Osama Bin Trump e os EUA em Estado de Sítio

Neste momento, o número de tropas dos EUA estacionados no Iraque, Síria, Afeganistão e Somália, todos juntos, não chega a 9 mil efectivos. Em Washington, contudo, o Pentágono prepara-se para colocar 20 mil soldados no terreno, para garantir a segurança da tomada de posse de Joe Biden, num momento em que grupos armados de terroristas de neo-nazis e supremacistas brancos, incentivados e abençoados por Donald Trump, ameaçam dar seguimento ao atentado terrorista da passada semana, contra o Capitólio. Quem diria que a maior ameaça à segurança interna dos EUA, desde o 11 de Setembro, seria protagonizado pelas milícias terroristas pró-Trump?

P.S. Por muito menos, reduzem-se escolas e hospitais a escombros no Médio Oriente.

Trumposfera meltdown: por demências nunca dantes navegadas

Jake Angeli, conhecido no submundo dos chalupas conspiracionistas neofascistas como Q Shaman, é este espécimen que, aparentemente, roubou o chapéu que Jay Kay usava no tempo do Traveling without moving, álbum de excelente memória dos Jamiroquai.

Angeli, que, qual Obélix, parece ter caído no caldeirão do LSD quando era pequenino, apresenta-se como um “ser multidimensional” e afirma ter sido escolhido e enviado pelo seu amigo imaginário Q, uma espécie de profeta da chalupósfera QAnon, para ajudar Donald Trump na luta contra a rede internacional de pedofilia globalista socialista reptiliana do Dr. Belzebu.

Na sequência do atentado terrorista contra o Capitólio, no qual esta espécie rara participou activamente, Jake Angeli foi detido e entrou em greve de fome, por não ter acesso a uma alimentação orgânica. Já tinha ouvido falar de vários tipos de facho, mas um facho que num dia é terrorista e no outro um snowflake é novidade. Pessoalmente, acho que Angeli devia ser mais criativo, como o chapéu que usa: se quer comida orgânica e não encontra na prisão, que cague no pratinho e coma. Sim, eu sei, fui um bocado javardo e demasiadamente gráfico. Não lamento. Se queriam politicamente correcto vieram so estabelecimento errado. [Read more…]

André Ventura e Marine Le Pen, ou a arte de se afirmar defensor dos portugueses de bem e promover quem os persegue e ameaça de morte

Historicamente, França tem sido o principal ponto de chegada para centenas de milhares de emigrantes portugueses, desde a década de 60, quando fugiam da miséria imposta pelo regime salazarista. Estima-se que vivam no país cerca de meio milhão de portugueses e luso-descendentes, a maioria dos quais perfeitamente integrada, sem historial relevante de associação a problemas sociais ou criminalidade, que, não raras vezes, diz “presente” quando se trata de desempenhar as funções que os franceses não querem fazer, das limpezas à construção civil.

Estes portugueses, tão portugueses como qualquer português que habite em solo nacional, são, apesar das vicissitudes, portugueses orgulhosos e patriotas, que investem em Portugal, que constroem casa em Portugal, onde regressam após se reformarem, que geram milhões para o sector do turismo, do Algarve ao Alto Minho, e que transferem milhões de divisas para o seu pé de meia, num qualquer banco português. Apenas para dar alguns exemplos. [Read more…]

Coitadinho do Ventura. Alguém pegue nele ao colo e lhe dê muito miminho, que o jornalista mau fez dói-dói ao bebé

Os adeptos do Chega, tanto os mais ferrenhos, como aqueles que começam as frases com “eu não voto neles mas…” estão irritados com o timing da reportagem da SIC, dedicada ao partido de extrema-direita. Já eu prefiro saudar o Pedro Coelho, um dos melhores jornalistas de investigação deste país, que, ao contrário da narrativa repetida pelos adeptos do Chega, nunca poupou partido algum e já deixou em maus lençóis, várias vezes, os poderosos aparelhos do PS e do PSD, antes e depois de eleições. A reportagem sobre o caso BES, “Assalto ao Castelo”, por exemplo, é absolutamente destrutiva para o PS e para o consulado Sócrates. Já antes se havia também debruçado sobre o caso BPN, onde, claro, não poupou o PSD e o cavaquismo.

