«BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos da pandemia»

Nuno Pacheco denunciou estes *impatos do Expresso. Impatos? Do professor Expresso? Efectivamente: impatos da pandemia.

«Kestão ou cuestão, eis a questão»

Por Eduardo Affonso.

O problema n.º 4 só aparece daqui a uns meses

Tende paciência. Entretanto, ide-vos entretendo com o problema n.º 1, o problema n.º 2 e o problema n.º 3.

Problema n.º 3: COVID-19

Resolvidos os problemas n.º 1 e n.º 2, descubra agora, no seguinte parágrafo, as cinco palavras escritas com os pés pela redacção da Rádio Renascença:

“Sempre que uma pessoa é validade como infetada há um trabalho do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de procurar os contatos recentes dessa pessoa, por serem potenciais infetados”. Este trabalho de detetive pode ser facilitado com o recurso à aplicação agora desenvolvida pelos investigadores do INESC Tec, e assim poupar-se tempo ao SNS.

SOLUÇÃO: [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 e a consagração da falta de respeito

A thing of beauty is a joy for ever.
Keats

***

José Cutileiro (1934-2020) escreveu o livro Inventário. Desabafos e divagações de um céptico. Além de o título permitir uma identificação imediata do código ortográfico adoptado pelo Autor — aliás, a melhor ortografia disponivel —, no próprio livro se declara: “Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990“. Convém lembrar que “a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990” não é a prescrita pelo Acordo Ortográfico de 1990. É a outra, a anterior, a óptima.

No obituário dedicado a Cutileiro, António Araújo, como qualquer pessoa minimamente correcta, decente e educada, grafa céptico, ao referir-se ao título do livro. Todavia, numa entrevista postumamente publicada pela plataforma SAPO 24, escreve-se três vezes o título do livro e nessas três vezes surge a grafia *cético. *Cético? José Cutileiro não merece tamanha afronta. Além de atrevidamente apagarem um pê que Cutileiro manteve de forma intencional na palavra que encerra o título do livro, os redactores da plataforma SAPO 24 desrespeitam uma vontade explícita do Autor. Esta prática, corrente noutras publicações, como Diário de Notícias, Observador ou TSF, ou seja, entre gente sem o mínimo de respeito pelos outros, é completamente inadmissível.

Por exemplo, na Visão — outra publicação de empresa privada ortograficamente obediente ao que o Governo determina para o próprio Governo, para quem dele depende, para o sistema educativo e para o Diário da República—, apesar de adoptarem produtos cientificamente deficientes, pelo menos, há respeito pelos outros.

Continuação de um óptimo resto de fim-de-semana e votos de óptima saúde.

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Nótula: Estive com José Cutileiro uma única vez (há dez anos, na Orfeu), quando apresentou o livro Retrovisor, da minha querida colega Vera Futscher Pereira (1953-2019). Houve vários momentos que me impressionaram durante a intervenção de Cutileiro. Um deles, logo a abrir, foi o Keats da epígrafe. Eis a resenha.

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Fim de semana de calor

But there is no [i]skin.
Kiko Loureiro

Music has its written language, but it’s audio.
Steve Vai

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Durante toda a semana, esteve calor em Portugal. Foi semana de calor. E essa semana de calor terminou. Acabou-se o calor. Doravante, durante os próximos dias, provavelmente, estará frio em Portugal. Por isso, temos o título deste texto e, mais importante, deste oráculo:

Obviamente, dir-me-ão, trata-se do fim-de-semana. Não é uma semana de calor que termina, é um fim-de-semana com calor que começa ou se prevê. Então, se tão obviamente se trata de um fim-de-semana com hífenes, por que motivo lhos tiraram? Como já explicou António Emiliano, fim-de-semana não é o fim da semana e um bicho-de-sete-cabeças não é um bicho com sete cabeças.

É escusado perguntarmos o motivo de tal supressão a quem assinou de cruz o Acordo Ortográfico de 1990. Ainda nos respondiam com algo de semelhante a:

Fim-de-semana passa a fim de semana, porque agora facto é igual a fato (de roupa).

Continuação de um fim-de-semana com hífenes e votos de óptima saúde.

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Em inglês, a diferença entre 19 e 90 é mínima

Mas isso é em inglês. Em português, a diferença entre 19 e 90, como diria o outro, é huge!

Óptimas notícias:

Alemanha pede tecto salarial no futebol europeu.

