Carla escreveu um texto muito importante sobre a felicidade, que vale a pena ler e matutar no que ela diz, e o Hugo Luis não está com modas, diz-me logo é, pá, ainda bem que falas em felicidade porque acabamos de saber que a Crisha está grávida, vais ser avô!
Já marquei consulta para o médico, já para amanhã e ando aqui ás voltas com uma suspeita. Os textos da Carla e do Ricardo estão “feitos” com a Crisha? Estavam a preparar-me?

Os mistérios do Natal

Como já tive ocasião de aqui escrever a minha vida de criança foi de saltibanco. Nasci a Norte, cresci no Interior e acabei a estudar e a trabalhar em Lisboa. Para quem teve a felicidade de criar raízes, não sabe o que deve a Deus ou ao destino, ou aos pais que pensaram a tempo e horas, enfim, agradeçam.

Quando vim para Lisboa aos dezoito anos, andei um ano com uma dor de barriga e chorava baba e ranho nas noites solitárias, prenhes de saudade. Da minha rua, do sol da minha rua…

Num sábado cheio de sol, tínhamos um baile em casa de uma colega do ICL, actual ISCGL, e estavamos aprumadinhos como convem, fomos almoçar, bebemos uma cervejinha e toca a ir para a Praça do Chile.

Antes de entrarmos, alguem se lembrou de beber um “eduardinho” e cá o jovem foi na cantiga, fazia frio, estavamos próximo do Natal e havia que fazer “lastro”. Passada meia hora, dizem os meus amigos, eu estava com a maior bebedeira de que tinham memória, a ponto de teram pensado em levarem-me ao hospital.

A verdade é que eu era um puto num corpo grande, nunca tinha bebido e o “eduardinho” foi fulminante. Lá me deitaram numa cama num quarto escuro, lembro-me de ouvir as vozes do meu irmão e outras que não reconhecia e passei a tarde numa enorme lástima.

Quando comecei a acordar e os vapores do alcool se começaram a evaporar, dei comigo com a cabeça no colo de uma mulher que não conhecia de lado nenhum, e que com todo o carinho e grande perícia (depois contou-me a que se devia…) me dava pequenos goles de “Água das Pedras “.

Ainda atordoado, os meus amigos arrastaram-me com eles para a residência que partilhavamos e deixamos a conversa para o dia seguinte. A minha curiosidade ia toda para aquela mulher que me havia ajudado e queria agradecer-lhe. Passados uns tempos encontramo-nos. Era uma mulher de meia idade com duas filhas que tinham estado no baile e que eu não conhecia.

Essa mulher tornou-se avó do meu filho ! E nunca, mas mesmo nunca, me falou no assunto da “azia”. O Natal está cheio de mistérios, assim tenhamos a alma aberta para os encontrar…

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