Podia continuar a enumerar exemplos, do Pedro Coelho e de outros excelentes jornalistas de investigação, como Paulo Pena ou José António Cerejo, mas seria inútil. O adepto do Chega não se interessa por dados objectivos, porque o Chega, tal como o catolicismo ou o islamismo, é uma religião, com enorme potencial para se transformar em fanatismo ideológico, cego e absolutamente imune a factos. Interessa-me, isso sim, sublinhar o seguinte: não há timings para fazer jornalismo. Este documentário está a ser produzido há largos meses, não tendo chegado ao ecrã mais cedo pelo mesmo motivo que tem colocado a nossa vida em suspenso: a pandemia. Não obstante, o jornalismo de investigação não tem que fazer compassos de espera para deixar passar procissões. Tem, isso sim, que informar devidamente o cidadão, para que este possa, no caso da antecâmara de um acto eleitoral, fazer a escolha mais informada possível.

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Sente-se bem, dr. Rui Rio?

Li ontem uma peça no Público, já com alguns dias, que cita Rui Rio sobre as eleições presidenciais, com o líder do PSD a afirmar que um bom resultado de André Ventura é “mau para o país”.

Say what???

Então o homem anda todo empolgado a legitimar o líder da extrema-direita, abençoou um acordo de governação para Açores entre os dois partidos (do qual nem sequer precisava, sublinhe-se), admitiu acordos futuros a nível nacional, contribuiu, como ninguém, para a normalização do democraticamente anormal, e agora vem dizer que um bom resultado do parceiro é mau para o país?

Que é mau já nós sabíamos.

O único que não só não percebeu, como até contribuiu, activamente, para o reforço da posição do Chega, algo que, eventualmente, poderá garantir ao partido de extrema-direita um resultado mais robusto, foi, precisamente, Rui Rio.

Qual terá sido a parte que o líder do PSD não percebeu?

Boicotar e embargar o regime chinês, já!

Entretanto, na China, a jornalista independente que mostrou ao mundo a verdade sobre o surto inicial de Coronavirus, em Wuhan, foi condenada a 4 anos de prisão efectiva por “causar distúrbios” e “procurar problemas”, dois dos muitos eufemismos que este regime totalitário utiliza para legitimar a censura, perante o silêncio cúmplice, ou autocensura, mais ou menos generalizada, entre as democracias ocidentais, parcialmente detidas pelo império chinês, que continuam a assobiar para o lado e a recorrer ao trabalho semi-escravo que mantém as engrenagens de um certo capitalismo a funcionar.

Zhang Zhan, 37 anos, já foi advogada mas converteu-se ao jornalismo independente, profissão de risco no Império do Meio. Tal como muitas outras jornalistas e activistas que vieram antes de si, que ousaram desafiar o regime chinês, Zhan foi detida, julgada arbitrariamente, derrotada, humilhada e viu a sua liberdade suprimida, liberdade essa que, em bom rigor, nunca teve, tal como não tem cidadão algum de uma ditadura. Esteve em greve de fome, foi alimentada à força pelas autoridades chinesas, e promete iniciar novo protesto, mesmo que isso lhe custe a vida.

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A culpa é da Greta

Uma investigação do jornal britânico The Guardian revela que a factura a pagar pelos vários desastres ambientais que ocorreram durante o ano que agora termina, como os incêndios devastadores na Austrália e na Califórnia, ultrapassa os 150 mil milhões de euros. Mas esta é apenas a fatia quantificável, sendo que o total real é bastante superior a este valor.

Outro dado relevante é que o conjunto destes gravíssimos problemas ambientais foram agravados pelas alterações climáticas. A isto devemos juntar mais de 3500 mortes, 13,5 milhões de deslocados e refugiados ambientais, muitos deles provenientes de África, parte dos quais sepultados no Mediterrâneo, sem direito a honras fúnebres. [Read more…]

Debates Presidenciais 2021: Marcelo toma um chá com Marisa, Ventura arrasta Ferreira para o lamaçal

Dois debates, de escassos 30 minutos.

No primeiro, onde reinou a educação e a cordialidade, Marcelo foi um elegante cavalheiro. Elogiou a adversária, tendo mesmo ido buscar a questão da luta pelo estatuto do cuidador informal – Marcelo, o hábil analista, fez, como se esperava, um bom trabalho de casa – elogiou o Bloco e até pediu ao moderador para deixar Marisa Matias concluir, quando Carlos Daniel queria passar a palavra ao presidente em funções. Gostava, sinceramente, de ver um Marcelo que não fosse a jogo com a eleição ganha. Assim é só chato. E, no meio do aborrecimento, onde ambos estiveram bem, parece-me, Marisa soube mostrar as garras, mas a teia de Marcelo ocupava já todo o estúdio.

