Método Científico

Fui desafiado. Desafio impossível de não responder. Foi-me dito por pessoas de respeito e de saber, que os meus (últimos) escritos não são científicos nem académicos e que, aliás, escrevia em sítios não ligados à vida universitária, como por exemplo, o Aventar. Não devem saber que Marx escrevia em papel de envolver o pão comprado ou nas margens dos jornais….

É pena, porque, uma das pessoas, que me lançou o repto de luva branca, aprendeu o abecedário da ciência comigo. Uma outra, ainda não tem provas de ciência examinadas para saber se um texto é académico, científico ou se descobre uma verdade provada, isto é, não se encontra, ainda, legitimada pela Academia. Longe de mim pensar que o dito foi com má intenção, mas parece-me um desafio digno de responder.

 

 

 

 

Tenho escrito textos sobre a psicologia da infância, a sua educação, a interacção com os seus pares e com os seus adultos, a partir de ideias apontadas no que na Ciência Social denominamos Diário de Campo, livros que servem para «prender» rapidamente ideias que ouvimos enquanto estamos em trabalho de investigação,  no sítio de pesquisa e que, seguidamente, em casa introduzimos essas ideias no nosso computador, em cadernos maiores, ou em folhas que passam nas máquinas de escrever, como nos tempos do meu "cátedro" Sir Jack Goody (e mesmo meus): não havia computadores.   As ideias e factos são normalmente retirados  do que em Antropologia, e na ciência em geral, designamos factos aprendidos no trabalho de campo. A teoria, connosco, permite-nos formular uma hipótese para a pesquisa, hipótese base de formulação do que pretendemos  encontrar a partir de uma dúvida suscitada por um facto ou uma leitura. O Diário de Campo é o instrumento fundamental e factual de um investigador, útil para apontar ideias novas que nos aparecem nas conversas, na interacção com vizinhos, que mais tarde, no decorrer do tempo, passam a ser amigos. O Diário de Campo utiliza-se para anotações rápidas, enquanto olhamos para a pessoa que nos fala: é preciso inventar uma grafia para não perder palavra nenhuma de tantas que se ouvem. Ou, uma outra forma, jogar a ser tonto, dizer que não sabemos onde estamos e solicitar à pessoa que desenhe o sítio no qual estamos parados. Este livro é para os factos descobertos, é o arquivo que um historiador usa para encontrar ideias de um passado já desvanecido, mas que ficam nos documentos que os dedicados investigadores usam para aprender essa parte da história social e os seus costumes, diálogos nunca ouvidos e analisar as palavras com a metodologia que usam os semiológicos, começada por Ferdinand de Sausure (1857-1913)

 

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continuada por Marcel Mauss e aperfeiçoada por Luc d’Heusch e Claude Lévi-Strauss, em datas por todos conhecidas. A novidade da semiologia está definida pelo próprio autor: a singular entidade psíquica de duas faces que cria uma relação entre um conceito (o significado) e uma imagem acústica (o significante) – conduz à necessidade de conceber uma ciência que estude a vida dos sinais no seio da vida social, envolvendo parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral. Chamar-lhe-emos semiologia. Estudaria aquilo em que consistem os signos, que leis os regem.». Fonte: Cours de Linguistique Générale, 1905-1906. Os seus conceitos serviram de base para o desenvolvimento do estruturalismo no século XX. As  dicotomias linguísticas, descobertas por ele, são base para uma das metodologias científicas usadas na ciência social. Mas, não é tudo para entender o método científico.

O método científico é um CUP, conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos.

A Hipótese (do gr. Hypóthesis) é uma proposição que se admite de modo provisório como princípio do qual se pode deduzir pelas regras da lógica um conjunto dado de proposições, ou um mecanismo da experiência a explicar.

Literalmente pode ser compreendida como uma suposição ou pergunta, conjectura que orienta uma investigação por antecipar características prováveis do objecto investigado e que vale quer pela confirmação através de deduções lógicas dessas características, quer pelo encontro de novos caminhos de investigação (novas hipóteses e novos experimentos).

