Impromptu (sem itálico, porque é mesmo um impromptu), devido a Bessa-Luís e Lourenço, mas a culpa é de Saramago

Porque hoje é sábado, estava a dar uma última vista de olhos ao texto da conferência de amanhã, domingo, sobre o gigante Saramago, e a recordar Eduardo Lourenço e Agustina (*Agostina, na RTP, como podeis ver na imagem que vos apresento, e sem o – entre o Bessa e o Luís, cortesia da RTP).

Lourenço e Bessa-Luís estavam constantemente a perguntar, durante as respostas, “não é?”. E em cada frase (ou oração): “não é?”. Mais uma frase, e tal, “não é?”. É um problema português, mas dos antigos. Tão antigo como Bessa-Luís, Lourenço e as minhas avós. Problema que teria sido resolvido com jornalistas sofisticados. À pergunta “não é?”, a reacção “não, não é” ter-nos ia poupado imensas horas de indefinição e angústia. Perante o olhar de espanto dos interlocutores, a repetição: “não, não é” teria resolvido o assunto. Assunto, graças aos deuses, resolvido, teríamos menos um pseudodilema linguístico a ocupar o nosso labor. Mas ainda não chegámos lá. Nem sei se lá chegaremos. A ver vamos. Veremos.

Fonte da foto: https://www.youtube.com/watch?v=X15Eia63Qpc&t=414s

Comments

  1. João L Maio says:

    E o Jerónimo quando diz “portanto”, no meio ou fim de cada frase? E um camarada meu que introduz um “digamos” a cada frase! Ou uma professora que tive no secundário que, depois de cada explicação, dizia um “não sei se me faço entender”.

    As bengalas linguísticas têm o seu quê de engraçado, o pior é quando são muito repetitivas.

    • Francisco Miguel Valada says:

      Obrigado, Johnny. Mas o “não é?” — sem reacção, e.g., do moderador, porque estás a responder a uma interpelação e não podes ser interrompido — dá-te uma (falsa) sensação de anuência. Não é?

      • João L Maio says:

        Sim, parece que o que antecede o “não é?” se torna uma verdade absoluta. Mas não acho que quem o pronuncia esteja à espera que a sua afirmação seja encarado como um dogma!

        • Francisco Miguel Valada says:

          O que dizes faz todo o sentido. Mas acho que há mais elementos subjacentes. Não é? (ainda vou ficar com o vício…).
          Há uns (muitos!) anos, fiquei completamente siderado com a palavra ‘obviously’, por causa de um artigo numa revista (Time? The Economist? Newsweek? Não me lembro) sobre o Merriam-Webster. Já procurei o artigo com palavras-chave, mas não o encontro.
          Sempre que escrevo ‘obviamente’ (e no Aventar, imenso e sempre intencionalmente), estou a visualizar o parágrafo desse ‘obviously’. Só o parágrafo. E, um dia, um colega meu escreveu um texto sobre o ‘obviamente’ e a carga negativa do ‘obviamente’. E fiquei a matutar naquilo. Os “obviamente” e os “não é?” não são intencionais, não (e creio mesmo que não e dou-te toda razão), mas irreflectidamente com o “não é?” e o ‘obviamente’ estamos a inibir e a testar o interlocutor. E o interlocutor passivo tem o direito ao sossego. Não estou a falar de gente como tu e eu que não se inibem por dá cá aquela palha, mas não somos a regra. Não é?
          Um grande abraço, Johnny.

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