No segundo, a antítese. À primeira pergunta, dirigida a João Ferreira por uma moderadora incapaz de segurar um André Ventura full-Trump mode, o líder do Chega demorou poucos segundos para começar a interromper ininterruptamente o adversário, com piadolas, risos histéricos e chavões. A escola CMTV de discussão futebolística hardcore. Foi um debate penoso. Ventura falava na sua vez e na vez de Ferreira, repetia a táctica Venezuela-URSS-Coreia do Norte (alguém o avise do bromance entre o seu ayatollah Trump e o seu amor norte-coreano, Kim) à exaustão, e tanto se esforçou que lá conseguiu, mais para o final, arrastar João Ferreira para o seu território: a lama. E conseguiu o que quis: caos e histeria. E a moderadora terminou o debate como começou: ausente. Um péssimo debate, excelente para perceber o manipulador populista que André Ventura é.

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Sobre a miséria que alimenta o fundamentalismo religioso

Um destes dias estive a ver um episódio do Toda a verdade, na SIC, numa edição dedicada ao Paquistão. Num país onde reina a miséria, centenas (milhares?) de crianças trabalham desde tenra idade, nos fornos de tijolos, na periferia de Islamabad. Algumas têm 5 anos, nunca foram à escola e recebem uma miséria por turnos de 14 horas de trabalho duro, que compromete o seu crescimento e a sua saúde.

Trabalham porque os pais não têm dinheiro e mal conseguem pagar uma alimentação digna do nome, sempre a léguas dos padrões de decência mínima. E são alvos fáceis para os fundamentalistas islâmicos, que andam à pesca em locais como este, prometendo casa, conforto, comida e estudos, em troca de uma vida de obediência cega na madrassa, onde serão doutrinados na interpretação mais extremista da Sharia, com o alto patrocínio, como tantas outras, de oligarcas de estados poderosos como a Arábia Saudita. [Read more…]

2020: o ano de todas as pandemias

2020 foi um ano difícil, que pode ser resumido em poucas palavras: vírus, epidemia, pandemia, medo, confinamento, distanciamento social, máscara, álcool-gel, negacionismo, contágio, zaragatoa, teste, ventilador, profissionais de saúde, SNS, layoff, crise económica, vacina e morte. Talvez pudessem ser acrescentadas mais algumas, que nem me ocorrem nem me apetece procurar, porque não pretendo fazer disto uma obra científica, mas este foi o léxico dominante, durante os nove últimos meses. E, não nos iludamos, continuará a sê-lo.

Muito foi dito e escrito sobre a pandemia. Da “gripezinha” à falsa sensação de segurança, passando pelas habituais conspirações, amplificadas pela ignorância militante, de repente éramos 7,8 mil milhões de especialistas em saúde pública, virologia e gestão de crises. Por cá fomos bestiais, depois bestas, e, quer-me agora parecer, terminamos o ano como culpados pelo agravar dos números. E não, não saíamos mais unidos, mais conscientes ou mais humanos de tudo isto. Saímos como entramos, com as nossas virtudes e defeitos, adaptados ao novo normal que, esperamos, já seja uma recordação distante daqui por um ano. [Read more…]

Nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda, excepto todas as que foram

Sempre que alguém ousa tecer uma crítica aos abusos do capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada, rapidamente surge alguém que nos recorda uma de duas coisas (ou ambas): que 1) Cuba e Venezuela existem e que 2) nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda.

Sobre o primeiro ponto, é interessante verificar que raramente se traz a China para esta equação, apesar de se tratar de um regime que monitoriza, persegue e oprime os seus cidadãos como nenhum, talvez com a excepção da Coreia do Norte. Imagino que tal não seja alheio a uma das características desse incriticável capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada: a China é o seu motor. E porque, é bom dizê-lo, não faltam governos e governantes, no ocidente democrático, a sonhar com um poder (proporcionalmente) igual ao de Xi Jinping. Erdogan, Orbán, Bolsonaro, Borisov ou Morawiechi, os candidatos acumulam-se e já nem se dão ao trabalho de dissimular. [Read more…]

Massacre na Azambuja

Matar animais por satisfação pessoal é cruel, desumano, abjecto. Tenho para mim que existe uma linha que nos separa, humanos normais que cumprem mínimos de decência, dessa subespécie de homens e mulheres das cavernas que matam por um qualquer prazer sádico e doentio. Uma linha vermelha que separa a civilização da barbárie.