Mário Centeno permanece no Governo

Efectivamente. Apesar de o OE2020 ser uma mentira e uma vergonha.

Diálogo em Bruxelas (13 de Maio de 2020)

An alternative to the nativist theory of language learning, this theory [Newport, 1990] states that immature language learners grasp only small fragments of language at a time, which helps them to break up a complex language structure into smaller parts.
— Nelson Cowan (2001)

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ACTO ÚNICO

F. Faz hoje três anos que:

S. Quatro anos? Já?

FIM

Observação: a segunda referência numérica (tetra), mesmo sob forma prefixada grega, prevalece sobre a primeira, aliás, cardinal e portuguesíssima (três).

Jackson Pollock, NUMBER 4, 1951 (https://bit.ly/2zEGqVm)

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D. Sebastião

Mais um anunciado regresso d’O Desejado.

John Peel Sessions

Lista actualizada pelo blogue Formally Known As The Bollocks. Ainda falta, por exemplo, a sessão dos SDC, com Fatman, Today, False Faces e All Glory.

Eu e Augusto Santos Silva temos duas qualidades em comum:

somos do Porto e temos aversão ao azul. Só falta saber se, como eu, Santos Silva tem a terceira qualidade: ser mouro. Ser mouro é a suprema virtude do verdadeiro Portuense.

A segunda pessoa do plural

Disse-me que pusesse a mesa para dois mas o convidado do senhor engenheiro, a segunda pessoa, vai demorar muito tempo?
— António Lobo Antunes, “A Morte de Carlos Gardel

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Em português, a segunda pessoa do plural tem tanta importância como as primeira, segunda e terceira do singular e as primeira e terceira do plural e esta realidade deve estar reflectida formalmente (ou seja, no ensino). O caso do padre Carlos Cabecinhas, abundantemente divulgado nas redes sociais, é uma prova daquilo que acabo de afirmar. Convém recordar a teoria dominante: a forma vós é “muito rara em Portugal e limitada a registos dialectais (sobretudo no Norte de Portugal), litúrgicos ou muito formais” e tem “géneros textuais específicos (oratória e textos religiosos)” (pdf). Isso não impede que, felizmente, haja quem defenda a “utilidade no ensino destas formas” — contudo, como veremos, o aspecto “textos históricos” para “os alunos (pelo menos os que seguem Humanidades)” aduzido por Ana Martins, sendo verdadeiro, é demasiado redutor. Já agora, no Brasil, a conversa é outra (pdf).

Quando me dizem que o vós caiu em desuso (pdf), servindo isso de justificação para não ser ensinado, por exemplo, a alunos de português língua estrangeira, instintivamente e, às vezes, admito, um pouco exaltado (ou seja, nem tecnicamente, nem pedagogicamente), alego ter exactamente o mesmo direito à vida que têm outros compatriotas meus, igualmente falantes de português, permanentes utilizadores de vocês (+ terceira pessoa do plural), pronunciadores de dez[ɔ]ito e c[o]mo (“é como queijo”), calçadores de ténis sempre dispostos a fechar as respectivas malas de viagem e os respectivos cacifos com cadeados. Tenho exactamente os mesmos direitos, apesar de pronunciar dez[o]ito (“tens dezoito anos”) ou c[u]mo (“são como divãs”) e de dizer sapatilhas ou aloquete e, para o caso em apreço (o único aqui relevante), recorrer frequentemente ao vós, tendo a minha infância e a dos meus amigos de infância sido fértil em “onde ides?” e “tende cuidado!” dos mais velhos.

E não estou sozinho: há mais meliantes que praticam algumas destas patifarias em português actual. Por exemplo, [Read more…]

A pouca-vergonha

leva hífen, caro presidente do PSD. Não costumo ler Rui Rio, mas sou leitor do Carlos Garcez Osório.

