Pinto da Costa pronuncia-se sobre aftas no cérebro

Depois dos *fatores, Pinto da Costa traz-nos o problema das aftas no cérebro.

Cavaco Silva esqueceu-se do Acordo Ortográfico de 1990

NAGG
I hope the day will come when you’ll really need to have me listen to you, and need to hear my voice, any voice.
Samuel Beckett, “Endgame

… the opportunity to use our voice for the voiceless.
Joaquin Phoenix

Todos os meus discursos saem com o acordo ortográfico mas eu, quando estou a escrever em casa, tenho alguma dificuldade e mantenho aquilo que aprendi na escola.
Cavaco Silva

***

Esta notícia chegou-me no preciso momento em que ouvia, vinda de algures, a voz do Anthony Blanche a declamar à varanda do Sebastian Flyte o The Waste Land do T. S. Eliot (“His vanity requires no response,/And makes a welcome of indifference”). Momentos antes, pensara na razão pela qual Charles Ryder/Jeremy Irons diz “we were eating the lobster Thermidor when the last guest arrived”, quando no livro temos Ryder a indicar que “when the eggs were gone and we were eating the lobster Newburg, the last guest arrived”. Aliás, antes de passarmos ao assunto do costume, ficai a saber que, embora haja (Scottish) lobster Thermidor no Simpson’s in the Strand, no filme a sugestão é “roast beef and Yorkshire pudding”, mas no livro recomenda-se “saddle of mutton”. Quer num, quer noutro, para que não haja dúvidas, “cider to drink”.

Adiante.

Efectivamente, é essencial acabar com a pobreza. É importante desenvolver a rede de cuidados paliativos. A corrupção deve ser combatida. Portugal não pode estar na cauda da União Europeia nem em matéria de desenvolvimento, nem em qualquer outra matéria. Tudo isto é importante, fácil de dizer, mas difícil de fazer. Todavia, acabar com o AO90, além de essencial, é fácil. Muito fácil. Extremamente fácil. Acabemos com isto, sff:

Obrigado.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

O IVA da electricidade e o IVA da eletricidade

DOROTHY
Toto, I have a feeling we’re not in Kansas anymore.
The Wizard of Oz

Wovoka had a vision, his words went far and wide.
Death Cult

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A decisão sobre o IVA da electricidade foi um dos grandes temas desta semana. Todavia, a pergunta impõe-se: aquilo que os deputados votaram foi o IVA da electricidade ou o IVA da eletricidade? Sim, porque, não são exactamente a mesma coisa e, se bem vos lembrais, ambas aparecem no Orçamento do Estado para 2020. Tendo em conta alguma tradição (“não responde“, “não responde“, “não responde“), ficaremos provavelmente sem saber se é electicidade ou eletricidade.

© psdesign1 / Fotolia [http://bit.ly/2veNZQq]

No fim de contas, importa é mostrar que os actos são dinâmicos — às vezes, até há música — e dar tempo de antena a despropositadas vaidades. Aquilo que está em causa é vender o produto e a imagem dos autores do produto: a péssima qualidade do produto efectivamente não interessa.

Quanto ao dilema electricidade/eletricidade, convém igualmente recordar que a supressão do cê da sequência -ct- dá azo a erros em línguas estrangeiras (*fator, *diretion, *eletric). Será possível que um falante/escrevente de português europeu venha um dia a escrever

Development of Analyzing System for Power Fator and Harmonic Diretion in Eletric Power Distribution System using FA Computer,

em vez de

Development of Analyzing System for Power Factor and Harmonic Direction in Electric Power Distribution System using FA Computer?

Tendo em conta os “human fator issues“, os “One Diretion” e a “General Eletric“, sim, é possível.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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«Oficial: data de fecho do mercado de verão volta a mudar em Inglaterra»

Nada se sabe ainda sobre os mercados de verei, verás, verá, veremos e vereis. Exactamente.

Duas notícias: uma péssima e uma óptima

A péssima é que Jardel pára. A óptima é que, apesar dos boatos, o jornal A Bola não adopta o AO90.

Coação sobre tudo e todos?

Coação? Ah! Acto ou efeito de coar. OK.

