Com a licença das pessoas que acreditam em Deus. Queiram estimar o que vou dizer apenas como uma análise do que posso apreciar na população, a qual eu também sou parte. Uma população não apenas portuguesa, mas ocidental, incluindo as colónias. Com a licença das pessoas que acreditam serem criadas por uma divindade eterna e omnipotente. Uma divindade que dá descanso eterno no prazer do não trabalho, ou trabalho eterno na ira do mau comportamento. Como Etnopsicólogo observo o agir dessas pessoas e respeito a sua forma de pensar e de sentir a existência duma divindade, o que se designa fé. Fé na existência duma testemunha que observa todos esses comportamentos, desejos e pensamentos.
Como se fizesse observação (participante) dos afazeres de todos e em todos os sítios.

1. Esse acreditar provém da circulação das ideias entre pessoas ao longo do tempo, nasce do que nós próprios observamos como ritual da nossa conduta, como explicação do que pensamos ser correcto. Denomino esta ideia, a lógica religiosa do comportamento. Lógica que advém do pensamento analógico, ou pensamento retirado do que somos capazes de observar. Um pensamento mímico, que reproduz fora da interacção quotidiana, o ideal de como gostaríamos de viver: eternamente – sem tempo, omnipotente, sem comprometer o corpo, a saúde e as forças; só com o pensamento. O pensamento analógico é a lógica orientada pela abstracção do real, em símbolos. O mundo é de interacção; é caótico, hierárquico e tendencialmente igual nessa interacção, e, no entanto, socialmente desigual na dita interacção. Caótico, pela luta pelo poder. Caótico, porque pela luta para ganhar. Caótico, porque é preciso dar nas vistas; como a roupa, entre outros factores, que publicitam quanto é que temos, donde, quanto podemos. Caótico, pelo amor a uma pessoa, num dia e no seguinte a outra. Caótico, pelo abandono. Caótico, enfim, porque subjugamos os outros para os dominar. Para usarmos o que somos como garra de poder. Garra que agarra a opção dos outros, o pensamento, o sentir e o interpretar.
Se o mundo, na sua interacção, é tão caótico, como é que vivemos em paz?
Abatimento que todo o ser retira do processo estruturado de proibições que comanda a vida. Processo que é o conjunto de mandamentos e proibições que a mente humana obedece desde os tempos sem cronologia: quando os manuscritos dos Mandamentos começaram a aparecer. Que me manda que aos domingos não trabalhe, para render mais valia aos proprietários dos meios de produção; que devo ser fiel à mãe e ao pai e leal à companheira. Que me manda traçar um círculo entre o que é meu e o que é de outro e, ao mesmo tempo, fala da caridade de dar e entregar tudo o que eu tenho a todos que nada têm. Um conjunto de contradições para orientar a minha disciplina e conservar o meu corpo descansado, corpo que serve, se estiver descansado, para trabalhar. Para trabalhar para os outros. Um limite entre o meu agir e o agir dos outros, limite que faz bem ao social, obrigando-me a fugir do que não deixa o social em paz, ainda que me apeteça não fugir. Sei que, se não fujo desse segundo desejo, de desandar pelo mandado, vou ficar melhor andando que desandando. Andando, demanda de mim a lealdade ao compromisso social. Há esse ver, ouvir, calar e falar só quando for solicitada a minha opinião.
Entender ser só uma imagem das ideias que a humanidade me fez herdar, e não o original. O original é que vê, sabe, percebe antes, julga e decide.
Abatimento por estar cansado de debater entre iguais e não de acumular riquezas entre seres que disputam, lucram, subordinam, afastam e não trazem amor para si próprios nem para os demais. Abatimento pelas causas perdidas causadas pelo cumprimento do mandado – Cria. Envergonha. Fuzila em vida. Mete a vida numa prisão vital. Prisão dita dourada. Mas é preta. Abatimento das contradições que o amar dá. Que o esperar, dá. Abatimento que me disseram, era vida normal, por amor à imagem que devo imitar para ser bom. Que a política do religioso, denominada Igreja, manipula com os exemplos que fazem das pessoas neuróticas; que a obedecer me manda. Como a vida de Ghandi, como a de São Vicente, a de Santo António, o Lenho da Cruz que me fará ressuscitar um dia. A mão de Teresa de Ávila, que tanto tempo acompanhou o ditador do país vizinho. Abatimento por não entender porque são condecorados esses que mais
matam pessoas, que mais roubam as pessoas no salário, que mais exibem a sua capacidade de mandar, de se juntar, conjunturalmente, para se desfazer de quem pensa na persistência do servir. Abatimento, enfim, incutido na catequese que ensina a não dormir por temor aos sonhos, a não dizer pelo temor ao compromisso, a não amar com devoção e a não ter compromisso à paixão, esbarrando, assim, nos pensamentos diferentes do meu eu. Enfim, é a contradição entre o mandado e o querer fazer e cuja via é inventar uma fantasia para nunca ser dito o que se quer.