O discurso do Presidente da República e o excessivo *contato com a luz

Item 3 (diente ‘tooth’) and Item 9 (tribus ‘tribes’) do not fit the structure /ˈCVCV/ strictly; nevertheless, diente was used to allow for closer comparison with the comments from Moya Corral (1977: 34–35) and tribus was used as the combination /ˈCiCu/ is extremely rare in Spanish.
A. Herrero de Haro

Et cantant novum canticum dicentes:
“Dignus es accipere librum et aperire signacula eius, quoniam occisus es et redemisti Deo in sanguine tuo ex omni tribu et lingua et populo et natione; et fecisti eos Deo nostro regnum et sacerdotes, et regnabunt super terram ”.
— Ap 5,9 (apud NV, cf. KJV)

The high linguistic diversity resulting from the extreme multiethnic and multilingual composition of the post – De Boeck recalled that in 1901-2 Bangala-Station was composed of “people ex omni tribu et lingua” and a real “Tower of Babel” (De Boeck 1940a: 91) – made a lingua franca a dear necessity, for which the Europeans considered the Bobangi pidgin the most ready candidate.
— Michael Meeuwis (pdf)

***

Apocalipse significa descobertaApocalipse significa revelação. No entanto, os assuntos de hoje diferem um pouco do implícito na epígrafe, onde encontramos salientadas palavras interessantes e muito actuais, quer no Antigo Testamento, quer em investigação recente. O primeiro assunto de hoje é, imagine-se só, política portuguesa pura e dura. O segundo assunto é o do costume.

Fiquei intrigado com o conteúdo deste texto de Alfredo Barroso e fui espreitar o discurso do Presidente da República. Efectivamente, pode discutir-se a consistência de argumentos contra a cerimónia na Assembleia da República, aduzidos, por exemplo, aqui no Aventar, por António Fernando Nabais, Carlos Garcez Osório, Fernando Moreira de Sá ou Francisco Figueiredo, e alhures, por outros intervenientes na vida pública, como Pedro Correia, Miguel Sousa Tavares ou João Soares. Aquilo que não se pode fazer, como faz Marcelo Rebelo de Sousa, é reduzi-los globalmente à [Read more…]

«Orçamento do Estado português é um dos mais transparentes do mundo»

Todavia, além de ser uma mentira e uma vergonha, pelos vistos, também «é pouco participado».

Só respondo quando o Causa Nossa tiver caixa de comentários

«De resto, quem diz aditivo e adição também chama adito(s)adita(s) às pessoas que incorrem nessas situações, em vez de adicto(s) e adicta(s)!?». Óbvia, exacta e efectivamente.

Adenda, com sete imagens, ao meu artigo de hoje no Público

Na passada sexta-feira, dia 24 de Abril de 2020, ao fim da tarde, enviei para publicação o meu artigo de hoje no Público. Nos anexos, incluí algumas imagens. Entre essas imagens, encontrava-se esta:

Trata-se de uma imagem deste texto de 19 de Abril de 2020, protagonista do meu artigo de hoje. Como vêem, lá está o vêem de Vital Moreira na quarta linha.

Aumentado, para aqueles que não o vêem bem:

Como refiro hoje, aquando do envio para publicação deste meu outro artigo no Público que tanto incomodou o ex-eurodeputado, adoptei exactamente o mesmo procedimento.

Eis a imagem da discórdia, do texto de 17 de Abril de 2020: [Read more…]

Com sete letrinhas apenas se escreve a palavra Salazar

… e a ponte sobre o Tejo
— Pedro Ayres Magalhães/Heróis do Mar

T.V. is the reason why less than ten percent of our
Nation reads books daily
Why most people think Central America
means Kansas
— Disposable Heroes Of Hiphoprisy:
Television The Drug Of The Nation

Magro, sombrio, encurvado
sob o açoite do Pecado,
com que o persegue Satan,
o pobre gêbo parece o monstro do Lockness
ou um monge de Zurbarán.
— Roberto das Neves, “Salazar

***

Nasci no dia em que a PIDE assassinou José António Ribeiro dos Santos. Durante os meus anos portugueses, o 25 de Abril foi sempre vivido na baixa, na Avenida dos Aliados e arredores, quase invariavelmente na excelente companhia do meu pai. Nos meus anos alemães, comprava rote Nelken no Hauptmarkt de Trier e festejava Abril de cravo vermelho na lapela, enquanto pedalava a minha fiel Diamant, trauteando o E Depois do Adeus, no regresso à Olewiger Straße. Chegado a casa, eternizava Abril, depositando os meus cravos na jarra com água que projectava pela sala os raios de sol do quintal onde cresciam morangos selvagens. Ainda tenho essa jarra. Há bocado, aproveitei as compras semanais no supermercado ali da esquina e trouxe um perfume de liberdade em cravos a estes 44 dias de confinamento bruxelense. Estou eternamente grato a quem lutou pela possibilidade de Portugal ser um país livre.