A Bronx Tale

In such a language as German or Latin the adjective would have one definite ending indicating more or less distinctly gender, number, and case, but all of these are left indefinite in English combinations like a heavy sleeper, the dirty clothes-basket, a public schoolboy, a practical joker, etc.
Otto Jespersen

I think that it is the obligation of the people that have created, and perpetuate and benefit from, a system of oppression to be the ones that dismantle it.
— Joaquin Phoenix

SONNY
You’re worried about Louie Dumps. Nobody cares. Nobody cares!
A Bronx Tale

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Em Janeiro, estive no Bronx, o borough nova-iorquino onde ainda não pusera os pés. Nos últimos anos, não encontrara ainda pretexto para me deslocar ao território dos Yankees — além disso, o Chez Bippy e afins ficam em Queens. Aproveitei uma manhã triste, de chuva, no dia do regresso a Bruxelas, para andar a passear por ruelas e parques, passando à porta da Rafael Hernandez Dual Language Magnet School, descendo a avenida Jerome, subindo a avenida Shakespeare, virando para a rua 167, na direcção da avenida Woodycrest, olhando com um sorriso para os turistas que faziam acrobacias na escadaria do Joker — alguns dos acrobatas retratavam-se (efectivamente, sem cê) e retratavam outros como eles, aperaltados e maquilhados a rigor, enquanto davam pontapés no ar, equilibrando-se com segurança naquele recanto sujo do Bronx profundo. O Five Boro Bike Tour não passa por aqui. A rua 166, mesmo ao lado, também tem uma escadaria, mas ninguém lhe liga. Cá está ela.

Foto: Francisco Miguel Valada (Bronx, NYC, 4 de Janeiro de 2020)

Terminada essa agradável manhã no Bronx, voltei para Manhattan e desenferrujei os dedos no piano do Port Authority Bus Terminal. Chegado a Bruxelas e lida a correspondência do Natal, verifiquei que nada mudara: o Acordo Ortográfico de 1990 continuava a fazer vítimas, na leitura e na escrita, e os responsáveis por esta situação continuavam no faz-de-conta habitual.

E hoje, primeiro dia útil de Fevereiro, mudou alguma coisa? Efectivamente, nada mudou.

No sítio do costume, como é óbvio, está tudo exactamente na mesma.

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As infra-estruturas e o fato

I follow Lakoff and Johnson’s definition of a conceptual metaphor as an underlying association that is systematic in both language and thought and explains something new or abstract in terms of something familiar or concrete. Although the focus of my analysis is on metaphor, I also relate to metonymies and similes, which function in similar ways (Lakoff & Johnson 1980 : 36).
Marta Neüff

MÉNÉLAS
Les déesses furent rapides à exiger de toi le prix du sang.
Le fait d’avoir vengé ton père ne t’est-il pas compté?
ORESTE
Pas encore, et pour moi le retard équivaut au refus.
Eurípides, “Électre/Oreste” (trad. Marie Delcourt Curves)

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Efectivamente, enquanto houver quem ache este salgueiro

melhor do que este,

não há qualquer problema.

Todavia, enquanto houver quem ache que agora facto é igual a fato (de roupa), o problema é grave, pois pode levar a isto:

De igual modo, [Read more…]

Ao contrário do que escreve o Expresso, não é

Francisco Assis quem «lança Ana Gomes para a Presidência contra Marcelo». Efectivamente, quem «lança Ana Gomes para a Presidência contra Marcelo» é João Mendes. Ai, ExpressoExpresso… Em última análise, Assis pode apoiar.

O verão, o hão-de ver, o vereis e o heis-de ver

O AO90 e o jornal A Bola explicam a novela Bruno Fernandes/Manchester United et al.: «se ele não sair agora, vai certamente sair durante o verão».

Contra o Orçamento do Estado para 2020

Ora, questa frenesia dell’apparire (e la notorietà a ogni costo, anche a prezzo di quello che un tempo era il marchio della vergogna) nasce dalla perdita della vergogna o si perde il senso della vergogna perché il valore dominante è l’apparire, anche a costo di svergognarsi?

