Normas e anormalidades

multi-charger-wall-plug-car-plug-usbImagine uma civilização onde cada marca de lâmpadas tinha seu casquilho. Ou cada fabricante de electrodomésticos escolhia o seu formato de tomada. Era complicado.

Mais do que isso, enquanto consumidores ficaríamos obrigados a optar por um único fornecedor de lâmpadas, e teríamos de comprar uma tomada adequada a cada utensílio eléctrico, ou seja: limitávamos a inovação e pior ainda estaríamos condenados a escolher uma empresa fornecedora para a vida, criando inevitavelmente monopólios. E como toda a gente sabe desde que o capitalismo liberal despontou, onde há monopólio não há inovação, ou pelo menos ela ficará seriamente comprometida.

Chama-se padronização, estuda-se no 9º ano a partir do taylorismo (mais virado para a produção, mas que vai dar ao mesmo) e qualquer miúdo do 14 anos a entende no instante. A título de exemplo, não fossem as peças dos PC’s padronizadas, de tal forma que até um trapalhão manual como eu muda uma placa gráfica, e não me estaria a ler neste instante, já que o preço dos computadores teria sempre sido muito mais elevado (basta ver o exemplo da filosofia Mac para o assunto que sempre produziu aparelhos Apple mais caros, pode ter inovado muito mas não massifica o consumo porque os clássicos baseados no IBM-DOS, normalizados, sempre foram mais baratos), isto já para não falar das normas que regem a rede chamada internet, que são precisamente padrões que nos permitem comunicar.

Ora um liberal se quer é mercado, livre concorrência, inovação pela competição, só pode aplaudir que finalmente exista uma norma europeia para carregadores de telemóveis, precisamente a USB dos computadores e seus periféricos. Por um lado acaba a necessidade de comprar uma carregador para cada marca ou modelo, baixando os custos, reduzindo o custo final e o desperdício que bem pode ser investido noutro lado, por outro a comodidade é imensa, quem nunca se defrontou com a pergunta tens um carregador nokia dos finos ou dos grossos, nunca teve visitantes com a bateria fraca lá em casa.

Uma pequena ajuda às empresas que em Espanha ou em França importam contentores de telemóveis, adaptam o software e dão assistência técnica, permitindo que por exemplo um BQ de igual dimensão custe metade de um Samsung, fazendo do smartphone um aparelho corrente, com todas as possibilidades que isso abre a diversos mercados a jusante. E finalmente outras empresas podem especializar-se no fabrico de carregadores, diminuindo o seu custo e inovando na sua qualidade.

Tudo isto porque, fenómeno aparentemente estranho, os que entre nós se dizem liberais estão contra. É uma cena de burocratas e que contraria a inovação, diz o João Miranda, porque se anuncia o 243º novo tipo de bateria de carregamento rápido e, acha ele mas nem o demonstra, tal é incompatível com um carregador USB

Mas não é estranho porque o absolutismo dos mercados na realidade não gosta da concorrência: assim o vemos aplaudindo privatizações que sucessivamente criaram monopólios (da distribuição de energia aos CTT), e muito caladinho perante o que temos nas telecomunicações, onde três empresas descaradamente funcionam como um cartel abusivo para o qual não temos alternativa.

Liberais? nem um pouquinho, tal como rapidamente percebe um miúdo de 14 anos.

 

Comments


  1. As regras comerciais não devem ser ditadas por Bruxelas. Existem adaptadores, carregadores universais (quem têm múltiplas saídas) para tomada e carregamento nos automóveis. É uma questão de mercado e livre escolha do consumidor. Por mim, continuo a escolher a Apple. E tenho dúvidas que este fosse sequer um problema na economia, mas os eurocratas gostam de regular. É aliás, a única coisa que sabem fazer. Portugal tem sido lesado na sua identidade ao longo dos anos. De Bruxelas não vem nada de bom há talvez duas décadas, por isso, nem surpreende.


    • O carregador universal está aí em cima. Quanto ao resto, obrigado por confirmares que de liberal tens o estranho conceito de defender as grandes empresas contra o consumidor e a concorrência que os possa ameaçar. Já desconfiava.


      • É um ponto de vista. Mas nem acho que isto seja uma questão política. De resto se vamos falar em práticas que defendem os consumidores das grandes empresas, talvez fosse bom começarmos pelos contratos e cláusulas das operadoras de comunicação. Isto para me ficar pelo sector. Sou fã da Apple, apenas isso. E gosto de ter um produto original, não me apetece mesmo nada que o fabricante fosse obrigado a fornecer-me outra coisa, só porque a legislação comunitária assim o determina. Embora pessoalmente consiga contornar facilmente esse problema se vier a surgir. Compro no Dubai ou algures fora do espaço U.E. O consumidor europeu é lesado com outros monopólios aos quais Bruxelas nada diz. Por trás desta medida não haverá algum interesse oculto? É que as marcas europeias de telemóveis têm vindo todas a perder mercado…

  2. tiago says:

    A “standarização” deu-se naturalmente, por ser benéfica para empresas e consumidores. Não foi preciso legislação e a que existiu veio apenas confirmar o que já era prática.
    Esta legislação de agora, impositiva, é típica de alguma Europa, pouco inventiva.
    Quanto aos monopólios em Portugal, foi o estado quem quis privatizar monopólios pré-existentes, nada fazendo para que a situação de monopólio cessasse de facto, sendo certo que teve anos e anos para o fazer. Não é a alteração da titularidade dos prestadores de serviços que me garante melhor qualidade ou poder de escolha, mas a efectiva diversidade da oferta. Não ouvi queixas contra a sua falta.

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