Muita gente fica eufórica com este filme, no qual vemos a palavra SALAZAR a ser retirada à martelada da ponte mais a jusante do Tejo.

Não gosto deste filme. Efectivamente, eis um acto cheio de significado, baseado num princípio com o qual estou plenamente de acordo. Todavia, trata-se de um mero gesto de fachada. Os princípios de nada valem se forem materializados em actos para inglês ver.

Peguemos num princípio tão corriqueiro como ter o escritório de casa arrumado. Imagine-se agora que me dava para arrumar o escritório só quando tivesse visitas cá em casa. Obviamente, como sou uma pessoa de princípios, sentir-me-ia incomodado quando me definissem como sendo uma pessoa com o escritório de casa arrumado. Por esse motivo, deixei de receber visitas no escritório.

Com efeito, a carga simbólica da passagem de Ponte Salazar a Ponte 25 de Abril é imediatamente anulada pela persistente presença de Oliveira Salazar na toponímia portuguesa. Actualmente, Portugal continua a prestar vassalagem à memória de Salazar, da mesma forma que o Diário de Notícias o fazia no dia 27 de Julho de 1970, com o célebre (negritos meus)

Portugal está de luto. Morreu o Presidente Salazar. Esta manhã, às 9 e 15 deixou de viver um dos mais ínclitos portugueses da história de Portugal.

Exactamente (está à venda):

Em honra de Salazar, até existe uma alameda (uma alameda!) em Vila Nova de Gaia (em Vila Nova de Gaia!). Para quem não souber, Vila Nova de Gaia é o terceiro maior concelho de Portugal, ficando a dita alameda no Olival. Enquanto houver uma Alameda Dr. Oliveira Salazar em Vila Nova de Gaia, enquanto andarem por aí cantando e rindo, é escusado voltarem a passar o filme da ponte no meu televisor.

Há uma grande diferença entre o país ideal, com o cravo de Abril na lapela e com a Ponte 25 de Abril sobre o Tejo, e o país real, com a Alameda Dr. Oliveira Salazar no terceiro maior concelho do país e com o povo viciado em televisão a aproveitar a primeira oportunidade que lhe aparece à frente para fazer de Salazar o maior português de sempre, espalhando-se a notícia em inglês, alemão, eslovaco, francês, espanhol, checo, neerlandês, croata, etc. De facto, como previsto no Livro de Leitura da 3.ª Classe de 1937 (pdf), as gerações futuras haviam de “dizer baixinho, de olhos fitos no altar da Pátria – Foi um grande Português!“.

Escutemos essas horríveis palavras, na maravilhosa leitura em voz alta de Mário Viegas: [Read more…]

Se me chamasse Sara Azera de Almeida

My other callers are all professional. Banal psychiatrists and grasping second-raters. Pencil-lickers.
Hannibal Lecter

***

Efectivamente, se me chamasse Sara Azera de Almeida, garanto-vos, processava a presidente do júri e impugnava o concurso.

Como se trata de assunto grave, fica aqui o pdf ao dispor dos interessados.

Continuação de uma óptima semana: com muita saúde e sem infecções.

***

Uma semana em cheio

Instruments sometimes have songs in them.
David Ellefson

Unser Schreibzeug arbeitet mit an unseren Gedanken.
Nietzsche

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Uma semana com factores, *inteletuais e *contatado não ficaria completa sem um *fato no sítio do costume.

Ei-lo.

Desejo-vos um espectacular fim-de-semana.

Votos de óptima saúde.

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A 1.ª Lei da Termodinâmica e o Paradoxo de Fação

Physical attraction 
It’s a chemical reaction 
It’s a physical attraction 
Sweet satisfaction
Madonna

Tezeo. Vem a meus braços, fiel amigo, e releva-me o errado conceito, que de ti formei.
António José da Silva (O Judeu), “O Labirinto de Creta

So when it was time to register for the [Spanish] class, we were standing outside, ready to go into the classroom, when this pneumatic blonde came along. You know how once in a  while you get this feeling, WOW? She looked terrific. I said to myself, “Maybe she’s going to be in the Spanish class —that’ll be great!” But no, she walked into the Portuguese class. So I figured, What the hell­­—I might as well learn Portuguese.
Richard Feynman