Umberto Eco

Foto: Tiago Petinga/Lusa [http://bit.ly/36HQkRp]

É impossível alguém rever-se no OE2020, a não ser que ande a espalhar o caos ortográfico. Efectivamente, a mixórdia de 1990 tem um dos seus pontos altos anuais no momento em que o ministro das Finanças entrega ao presidente da Assembleia da República um texto que o primeiro obviamente não escreveu e o segundo certamente não lerá. Baseio esta minha hipótese num facto: estes são exactamente os mesmos protagonistas dos momentos simbólicos do OE2016, do OE2017, do OE2018 e do OE2019. Se Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues tivessem escrito ou lido as propostas de 2016, 2017, 2018 e 2019, provavelmente não teríamos o caos de 2020 que aqui vos deixo, sob a forma de pequena amostra: [Read more…]

Rui Moreira teve razão

For example, in cases where investigators of language change express violent disagreement with their predecessors, a closer look tends to reveal that a strong rebuttal of an earlier position may still crucially presuppose some determinative phrasing of scholarly questions, an indispensable collation of the facts, or pioneering paleographic spadework by the previous researcher being criticized.

Janda & Joseph

“Somos Porto”. É fácil dizer [ˌsomuʃˈpoɾtu].

Rodolfo Reis

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Segundo o Record, Rui Moreira retorquiu

Isso é mentira,

depois de Fernando Madureira ter escrito

Houve falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem.

Se virmos o episódio pela perspectiva de um leitor do Record, o presidente da Câmara do Porto teve razão, pois Fernando Madureira escreveu houveram. Efectivamente: houveram:

Houveram falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem!

De facto, é mentira que Fernando Madureira tenha escrito ‘houve’.

 Continuação de um óptimo domingo.

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A seção, o fato e o contato

Now let K be a homologically trivial transverse knot in a contact 3–manifold (M, ξ), with M oriented such that ξ is a positive contact structure. Let Σ be a Seifert surface for K. As in the definition of the rotation number, we make use of the fact that the plane field ξ|Σ is trivial. Choose a non-vanishing section X of ξ|Σ and push K in the direction of X to obtain a parallel copy K’ of K.

Hansjörg Geiges  (2008)

It is important to look at the results of this meta-analysis with a critical eye in light of two facts: the average training took place over the course of 20 days, and the L2 setting encouraged larger gains than the FL environment. […] [E]very attempt was made to contact the author(s) and retrieve necessary data. […] (The topic of generalization is discussed in more detail in the Discussion section of this article.)

— Sakai & Moorman (2018)

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Efectivamente, a seção, o fato e o contato. Quando? Hoje. Onde?

No sítio do costume.

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Fatiotas

Der hof Heinrichs IV. ahmte Spanisches wesen auf sklavische weise nach und sprach mit Vorliebe Spanisch.

— Trautmann (1880), apud Runge (1973)

Norris: Are you attempting to tell me my duties, sir?

Philip Marlowe: No, just having fun trying to guess what they are.

— The Big Sleep (1946)

In further reference to [ʀ], he [Vischer] calls it adulterated, contemptible, perverted, and even describes it as a “castration” of tongue-trilled [r], since he considers the latter to be the “most masculine” of all sounds.

— Runge (1973)

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Segundo o Diário da República de hoje, a verificação de fatos que exijam tomada de posição urgente pode conduzir à realização de reuniões de emergência. É verdade que o assunto em apreço diz apenas respeito à Comissão de Trabalhadores do Instituto Politécnico de Bragança. Todavia, os actuais responsáveis por esta situação

deveriam seguir o exemplo aqui exposto e convocar uma reunião de emergência para este assunto (fatos) ser discutido. É verdade que essa reunião teria feito mais sentido e tido mais impacto há uns anos, quando os culpados foram alertados para a situação (pdf). Recordo que a culpa não é minha. Nunca promovi a adopção do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, não encolhi os ombros, não assobiei nem para o ar nem para o lado, não tapei o sol com a peneira, não fiz de conta que não estava a chover, logo, não sou responsável pela concomitante proliferação de fatos, contatos e seções no Diário da República e alhures. Convém que os culpados se mexam. Não vos escondais. Mexei-vos.

Efectivamente, enquanto o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 for adoptado, é escusado utilizarem o Dia Mundial da Língua Portuguesa para nos atirarem arena para os óculos (aparentemente, uma alternativa ao clássicoatirar areia para os olhos“).

