«Faz de mim a tua puta»
Pedro Abrunhosa, “Não posso mais”
Passos Coelho reapareceu e começou por permitir que o gravassem em amena cavaqueira com André Ventura, o seu filho dilecto. Logo aí deixou escapar a ideia de que é preciso mais ritmo e de que as pessoas estão «impacientes». Ventura contrapôs que as pessoas estavam «desanimadas», mas Passos, grave, não concordou, impacientes é que era.
Este duelo de adjectivos caracteriza bem as pitonisas do espaço público que sabem tudo sobre o que as pessoas ou os portugueses ou o povo sentem, precisam, sabem, entre outras intimidades. Passos, Ventura e outros do mesmo calibre afectam penetrar na psique colectiva com uma facilidade que faria inveja ao mentalista mais competente. Da próxima vez que alguém me perguntar o que penso ou o que sinto, terei de pedir que aguarde a informação que me será enviada por Passos Coelho. Para já, fiquei a saber que estou impaciente.
Mais à frente, Passos fez referência a políticos que são «prostitutos sem carácter», que, ao que parece, são aqueles que, não sendo populistas, imitam os populistas. Por falar em populistas, é importante lembrar que André Ventura continuava na assistência.
O mesmo André Ventura veio explicar que Passos estaria a referir-se ao governo. André Ventura terá confessado que a expressão não poderia referir-se a si próprio, porque tem carácter.
Usar termos relacionados com a prostituição como insulto é uma prática já antiga e Passos é um tradicionalista. Eu próprio vou, por vezes, um bocado mais longe e chego a usar termos ainda menos próprios como “puta”, como acontece na expressão “Os portugueses foram a puta da troika”, o que me leva a pensar em Passos como um proxeneta. Passos terá dito à troika que os portugueses estavam impacientes por serem sodomizados, outra metáfora deselegante para quem é prejudicado. Por outro lado, dou por mim a pensar que isto de abrir as pernas e pagar para ser fornicado é o contrário de prostituição.
A expressão escolhida por PPC será deselegante, mas Passos sempre gostou de se mostrar um homem simples, usando uma linguagem ainda mais simples do que o homem. Muitas vezes, os políticos ligam a aspereza da linguagem à sinceridade, porque é preciso dizer as verdades, dar um murro na mesa. Ser grunho não resulta, portanto, de uma limitação, é retórica.
Desde o tempo das cavernas que haverá Passos e Venturas, capazes de fingir raivas e indignações, de chamar nomes feios aos outros cavernícolas. A política será, no mínimo, uma profissão tão antiga como a prostituição, ao ponto de, por vezes, se confundirem. O tempo das cavernas ainda dura e os prostitutos sem carácter participam em apresentações de livros, enquanto fazem cenas dignas de ruas mal afamadas.
Finalizo, já imaginando Passos, Montenegro e Ventura, cada uma na sua esquina, de saia curta e liga à mostra, com Passos a gritar Há para aqui umas putas sem carácter, como outras que há para aqui, fingindo não olhar para Montenegro e apontando o queixo para Ventura, que guincha Ah pois é, ó Montenegra, chupa. Montenegro, puta velha, sorri e diz, enquanto dá palmadas na coxa, Invejosas.






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