Massacrar animais não é caça. E se não é crime, talvez esteja na hora de legislar sobre o assunto, sem perder muito tempo. Porque a caça tem um propósito, ao nível do controle populacional, que, ao contrário de que alguns fazem crer, desempenha um papel fundamental na manutenção da biodiversidade. Mas isto não foi caça. Isto foi um massacre brutal, perpetrado por subgente hedionda que se regozijou com o resultado da matança. [Read more…]

The Rio-Ventura emoji-chatice connection

Não se descarte a possibilidade de estarmos perante uma conspiração de assessores do PSD e do Chega, a soldo de socialistas, da extrema-esquerda ou da Venezuela. Ou, quem sabe, perante uma coligação informal que, em princípio, terminará no dia em que Ventura, triunfante, regresse ao PSD para tomar conta do aparelho. Seria uma grande chatice, é certo, mas os emojis compensarão a maçada.

Brandos costumes pidescos

Assinalou-se, na Quinta-feira, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e o momento não podia ser mais oportuno, na medida em que o país parece ter acordado para o estranho caso do cidadão ucraniano que foi espancado e torturado até à morte por inspectores do SEF, nas instalações desta força de segurança, no aeroporto Humberto Delgado. Uma bela forma de homenagear o resistente antifascista que dá o nome à infraestrutura.

Qual é o problema desta nossa indignação colectiva? É que já passaram nove meses desde que este atentado contra os direitos humanos foi perpetrado. E, com a excepção de algumas jornalistas, como Valentina Marcelino, Fernanda Câncio, Joana Gorjão e Daniel Oliveira, entre (poucos) outros, a opção pelo silêncio foi geral. Não tendo o caso sido abafado, pouca importância lhe foi dada nos headlines e alinhamentos noticiosos. As redes sociais, sempre implacáveis, não ebuliram como habitualmente acontece com casos de racismo, ou de tiradas xenófobas da extrema-direita. Um silêncio que envergonha, mais ainda por ter feito parte dele. [Read more…]

Por falar em cadáveres políticos

Donald Trump e seus fiéis seguidores viram a teoria da conspiração eleitoral mandada às favas pelo Supremo Tribunal dos EUA, onde os conservadores têm seis juízes, três dos quais nomeados por Trump, e apenas três progressistas. Mesmo assim, Trump perdeu. Neste como em todos os processos que a sua equipa moveu, no âmbito das presidenciais. E, mesmo sem provas, sem factos que sustentem a teoria, o lunático insiste no culto da fraude, qual líder espiritual a conduzir uma seita de milhões para o abismo do ridículo, mas também da radicalização cega, que não pode deixar de preocupar todos os democratas. Lá como cá. Porque isto não estará muito longe daquilo que seria ter que lidar com “vocês sabem quem” no poder.

A minha social-democracia é melhor do que a tua

Vejo por aí muita indignação com a afirmação de Marisa Matias, que se autoproclamou social-democrata. Vinda dos lados do PSD é irónico, visto tratar-se de um partido que, de social-democrata, tem apenas o nome. Poderá até tê-lo sido até ao início da década de 80, mas fechou a social-democracia numa gaveta, há muitos anos, e nunca mais de lá a tirou.

Vamos a factos: o PSD é um partido de direita conservadora, cada vez mais liberal no que toca a políticas económicas, característica que se começa a evidenciar com Durão Barroso e que atinge o ponto alto com Passos Coelho. Já a social-democracia, ideologia progressista que se situa no centro-esquerda do espectro, é filha do socialismo e neta do marxismo. [Read more…]

Daniel Oliveira ARRASA André Ventura

Quando Ana Gomes anunciou a sua candidatura a Belém, André Ventura afirmou, sem rodeios, que se demitiria da liderança do Chega, caso ficasse atrás da antiga eurodeputada socialista.

Várias sondagens depois, com André Ventura sempre atrás de Ana Gomes, que não precisou sequer do apoio oficial do PS para se destacar no segundo lugar em todos os estudos de opinião, o representante da extrema-direita começou a virar o bico ao prego, porque a sua palavra tem sempre o mesmo valor: o que melhor se adequar às suas necessidades momentâneas.