Continuação de uma óptima semana.

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Os fatos unidos jamais serão vencidos

Driver: Where to, sir? Où désirez-vous aller?
Prisoner: Take me to the nearest town.
Driver: Oh, we’re only the local service.
Prisoner: Take me as far as you can. Why did you speak to me in French?
Driver: French is international.

The Prisoner (1)

And you can find that. And you’ll know it. You’ll just know. Dah dah dah. If you’re connected with your inner ear. Otherwise you’re meandering nowhere.

Steve Vai

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Efectivamente, em vez de tergiversarmos, convém centrarmo-nos naquilo que é importante.

Apresentado o exemplo, resta-nos esperar que os proponentes resolvam rapidamente esta confusão.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Nótula: Agradeço o titulo ao leitor POIS!.

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Os anos excepcionais

La palabra “jubileo” proviene del término hebreo “yobel”que era el cuerno de cordero que anunciaba a los judíos el comienzo de un año excepcional dedicado a Dios.

González, González & Brunner

Como se mencionó en el primer informe, 1998 fue un año excepcional para la construcción naval en el mundo, ya que la crisis financiera de Corea del Sur bloqueó la producción y la aceptación de pedidos en Corea.

Comissão Europeia

O respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho?

José Mário Branco (1942-2019), “FMI” [“por determinação expressa do autor, fica proibida a audição pública parcial ou total desta obra“]

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De facto, os fatos do Diário da República vieram para ficar.

Embora hoje não haja contatos no sítio do costume, podemos sempre contar com a colaboração desse maravilhoso espaço de resistência silenciosa cercado por liberdade de expressão (os meus agradecimentos ao muito atento e excelente leitor do costume): [Read more…]

O fato das alianças, a persistência dos contatos e o massacre contínuo

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. La voix U se forme en rapprochant les dents sans les joindre entièrement, et allongeant les deux lèvres en dehors, les approchant aussi l’une de l’autre sans les joindre tout à fait : U.

MONSIEUR JOURDAIN. Il, U. il n’y a rien de plus véritable : U.

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. Vos deux lèvres s’allongent comme si vous faisiez la moue : d’où vient que si vous la voulez faire à quelqu’un, et vous moquer de lui, vous ne sauriez lui dire que : U.

— Molière, “Le Bourgeois gentilhomme

Considering that the sound /y/ is absent from the vowel space of the subjects in the present study, both at the phonemic and allophonic levels, and consequently that /u/ varies freely, beginner L1 American English learners of L2 French should have difficulty establishing contrastive phonemic categories for /y/ and /u/.

Ruellot

Specifically, the study focused on production by native English speakers of the French vowels /u/ and /y/. French /u/ is realized with variants that are similar, yet acoustically non-identical, to the realizations of the /u/ category of English. French /y/, on the other hand, does not correspond directly to an English vowel, and can therefore be regarded as a new sound for English native speakers who learn French as an L2.

Flege

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Há um importante aspecto — com <c>, que em português do Brasil ilustra /k/ e em português europeu fixa o /ɛ/, impedindo um /ɛ/→[e] (cf. ‘espeto’) — a ter em mente, ao reflectirmos — também com <c>, que ilustra o /k/ subjacente e fixa igualmente o /ɛ/, evitando-se /ɛ/→[ɨ] (cf.repetirmos‘) — sobre a recorrência de grafias como aquela ali à esquerda:

Agora, de forma escorreita.

Há um importante aspecto a ter em mente, [Read more…]

Não é *Diretivo,

Expresso. É Directivo. O respeito – e não o respeitinho pelas instruções do poder político – é muito bonito.

Os factos de Câncio e os fatos da CMTV

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d’Alfaroubeira
Courut le monde et l’admira.
Il fit ce que je voudrais faire
Si j’avais quatre dromadaires.

— Apollinaire, “Le Dromadaire

Sedulo curavi, humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.

Espinosa

Woah oh oh oh oh oh oh oh.

Ian Astbury

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Convém sempre lembrar que nem só de fatos se vive no Diário da República:

Seja como for, de fatos efectivamente muito se vive, no Diário da República em particular e na realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, desde Janeiro de 2012.