***

Há uns tempos, estive para escrever algumas linhas sobre estas intervenções de políticos (do PSD). Naquela altura, uma delas deixara no ar a probabilidade quer de o secretário de Estado da Energia (do PS) desconhecer, por exemplo, a 1.ª Lei da Termodinâmica, quer de essa lacuna o desqualificar para o cargo. Acabei por não escrever as linhas, mas ri-me. Contudo, o meu riso não foi motivado pelos comentários. Antes pelo contrário. Ri-me, isso sim, do ensurdecedor silêncio. O ensurdecedor silêncio dos políticos do PSD, dos políticos portugueses em geral e da população portuguesa activa nos meios de comunicação social e nas redes sociais, aquando do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. O “agora facto é igual a fato (de roupa)” foi escrito por quem assinou o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em nome da República Portuguesa. Exactamente. O silêncio cúmplice mantém-se até hoje.

No que diz respeito ao [Read more…]

Os *inteletuais em Portugal

Programs characterized by instability and/or hostile environments were associated with lower effect sizes.
Ann C. Willig (apud Stephen Krashen)

I was raised in a religious atmosphere, Mr. Verger, but whatever that left me with, it’s not religion.
Alana Bloom

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Em princípio, os negociadores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990 não estarão satisfeitos com as frequentes supressões do cê medial de facto, de contacto e de secção que actualmente vão acontecendo em português europeu. Mas ignoraram os avisos e criaram as condições para este desastre. No entanto, há excepções. Por exemplo, Pedro Santana Lopes desejou e até promoveu a supressão do cê de facto, com o célebre

Agora facto é igual a fato (de roupa).

 

Facto, contacto e secção são as vítimas a quem tenho dado palco, quer aqui, quer ali, quer alhures.

Mas há mais.

Recentemente, o excelente leitor do costume (que tem andado entretido com outras vítimas do AO90) enviou-me esta ocorrência de *inteletual no sítio do costume:

Em Abril de 2008, Fernando Venâncio previu [Read more…]

Os factores da TVI e o distrito do Porto

I’m not asking you to believe anything you can’t prove. I’m just asking you to prove it.
Will Graham

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O pedido de desculpas da TVI levou-me a ver um bocadinho do Jornal das 8 de ontem e a encontrar mais uma prova quer da utilidade grafémica das letras consonânticas cê e pê, quer da concomitante inutilidade do Acordo Ortográfico de 1990. O direto, fixado por alguém na moldura daquele oráculo informativo, borra a pintura. Contudo, como sabemos, ‘factores’ são uma prova de que há esperança.

Há muitos anos, no Manhunter, houve um diálogo extremamente interessante entre o Hannibal Lecktor (exactamente, Lecktor e não Lecter) e o Will Graham. No mais recente Hannibal, tivemos o Will a fazer de Lecktor e a Beverly Katz a fazer de Will.

O Will perguntava:
Do you have the file with you?

A Beverly respondia:
Yes.

O Will retorquia:
And pictures?

E a Beverly repetia:
Yes.

É verdade: felizmente, há imagens.

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Nótula: Por uma questão de clareza quanto ao número de pessoas infectadas com COVID-19 em Portugal, talvez fosse bom que o Ministério da Saúde e a comunicação social portuguesa deixassem de tratar os casos do distrito do Porto dentro da região NORTE DE PORTUGAL (assim, com maiúsculas, como nos oráculos sensacionalistas da TVI).

Neste caso concreto das pessoas infectadas com COVID-19, o distrito do Porto deve ser analisado à parte.

O NORTE DE PORTUGAL é identificado no mapa do Ministério da Saúde como a região que, para quem vem de Barcarena, começa nos concelhos de Espinho [Read more…]

«A presidente da Comissão Europeia pediu aos europeus que não programem férias de verão»

Todavia, Ursula von der Leyen nada pediu relativamente às férias de verei, de verás, de verá, de veremos e de vereis.

O directo, o direito e o direto

I know you think you understand what you thought I said, but I’m not sure you realize that what you heard is not what I meant.
— Alan Greenspan (apud Rebecca Saxe)

So, let me play a little bit of my favourite childhood piece.
Lang Lang

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Há uns anos, escrevi sobre um fenómeno perturbador. De facto, a hipótese da idealização de um ‘i’ depois de um ‘e’, por causa da supressão de ‘c’, era corroborada pelas leituras detectadas de direito, em vez de *direto (por directo), em textos escritos “ao abrigo” do AO90. Efectivamente, há quem leia direito em vez de *direto. Lembrei-me disso por causa de um texto aparecido anteontem no jornal A Bola, com direito em vez de *direto (exactamente: *direto).