No método científico, a hipótese é o caminho que deve levar à formulação de uma teoria. O cientista, na sua hipótese, tem dois objectivos: explicar um fato e prever outros acontecimentos dele decorrentes (deduzir as consequências). A hipótese deverá ser testada em experiências laboratoriais controladas. Se, após muitas dessas experiências, os resultados obtidos pelos pesquisadores não contrariarem a hipótese, então ela será aceite como uma lei e integrada a uma teoria e/ou sistema teórico. As minhas referências são as de Karl Popper(Viena, 28 de Julho de 1902Londres, 17 de Setembro de 1994). Popper cunhou o termo "Racionalismo Crítico" para descrever a sua filosofia, especialmente no livro A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (1943), CUP base dos meus textos ingleses.O desespero dos cientistas é a descoberta do que é o método científico. Cada intelectual procura a sua metodologia e é classificado por ela. As ciências sociais confundem-se com o senso comum já que, para além da inexistência de códigos e instrumentos específicos, todos os indivíduos procuram orientar e racionalizar as suas acções dentro de uma determinada estrutura social, verificando-se assim a dificuldade de eliminar aspectos subjectivos na análise do cientista. Tarefa difícil de realizar. O caminho mais simples é o preconizado por John Stuart Mill, filósofo e economista escocês, que em 1895 no texto Utilitarianism, editado por William Colins Sons & Co, Glasgow, diz que o caminho mais simples para saber a verdade de um facto, é o da lógica ensinada por David Hume em 1739: A Treatise on Human Nature, Oxford University Press, versão portuguesa da Editora Gulbenkian, 2001. A lógica recomendada é da indução, dedução. A indução é entender os factos que pretendemos desvendar, aplicando teoria e, através de outras hipóteses, explicar a nossa pretensão; alternativamente, mas em conjunto, a hipótese da dedução: estudar os factos e retirar deles teoria ao comparar com métodos provados de pesquisa. A meu ver, indução e dedução devem ser usados em conjunto. É impossível teorizar sem factos investigados, bem como fazer da teoria, factos. Este foi o caminho que aprendi com o meu orientador de estudos, Jack Goody, que me ensinou também que os factos são retirados do t
ra
balho de campo e dos arquivos onde eles constam, uma teoria teoria histórico antropológica 

Sir John (Jack) Rankine Goody (nascido a 27 de Julho de 1919) é um Antropólogo Social Britânico British social anthropologist. Tem sido um proeminente na Universidade de Cambridge University, foi eleito membro de Número da British Academy em 1976, e associado à US National Academy of Sciences. Entre várias das sua inumeráveis publicações, destaco Death, property and the ancestors (1962), The myth of the Bagre (1972) The domestication of the savage mind (1977), todas traduzidas em vária línguas, entre elas, a luso brasileira.

Foi com estes textos e outros, assim como com as suas palavras, que aprendi o método substantivistas para a investigação da mente humana, os seus pensamentos e a origem dos grupos sociais que tenho estudado ao longo das últimas 4 décadas. Jack Goody, explicada a organização da estrutura social e a sua mudança, na base de três factos importantes da sua teoria. O primeiro, é o desenvolvimento de formas intensivas de agricultura que permitiram uma larga acumulação de mais-valia –  mais-valia que explica  aspectos de práticas sociais, desde o casamento até ao funeral, bem como a grande diferença entre as sociedades africanas e euro asiáticas. O segundo, centra-se na mudança social partindo da urbanização e crescimento das instituições  burocráticas, que modificaram e apagaram formas tradicionais de organização social, como a família tribal, identificando civilização como a "cultura das cidades”. Finalmente, o terceiro, destaca a importância das tecnologias de comunicação como instrumentos de mudança psicológica e social. Associou o começo da escritura com a necessidade de gerir a mais-valia recebida pelos mosteiros, como define no seu importante ensaio escrito e pesquisado com Ian Watt (Goody e Watt, 1963), provando o argumento de que o nascimento da ciência e da filosofia na Grécia Clássica dependeu essencialmente do surgimento de um engenhoso sistema de escrita, o alfabeto.

Os factos atrás enumerados podem-se aplicar a um qualquer sistema social contemporâneo, através do tempo ou a mudanças sistemáticas ocorridas ao longo dos tempos. O seu trabalho é relevante para qualquer disciplina, como o é, para esta minha hipótese, o trabalho de David R. Olson, ed. Technology, Literacy and the evolution of society: implications of the work of Jack Goody. E mais nada acrescento. Os meus livros falam, eles próprios, do método científico, especialmente o Capítulo VI: Trabalho de Campo e Observação Participante em Antropologia, páginas 149 a 163, do texto Metodologia das Ciências Sociais, 1986, Afrontamento, organizado por Augusto Santos Silva e José Madureira Pinto. Texto em que doze de nós coloca a questão do Método Científico, com doze respostas diferentes….