Daniel Oliveira “apanhou-o na curva” (expressão oportuna, nestes tempos áureos do motociclismo nacional), recordando-lhe a promessa do candidato presidencial Ventura, enquanto limpava o chão do Twitter com o político profissional do sistema que diz combater os políticos profissionais do sistema.

Com tanta discussão sobre pandemias, vacinas e crises económicas, ver a extrema-direita ser exposta, todos os dias, sempre vai dando algum alento.

António Costa, orgulhosamente só

Foto: Global Imagens@Notícias ao Minuto

Após as Legislativas de 2019, António Costa recusou acordo formal à esquerda, e optou por sujeitar o seu governo minoritário ao geometria variável do parlamento.

Meses mais tarde, afirmou, de forma categórica, que, se que se precisasse do PSD para governar, o governo caia, derrubando a única ponte possível à direita, ainda antes da venturização de Rui Rio, que, até então, se ia mostrando aberto a alguns entendimentos.

Agora, isolado por culpa própria, totalmente dependente do PCP, do PAN e das deputadas não inscritas, já que o entendimento com o BE se tornou praticamente impossível, dispara em todas as direcções e acusa os restantes de empurrar o país para a ingovernabilidade, quando é o próprio António Costa o principal responsável por este desfecho. E eu que cheguei a pensar que era Rio quem queria eleições antecipadas.

O grande Vítor Oliveira partiu

Mais ainda do que a morte de Maradona, que sempre foi exímio a rebentar com a sua saúde, ou de Reinaldo Teles, apanhado nas malhas impiedosas da covid-19, encontrando-se em estado grave e ligado a um ventilador desde final de Outubro, choca-me a morte repentina do grande Vítor Oliveira, treinador que tanto deu ao futebol português, especialista na subida de equipas do segundo escalão para a Primeira Liga, e que passou pelo clube da minha terra, o CD Trofense. Hoje foi fazer a sua caminhada matinal, sentiu-se mal e já nada houve a fazer. Tinha apenas 67 anos e deixa um vazio no futebol português que não mais será preenchido, pelas características únicas de um jogador-treinador que passou por duas dezenas de clubes e que ficará para a história como o Rei das Subidas. Respeito pelo percurso inigualável e paz à sua alma.

Chega, o filho bastardo do estado a que isto chegou

 

Disse Pedro Norton:

Quando os partidos tradicionais do nosso sistema político começarem a tratar o Chega mais como consequência do que como causa, ter-se-á iniciado a travagem do seu crescimento.

E isto fez-me pensar. Efectivamente, o Chega não é O problema (apesar de ser um problema), ou pelo menos não é a origem dele. O Chega, tal como outros epifenómenos idênticos, é uma consequência directa do estado a que isto chegou. Do Estado em permanente estado de desconfiança, que se funda na percepção, cada vez mais alargada, e não muito desfasada da realidade, da existência de uma enorme rede de corrupção instalada nos vários patamares da governação e da administração pública, que se cruza com a banca, algumas das principais sociedades de advogados portugueses, várias empresas e empresários e, claro, toda uma corja de políticos servis, que manobram a coisa pública a toque de caixa de quem lhe poderá, um dia, dar acesso à tal porta rotativa. De Lisboa até à mais recôndita freguesia deste país. [Read more…]

O terror em Moçambique e a urgência de combater as máfias jihadistas

Foto: Marco Longari/AFP

Há vários meses que os moçambicanos vivem um autêntico filme de terror, com a província de Cabo Delgado refém de milícias financiadas por fundamentalistas islâmicos, presume-se que pelo próprio Daesh. Centenas de mortos, milhares de deslocados, aldeias arrasadas e uma situação de medo e insegurança permanente, que conheceu há dias um dos seus episódios mais horripilantes e sangrentos, com a decapitação e desmembramento de 50 pessoas.

