Sobre a queda de António Costa

A queda abrupta de António Costa não é assim tão surpreendente.

O que surpreende, pelo menos a mim, é ver a justiça funcionar, tendo como alvo gente tão poderosa como Lacerda Machado ou Vítor Escária. Pena não acontecer mais vezes.

O funcionamento foi de tal ordem que António Costa se apressou a apresentar demissão, prontamente aceite por Marcelo.

E, é bom recordar, Costa planou sobre todos os escândalos do seu governo, incólume e fanfarrão, a ponto de ter destruído a coabitação com Belém para defender um secundaríssimo João Galamba. Se agora não hesitou, por algum motivo terá sido. Um motivo óbvio, parece-me.

Claro que, agora que todos assistimos aos acontecimentos que marcaram o dia, talvez seja mais fácil perceber a convicção com que Costa saiu em defesa do trágico ministro das Infraestruturas.

Adiante.

O que acontece agora?

Uma de duas coisas: ou o governo continua sem Costa, com a benção de Marcelo e do Parlamento, ou o PR dissolve a Assembleia e convoca novas eleições.

A primeira hipótese parece-me pouco provável.

A segunda significa não aprovar o OE24, com as consequências que isso trará.

Mas existe outra questão já levantada, até com algum romantismo à mistura, que alerta para o perigo de chegarmos aos 50 anos do 25 de Abril com a extrema-direita no governo.

Julgo que esta é uma não questão. Por vários motivos. Destaco três.

  1. Montenegro assegurou que não fará acordos com Ventura. E como é sua a frase “palavra dada é palavra honrada”, não quero acreditar que o seu percurso como PM comece com a negação desta frase.
  2. Mesmo que PSD e IL não consigam maioria para governar, o PS tem obrigação moral de permitir a sua governação, para evitar a aproximação da extrema-direita. Se não o fizer, não lhe restará um pingo de vergonha.
  3. A possibilidade de uma nova Geringonça. Sendo mais remota, e implicando uma mudança profunda no PS, não pode ser descartada.

De maneira que a extrema-direita só chegará ao poder se os partidos que se dizem moderados o quiserem. Simples.

Quanto aos casões do dia, que não se percam em adiamentos e recursos. Esse é o meu maior medo. Que isto termine como a Operação Marquês, como o caso BPN ou como a queda do BES. Porque esta é, de todas as variáveis, a que mais poderá contribuir para dignificar a democracia e restabelecer a confiança dos portugueses nas instituições. Não há melhor antídoto contra os inimigos da liberdade.

Comments

  1. Costa segurou Galamba porque não compete ao PR despedir membros do governo.
    Quanto ao resto, desilude-me que o João esteja cada vez mais centrista acrítico da propaganda de fé e boas intenções para o qual o fascismo da loja dos trezentos é a salvação que impede que se mude alguma coisa de fundo.
    É o que é, com mais ou menos apoios temos que passar pelo colapso.

  2. JgMenos says:

    Tão bem se sentiam assentados num pote de poderes!
    O Sócrates também tinha um empresário de sucesso como melhor amigo.

    • POIS! says:

      Pois lá está…

      A quem se torna amigo dos “empresários de sucesso” acaba sempre… por suceder qualquer coisinha…

      Olha o Quarto Pastorinho! Tão amigo do César dePaço, um empreseiro de xuxexo lá de Maiami que entrou com uns cobres lá para a Irmandade…

      Oxalá tenha sido pouquinho!

    • Passos e Cavaco também tinham bons amigos empreendedores; Frasquilho ainda anda sem vergonha nenhuma a dizer coisas sobre a TAP, por exemplo.

  3. Anonimo says:

    palavra dada é palavra honrada é um Costismo…

    Se realmente este for mais um processo sem fim, sem acusação formada, nada mais é que um golpe de Estado.

    Há sempre a opção do PS se manter no Governo, afinal tem maioria parlamentar, que é o que vai a votação.

  4. balio says:

    O que surpreende, pelo menos a mim, é ver a justiça funcionar, tendo como alvo gente tão poderosa como Lacerda Machado ou Vítor Escária.

    (1) Aquilo que está a funcionar não é a Justiça, é o Ministério Público. São coisas muito diferentes. A Justiça é feita por juízes, o Ministério Público são inquisidores.

    (2) O Ministério Público sempre funcionou muito contra gente poderosa, especialmente presidentes de Câmara.

  5. Anonimo says:

    “O que surpreende, pelo menos a mim, é ver a justiça funcionar, tendo como alvo gente tão poderosa como Lacerda Machado ou Vítor Escária. ”

    Assim sendo, a justiça funcionou com Sócrates. Se esquecermos a parte de que, uma década depois, ainda não foi a julgamento.

  6. Figueiredo says:

    É um esquema igual ao de 2011, inventa-se o problema, faz-se a encenação, sai o Governo liberal/maçónico do Partido Socialista e entra um Governo liberal/maçónico liderado pelo Partido Social Democrata (sozinho ou com o apoio de outros partidos liberais/maçónicos, como ocorreu em 2015 com o PS), terá a mesma agenda política, económica, e de engenharia social que o primeiro – executada de maneira diferente – com a qual os Portugueses não se identificam e que trabalha contra a Pátria, o Interesse Nacional, e a República.

    Se houver Eleições Legislativas é preciso alterar a Lei Eleitoral por forma a impedir que os Estrangeiros possam votar nas Eleições Presidenciais/Legislativas/Autárquicas, caso contrário haverá fraude nas Eleições e ingerência nos assuntos políticos e internos de Portugal; somente os Portugueses de Raça/Sangue de Portugal Continental e das Regiões Autónomas da Madeira e do Açores é que podem ter direito a Voto.

    Desde 2012 até à presente data uma grande quantidade de Estrangeiros têm sido deslocados para Portugal, o objectivo é, em troca da nacionalidade Portuguesa esses Estrangeiros terão de votar nas Eleições por forma a substituírem os Votos em falta da imensa Maioria de Portugueses representados pela Abstenção.

    É também essencial retirar a nacionalidade Portuguesa a todos os Estrangeiros – salvo excepções – atribuídas desde 2012, proibir-lhes toda e qualquer actividade política e sindical, e efectuar um acordo/parceria com os seus Países de origem para o repatriamento, de seguida, iniciar um processo de controle e selecção rigoroso de todos aqueles que pretendam emigrar para Portugal.

    Em caso de Eleições Legislativas, Português não vote, diga não ao criminoso, corrupto, e anti-democrático, regime liberal/maçónico imposto pelo golpe de Estado da OTAN em 25 de Abril de 1974.

    • Já tivemos um país cheio de provincianos, ainda aí a fazer mossa nas figuras tristes a agradar ao paizinho americano e mãe europeia, para ver o atraso de vida que é. Deixe estar quem trabalha e faz falta quietinho, e deixemos a eugenia a fascistas e liberais.

  7. Luis says:

    Uma mudança seria bem vinda se fosse pela existência de pessoas que demonstrassem serem mais capazes. Não é o caso, pelo que em cima de problemas judiciais, teremos problemas de continuidade, que para já, não se preveem melhorar a má situação existente.
    Tudo isto esperando obviamente, que a justiça venha a comprovar fundamentadamente a situação que desencadeou.

    • Quem me dera estar preocupado com a capacidade, mas sendo a ideologia única e inquestionável, fico pelo desejo de paliativos eficazes.

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