Transição é um conceito trabalhado por nós em Portugal, na sequência dum seminário da UNESCO, realizado entre Paris e Lisboa. Definimos o conceito tal e qual como está referido no livro publicado em 1991 e que consta na bibliografia do presente texto. Era um conceito sobre o social; de como dentro da interacção, há rasgos de comportamento estabelecidos a permanecerem, ideias a mudarem, gerações de diferentes saber a conviverem, contexto social de memória larga, contexto social de memória curta, contexto social em permanente mudança. Uma sistemática contradição do que as pessoas pensam, dizem e fazem. Contradição a dinamizar o crescer no labirinto da história.
passagem de acordo com Van Gennep (1909), a passagem duma forma de viver para outra, processos diferentes em toda a cultura. Como Frazer tinha ensinado ao analisar mitos em 1890. Como Goody me ensinou directamente e, posteriormente, escreveu de forma muito esclarecida (1995). Ou como Maurice Godelier debatera connosco no citado seminário, passando essas suas ideias à escrita em 1981 e 1984. Análises que todos temos desenvolvido nos nossos trabalhos ao longo dos derradeiros 20 anos. Persona acabava por ser uma entidade em transição, em mudança permanente. Rasgos do ser ficam a serem desenvolvidos ao longo da vida, rasgos do ser a nascerem nesse itinerário histórico em interacção.
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ientado pelo saber da sua cultura. Sem saber que o que está a aprender já o percebia. Como andar, comer, rir, escapar…perante imagens gravadas com antecedência na sua memória individual. Porquê o comentário típico dos adultos, ao dizerem: ri como a mãe, tem as cores do pai, foge como o seu avô fugia em pequeno, ri perante as mesmas tolices que o seu tio mais velho? Comentário de família feito em torno de uma teoria da qual ainda pouco se sabe. Ainda menos, tecida com o saber da experiência do grupo. O crescimento não é apenas o nutrir, ensinar, orientar e dinamizar. O crescimento é assimilar o afazer dos pequenos ao afazer dos adultos. Ou, comparar essas tarefas com as tarefas dos adultos. Como esse avô do qual falo num outro texto (1999d), a ensinar gentileza a uma criança por meio de a fazer repetir gestos dum homem adulto: Menino, faça um cavalheiro, e o menino calava, cruzava as pernas e ficava a olhar à distância, sério, de olhos fixos, calmo e senhor de si próprio. Talvez seja a primeira vez que eu próprio me tenha apercebido do saber envolvido no crescimento da criança: um saber sabido, evidenciado enquanto lhe é transferido o saber social que a criança pensa, mede, calibra e aceita (ou não). Chamam teima ao não querer fazer. Chamam manha ao teimar em fazer como a criança quer. Chamam mal comportamento à autonomia do agir, ao isolamento procurado pelos mais novos, à resistência a querer obedecer o que não gosta de fazer. Os adultos não sabem que a criança tem pensamento. E que a dita teima é apenas o conferir entre o que sabe e o que lhe é transmitido como ciência ou fazer social, saber social. Bem diz Paulo Raposo nos seus textos (1991,1996,1998), que os ateliers que faz com crianças, retiram das mesmas um saber aprendido de não sabe onde, antes de irem à escola ou serem ensinados no lar, na rua ou na catequese. Um Paulo Raposo que deverá entender agora que esse saber vem incutido desde o primeiro dia de existência e é apenas desenvolvido por meio dos estímulos que os adultos lhes dão. Em actividades performativas ou rituais criadas pelos mais novos ao longo das brincadeiras da vida. Essa que Filipe Reis estudou (1991), quando prova que a brincadeira é uma forma de calcular o sim e o não da opção que todo o ser humano faz na vida adulta. Uma ideia que já tínhamos estudado em equipa nos Tempos Livres de Vila Ruiva e relatada em vários textos a teorizar o saber que a criança tem porque o traz consigo.

theatre, fiction, relics and sexuality. Blackwell Publishers, London.






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