Apesar dos laços estreitos que nos unem a Moçambique, do passado colonial à CPLP, pouco ou nada temos ouvido a este respeito, quer dos responsáveis políticos, no poder e na oposição, quer da comunicação social, que lá vai reportando um ou outro massacre, lá mais para o final do alinhamento do telejornal. Onde está o país que se mobilizou pelos timorenses, na sequência do massacre de Santa Cruz? Alguém o viu por aí? [Read more…]

As falsas equivalências de um PSD em avançado estado de venturização

Foto: João Miguel Rodrigues@Jornal de Negócios

Há quem esteja a tentar minar a discussão pública sobre aquilo que se está a passar nos Açores, recorrendo a falsas equivalências para desviar os holofotes do cerne da questão, que é o acordo entre a maior força política portuguesa e um partido de extrema-direita, herdeiro do salazarismo, com uma ala neonazi e ligações às principais forças neofascistas europeias.
É disto que estamos a falar, não de outra coisa. Da legitimação da extrema-direita por forças democráticas. Da extrema-direita das castrações químicas, das remoções compulsivas de ovários, das fake news, das assinaturas falsas aquando da formação do partido, do albergue de antigos militantes de organizações neo-nazis, dos negacionistas da ciência e das alterações climáticas, dos teóricos da conspiração, da fábula anti-elites, financiada pelas elites, e das infindáveis contradições e mortais à retaguarda daquele cujo nome não deve ser mencionado, mais a verborreia virtual e as tiradas xenófobas e racistas. É isto que está em causa. É este o cerne da questão. Foi a isto que o PSD de Rui Rio se rendeu.

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A vacina muçulmana


Os dois cientistas por trás da vacina da Pfizer são filhos de imigrantes turcos na Alemanha. Ugur Sahin e Özlem Türeci, da BioNtech, começaram a estudar o vírus ainda a Europa não sabia o que a esperava, em meados de Janeiro, e são os parceiros da farmacêutica que, aparentemente, está mais próxima de disponibilizar a tão ansiada vacina.

Sublinho a ironia de sermos “salvos” da pandemia do século por filhos de imigrantes, ainda por cima muçulmanos, enquanto outros, com menos sorte, se afogam no Mediterrâneo, numa outra pandemia sem fim. Ou são perseguidos e espancados por grupos de extrema-direita. Ou são estigmatizados e enfiados no mesmo saco que a minoria terrorista. Ou são usados como arma de arremesso por demagogos oportunistas com agendas totalitárias. Não sei quanto a vós, mas eu vi aqui um belo raio de sol neste 2020 sombrio. Quanto à extrema-direita xenófoba e racista, bem, é lidar.

Vai demorar muito, América?

and lock that thug up!

A democracia ganhou, mas não se livrou do trumpismo

Quando penso naquilo que me move, politicamente falando, a resposta é tão simples quanto a genial Sophia a colocou: movem-me os dias iniciais inteiros e limpos. Dias que fazem renascer a esperança na construção de um mundo e de um futuro um bocadinho melhor. Dias como estes. Dias em que abrimos a janela e sentimos aquela brisa boa da democracia a bater-nos nas trombas, entretanto transformadas em caras felizes, aliviadas pelo ponto final que os Estados Unidos da América decidiram colocaram na era sombria do neofascismo trumpista. Já temos problemas que cheguem no Ocidente, não precisamos de mais quatro anos desse idoso trafulha, com idade mental insuficiente para frequentar um jardim de infância.
A queda de Donald Trump é um balão de oxigénio para o mundo democrático, e isso explica, a meu ver, a forma como, por todo o mundo, mulheres e homens de esquerda e de direita, liberais e conservadores, festejaram a eleição de um candidato de centro-direita, que a narrativa mais fundamentalista acusava de ser um socialista, termo que, nos EUA, ainda significa, para milhões de pessoas, União Soviética (uma espécie de Venezuela, versão old school). Houve mesmo quem afirmasse que Biden tinha um programa comunista, só para termos a noção do patamar de absurdo em que nos situamos. A risota que não terá sido em Wall Street.

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Sá Carneiro deve estar orgulhoso

Foto: João Miguel Rodrigues@Jornal de Negócios

Foi Rui Rio quem, no início do ano, assumiu abertura para dialogar com a extrema-direita, caso esta se moderasse, impossibilidade que decorre da sua natureza extremista. Rui Rio sabia com quem lidava, ou pelo menos tinha a obrigação de saber, porque não anda nisto há dois dias, como o próprio não se cansa de dizer. Tal não o impediu, contudo, de se comprometer e de fragilizar a sua posição, bem como a do partido que lidera.