2. Queira desculpar o leitor. Mas, já percebeu que vive num país anticlerical, berço da República? Que confunde a República com o não amar o outro como um igual, como a si próprio? Não reparou o leitor, por acaso, que a República é cristã? Cristã não quer dizer católica, ou anglicana, ou presbiteriana, ou budista, ou maometana? Já percebeu que a lógica da sua cultura é a lógica do religioso, isto é, da ordem, do caos abatido e ordenado pelos mandamentos? Mandamentos que, existem ainda no melhor dos ateus, vivem em nós? Quem de nós é poligínico, poliandrico, adúltero, bissexual, homossexual, mono sexual ou ladrão que penetra o círculo íntimo do outro? Que dessa intimidade do outro, se fala em conversas de corredor? Que em conversas «não digas a ninguém», tudo se conta e tudo se diz? Que tem um espelho fácil e simples para poder fazer como melhor entender, e se arrepender depois, na confissão? Esses manuais, pelos quais percorre a sua situação ideal para ser sempre perdoado? Querer ser sempre perdoado é a prática
típica do amor ao próximo? Porém, pode-se sempre falar? Queiram desculpar os pais, formados na mais antiga catequese, a de Pio XI, a de João XXIII, e não na de João Paulo II, ou de quem por ele escreveu, mas, por acaso, a disciplina do ser não está na lógica que, sem saber, anda a governá-los? Como governa os seus filhos? Num país cristão que nem tem reparado que a sua economia é derivada do pensamento de Agostinho de Hipona – esse São Agostinho – de Tomás de Aquino? Esse São Tomás dominicano? Em livros escritos há séculos (IV o primeiro, XIII o segundo), em África, A cidade de Deus; em Paris e Peruggia a Summa Theologica? Fontes básicas para o desconhecido Tratado de Economia Política do parisiense Henri de Montchrestien do século XVI, da famosa Riqueza das Nações de Adam Smith do século XVIII, do seu homónimo actualizado Liberdade para Escolher de Milton e Rose Friedman de 1979? Textos que hoje nos governam e que são ensinados na catequese, na conversa quotidiana ou na prática de sermos bons parentes, vizinhos e amigos. Ou de cantarmos como Godinho já cantou, que força é essa amigo que te cresce nos dentes….
Quem entende de economia, é porque entende de religião. É porque, saiba ou não, todo o princípio económico é derivado dos textos antigos e modernizados
nos recentes e recalcados Direito Canónico feito Civil pelo original liberalismo de Napoleão Bonaparte. Esse que se fez Imperador para mandar nos reis e incutir o fim da escravatura subjugada do homem que deve dar metade dos seus bens ao proprietário, ao patrão, ao banco. País fatimizado, como todo o Ocidente. Que junta, sem dar por isso, o lucro e o credo. Conceitos batidos pela Enciclopédia de Diderot, já morta, ainda que cantada no Schiller de Beethoven, no Requiem do Mozart: uma alegria o primeiro, um descanso o segundo. País fatimizado no qual aprendem as nossas crianças. Crianças às quais ensinamos o saber fazer económico, sem sabermos que essa lógica advém do religioso. Fatimizado, metáfora de vitimizado pela ignorada crença de que a lógica do religioso é a divina economia que perdoa juros e benefícios. Como dizem os manuais de confissão, que manipulam politicamente a dita lógica. Lógica religiosa que organiza toda a sociedade e toda a cultura: esse comportamento social interactivo, desejado igualitário, mas impossibilitado pela corrida que faz já sete séculos, o ocidente criou….Para travar quem ganha… Incentivar a concorrência….Fatimizar a meditação…
Mesmo no dia do desfile de milhares que pela estrada procuram alívio, há hoje ilusória necessidade de lucrar, que Fátima outorgaria. Porque o crédito que dá estatuto à vida deve-se sempre pagar….Aos modernos bonapartistas…

Epistemologia da criança assim criada. Saber sobre a criança. Um saber sem o qual não há médico que cure, analista que oriente, professor que ensine, pais que amem, catequista que (in)doutrine, actor que divirta. Medium que nos ligue à divindade encarnada na economia, manda. Ser mandado e não fazer, ai do pecado! Que leva à pobreza como Max Weber, em 1905 diz na sua Ética Protestante. Reproduzida a partir do ético fundador, em 1776, da Riqueza das Nações, Adam Smith. Incutida em nós pelos cristãos novos Milton e Rose Friedman em 1979, que nos levam a acreditar na Liberdade para Escolher, onde nos querem ensinar que, se não fizermos como está mandado, andamos da falta de lucro, à pobreza; da pobreza à solidão; da solidão à
delinquência; da delinquência à prisão; da prisão, à solidão que na vida diária nos agarra. Até morrer. Sem ter. Sem ser.
Epistemologia da criança que o senhor leitor nem sabe que sabe e pratica de forma lógica, quer no santuário, quer no banco. Ao mesmo tempo. De forma igual. Com o mesmo espírito.
Donde, em vozes e badaladas…cantamos…calculamos…Avé, Avé…






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