Eis um exemplo, no Diário da República de hoje:

Quanto à realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, peguemos na nossa fidelíssima lupa e debrucemo-nos sobre um episódio extremamente interessante. Ao contrário do excelente Público, que traduziuperspectiva‘, para a nossa correcta interpretação da *perspetiva de Daniel Oliveira, a CMTV deturpou factos, indicando fatos,

quando Fernanda Câncio claramente não se refere aos fatos “de roupa” espalhados por Santana Lopes.

Apresentado este meu pequeno relatório, resta-me desejar-vos um óptimo fim-de-semana.

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É necessário um novo acordo ortográfico da língua portuguesa

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Et l’R, en portant le bout de la langue jusqu’au haut du palais ; de sorte qu’étant frôlée par l’air qui sort avec force, elle lui cède, et revient toujours au même endroit, faisant une manière de tremblement, RRA.

MONSIEUR JOURDAIN.- R, R, RA ; R, R, R, R, R, RA. Cela est vrai. Ah l’habile homme que vous êtes ! et que j’ai perdu de temps ! R, r, r, ra.

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Je vous expliquerai à fond toutes ces curiosités.

Molière, Le Bourgeois gentilhomme

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Por muito paradoxal que possa parecer a alguns distraídos, o Acordo Ortográfico de 1990 impede uma límpida leitura brasileira das polémicas portuguesas, logo, deve ser substituído. Ao ler as perspetivas de Daniel Oliveira, um falante/escrevente de português do Brasil fica obviamente escandalizado e profundamente incomodado. Valham-nos os serviços de tradução do Público. De facto. Exactamente.

Efectivamente, a necessidade de um novo instrumento ortográfico para a língua portuguesa justifica-se também por outro motivo: hoje em dia, um falante/escrevente de português europeu fica naturalmente perturbado quer perante os contatos de hoje, no sítio do costume,

quer diante disto (*):

É preciso um instrumento ortográfico que substitua o Acordo Ortográfico de 1990. Como dizia há uns tempos Michel Onfray, nada fazer quando tudo desaba é efectivamente (effectivement) contribuir para a decadência. Para evitar o desabamento e a decadência, a solução é simples: regresse-se a 1945 (pdf).

Desejo-vos uma óptima semana.

(*) Os meus agradecimentos a Manuel Monteiro.

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Contato?

But nowadays, as far as I can tell, no one believes in the existence of immortal spiritual substances except on religious grounds. To my knowledge, there are no purely philosophical or scientific motivations for accepting the existence of immortal mental substances.

John Searle

***

Contato? Apesar de visto e revisto e apesar da elevada frequência desde Janeiro de 2012, aparentementente, ninguém acredita.

Para quem não souber o que significa INA, passo a citar:

A Direcção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas, abreviadamente designada por INA, é um serviço central da administração directa do Estado, integrada no Ministério das Finanças.

Até breve.

***

A perspectiva do alfaiate

LE PROFESSEUR. Vous savez très bien qu’une phrase tirée de son contexte n’a pas d’intérêt.
— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

“Okay, John… right, got it.”
Patrick Bateman (Bret Easton Ellis, American Psycho)

***

Efectivamente,

A comprovação desses fatos, implica ainda a exclusão do bolseiro a futuros concursos para atribuição de bolsas de estudo do Município de Miranda do Douro, sem prejuízo de responsabilidade criminal

permite um estudo com diversos ângulos, vários prismas e algumas perspectivas.

Seleccionemos três perspectivas:

  1. A perspectiva do sujeito: o sujeito vê-se afastado do predicado por uma vírgula e fica perturbado, pois toda a gente sabe que “a comprovação desses fatos, implica”, em vez de “a comprovação desses fatos implica”, é um factor perturbador e não um fator perturbador;
  2. A perspectiva da preposição: de facto, olhando com olhos de ver para a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para (para e não pára: são diferentes), perante, por (por e não pôr: também são diferentes, mas enquanto a base IX se preocupou com o pára, a base VIII poupou o pôr, pois foi, pois foi), sem, sob, sobre e trás, é certo e sabido, a seguir a “a exclusão do bolseiro” é de e não a, como é sabido que se discorda de e se concorda com e que não se deve nem discordar com, nem concordar de;
  3. A perspectiva do alfaiate, a mais interessante e, em última análise, nestes tempos de crise ortográfica, a mais urgente: há bastantes sujeitos que vêem fatos, mas também, além de fatos, vêem contatos e vêem seções e não vêem os responsáveis por isto tudo, que pelos vistos não vêem nada disto, a assumir os erros e a fazer qualquer coisinha para acabar com esta situação.