Convém, neste exacto momento. lembrarmo-nos de dois factores importantes:

  1. A direcção do jornal A Bola não tem modos à mesa de um regime democrático;
  2. Independentemente de o teclado ser AZERTY. QWERTY ou QWERTZ, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘e’ é a tecla ‘d’, a distância mais curta entre a letra ‘t’ e a letra ‘e’ é a tecla ‘r’, a distância mais curta entre a letra ‘i’ e a letra ‘e’ são quatro teclas, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘t’ é a tecla ‘f’, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘i’ são quatro teclas e, para terminar, a distância mais curta entre a letra ‘t’ e a letra ‘i’ são duas teclas — ou seja, a possibilidade de gralha é altamente improvável.

Desejo-vos um óptimo-fim-de-semana.

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Ensaio sobre Penderecki

FALLON. I read somewhere that you said you’d lost fifty pounds.
PHOENIX. Fif… No. Fifteen. Did you say fifty? 50 [five-o]?
FALLON. 50!
PHOENIX. No! 15 [one-five]. Fifteen.
The Tonight Show Starring Jimmy Fallon

***

Há cerca de 15 anos, fui pela primeira vez a Cracóvia. Em pleno Rynek e com os olhos postos na basílica de Santa Maria, o meu espírito encontrava-se alhures, no triângulo formado pelas aulas de violino quando era miúdo, no Porto, pela minha Fender a descansar dentro do estojo, em Trier, e pela obsessão por Penderecki. Além disso, nessa altura andava a dar os meus primeiros passos no /S/ português em coda, por isso, para mim, um <c> como o de Penderecki era uma loucura. E ainda hoje estou, felizmente, obcecado: pelo /S/ português em coda e pelo Penderecki. Por coincidência, 13 anos depois deste episódio em pleno Rynek e com os olhos postos na basílica de Santa Maria, regressei a Cracóvia, para dar uma palestra sobre o /S/ português em coda. Tentei voltar à Tubitek/Bimotor lá do sitio, de onde trouxera todo o Penderecki com selo polaco que encontrara ao alcance da minha carteira nessa primeira incursão, mas a loja fora substituída por uma armadilha para turistas. Desiludido, fui comer żurek e pierogi, moderadamente regados com Żywiec.

Há 15 anos, não havia contato por contacto no Diário da República.

Efectivamente, em 2005, houve quatro ocorrências de contato no sítio do costume:

  • três por contrato, o que acontece com alguma frequência, como mencionei no meu estudo de 2013 (pdf);
  • uma correspondente ao nome de um gabinete de contabilidade;
  • zero por contacto.

Amanhã, dia das mentiras, entra em vigor o Orçamento do Estado para 2020.

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«Centeno admite recessão», mas os Açores admitiram receção

OK. Efectivamente, convém que Centeno esclareça a *receção económica dos colegas dos Açores. Eis o pdf (pp. 15 e 16). Exactamente.

O Orçamento do Estado para 2020 é uma mentira

We keep saying we’ve arrived at psychogenesis, but we actually continue to be working obviously with linguistic models. Here is Lacan telling us the unconscious resembles a language, that it’s structured like a language; Brooks telling us that it’s the verbal structure arising out of the relationship between metaphor and metonymy that constitutes the narrative text. We keep sitting around twiddling our thumbs, waiting for somebody to say something about the psychogenesis of the text.
Paul Fry

Mentira!
Joacine Katar Moreira

Purpose of sampling distribution You’d like to estimate the proportion of all students in your school who are fluent in more than one language. You poll a random sample of 50 students and get a sample proportion of 0.12. Explain why the standard deviation of the sampling distribution of the sample proportion gives you useful information to help gauge how close this sample proportion is to the unknown population proportion.
Agresti, Franklin & Klingenberg

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Já sabíamos que o Orçamento do Estado para 2020 era uma vergonha merecedora de chumbo. A farsa ortográfica promovida pelo poder político teve hoje um episódio simbólico: depois de ter confirmado a promulgação do OE2020, Mário Centeno anunciou que esta vergonha ortográfica entraria em vigor no dia 1 de Abril. Exactamente: 1 de Abril. Excelente escolha. Ovação de pé.

Aliás, a mentira ortográfica continua de vento em popa no sítio do costume.

Saúde para todos e, embora haja le printemps qui chante, por favor, restez à la maison.

***