Situação? Que situação?

Esta.

Continuação de uma óptima semana.

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O Directivo e o Colectivo

Não é *Diretivo, jornal A Bola: é Directivo. Como o *Coletivo, jornal A Bola, é Colectivo. Mais respeito, sff.

O Acordo Ortográfico de 1990 é extremamente indigesto

… e o psiquiatra sentiu-se prestes a ser devorado por um réptil terciário em cujas mandíbulas o sangue do baton revelava claramente monstruosas intenções assassinas.
— António Lobo Antunes, “Memória de Elefante
***

Efectivamente, enquanto uns sugerem que engulamos insectos, outros, além de nos imporem uma dieta de insetos (cruzes, credo!), enfiam-nos pela goela abaixo osgas, cágados, relas, camaleões, cobras, lagartixas, lagartos, sardões, víboras, rãs, salamandras, sapinhos, tritões, fatos, sapos, licranços, seções e contatos:

Aliás, a foto que ilustra esta glorificação de quem não precisa de crivos académicos para a adopção de teses, apenas da gratidão do poder instalado,

Foto: José Carlos Carvalho [http://bit.ly/2P4sedY]

não valendo por mil palavras (valerá umas 50, se tanto), explica muito bem a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990: [Read more…]

A arte de soletrar

de Harold Bloom (1930–2019): Jay Wright: j-a-y-w-r-i-g-h-t, Thylias Moss: t-h-y-l-i-a-s-m-o-s-s, & /ˈnɒstɪk/: g-n-o-s-t-i-c.

Largo di Torre Argentina, Roma, 11/10/2019

Foto: Francisco Miguel Valada (11 de Outubro de 2019, cf. 24 de Julho de 2017)

Pelos animais, ração!

(houve até quem falasse de foguetes, deus nos livre)

Carla Romualdo

Who do you think it’s for? For the animals.

William Henry Duffy & Ian Robert Astbury

LE PROFESSEUR. Vous devenez un véritable animal, Marina.
MARINA. Non : je suis un animal.

— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

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Fonte: http://bit.ly/333I4tm, foto de 6/4/2019 (graças à EPHEMERA: http://bit.ly/2oSqVUq)

Efectivamente, o esquecimento do <r> inicial de ‘ração’ é uma das hipóteses mais plausíveis para aquele cartaz. Sim, aquele da direita. Convém recordar o que foi recentemente dito pelo porta-voz do PAN sobre a revisão do Acordo Ortográfico de 1990:

Faz sentido, a ortografia não deve ser legislada por decreto.

Isto é, em última análise e vendo bem as coisas, aquele cartaz não faz sentido.

Por outro lado e por incrível que possa parecer, não se trata apenas nem da tristeza sentida por Cavaco Silva, perante a prestação de anteontem do PSD, nem do impacto dos recentes resultados internacionais do Glorioso no ânimo do presidente do Benfica. A crónica ausência do cê medial, naquelas palavras encontradas no sítio do costume, deixa-me profundamente triste e deverá deixar os respectivos responsáveis tristes e envergonhados.

Continuação de uma óptima semana.

***



Perdedores e predadores

Queria ser original (hello! hello!), mas houve alguém que… adiante: lede o perdedores e perdedores do J. Manuel Cordeiro.

Depois de ter escrito «agora facto é igual a fato (de roupa)»,

(exactamente) «Santana Lopes admite abandonar presidência da Aliança». OK. Siga.

O fato de Tolentino de Mendonça

Lembrando as palavras de Donald Davidson, recordando uma das faces mais visíveis do drama e agradecendo esta imagem aos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico, aqui ficam umas levíssimas canções de Billy Bob Thornton & The Boxmasters, a pesada explicação do Karl Childers/Billy Bob Thornton e os meus votos de um óptimo e espectacular domingo.