Aliás, se recuarmos até Setembro de 2018, verificamos que a narrativa que está na base da criação do Chega aponta precisamente para a necessidade de fazer cair a direcção de Rui Rio. Na altura, e ainda na condição de militante do PSD, André Ventura cria o Chega como um movimento que visava reunir assinaturas suficientes para convocar um congresso extraordinário do PSD, com o qual pretendia derrubar a direcção Rio. [Read more…]

Fascismo Cultural

A democracia não é nem pode ser neutra. A democracia tem valores e princípios sobre a qual foi construída, e deve defendê-los com todos os recursos à sua disposição. Não poderia ser de outra maneira.

A sua natureza plural, contudo, encerra um perigo, que é o de permitir que os seus inimigos, aqueles que a querem destruir, possam ter uma palavra a dizer na sua condução. Alguns deles estão, estiveram e têm perspectivas de chegar ao poder, mas o seu líder acaba de cair. E o espectáculo não está a ser bonito de se ver.

Com Trump em modo meltdown conspiracy, os Proud Boys standing back and by, focos de contestação organizada à porta de estações de contagem de votos nos Estados que ainda continuam por fechar, o Bin Laden da extrema-direita internacional mostrou ao que vinha e acabou banido do Twitter. No seu canal, Steve Bannon, estratega da vitória de Trump em 2016, deixou um recado ao ainda presidente: despedir Fauci e Christopher Wray, director do FBI, mas só porque o “presidente é bondoso”. Se fosse ele, a coisa piava de outra forma:

Eu gostava de voltar atrás e estar nos bons velhos tempos da Inglaterra durante a dinastia Tudor e pôr a cabeça deles em estacas” e colocá-las de “cada lado da Casa Branca como um aviso aos burocratas federais

A democracia não é nem pode ser neutra. A democracia tem limites, linhas vermelhas, e uma delas é não tolerar métodos medievais de terror. Mas é essa, a alternativa que a extrema-direita tem para oferecer. Chamemos-lhes fascismo cultural. E os democratas a procrastinar, armados em Chamberlains, fiados na virgem e no wishful thinking.

Biden não será a alternativa óptima, mas é o analgésico possível para uma América em carne viva. A democracia está estilhaçada, mas sobreviverá para viver mais um dia. Caberá aos democratas decidir se estão verdadeiramente dispostos a lutar por ela, contra a pandemia do nacional-trumpismo.

Entretanto, na América em ebulição

Quase 24 horas depois do fecho das últimas urnas nos EUA, ainda não sabemos quem será o próximo presidente da nação que dita as regras do jogo internacional. E é possível que ainda não fique tudo fechado hoje, para não falar na mais que provável tentativa de impugnação que se seguirá, caso Biden leve a melhor, e que Donald Trump vem ensaiando desde o segundo debate.

Biden leva uma vantagem confortável, que, à hora que escrevo, é de 39 grandes eleitores. Está a 17 do número mágico dos 270 e é já o candidato presidencial mais votado de sempre em presidenciais nos EUA, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos 70 milhões de votos. Para ser mais preciso, Joe Biden leva neste momento 71,5 milhões de votos, contra os 68 milhões de Donald Trump. O candidato mais votado de sempre era Obama, com 69,5 milhões. Em 2016, Trump ganhou com quase 63 milhões contra Hilary, que conseguiu quase 66. Só para colocarmos as coisas em perspectiva. [Read more…]

GOP elege congressista QAnon

Sim, leram bem: os republicanos meteram uma chalupa no Congresso que acredita que Trump está em guerra com um lobby pedófilo que quer dominar o mundo. RIP, GOP.

The Handmaid’s Trump

Em 2016, a 10 meses do final do seu mandato, a maioria republicana no Senado impediu Barack Obama de substituir o falecido juiz Antonin, do Supremo Tribunal. O líder dos republicanos, Mitch McConnell, justificava a decisão com o argumento de que os eleitores teriam uma palavra a dizer, pelo que a substituição do juiz do Supremo só deveria ocorrer após o acto eleitoral marcado para o final desse ano.

Quatro anos volvidos, Donald Trump nomeou Amy Coney Barrett, na sequência do falecimento da icónica Ruth Bader Ginsberg, a menos de um mês das presidenciais. O ainda líder dos republicanos, Mitch McConnell, bem como a bancada republicana no Senado estado-unidense, nada tiveram a opor. Os eleitores, esses, nada puderam ou tiveram a dizer.

Desta forma, cumpriu-se a vontade de Donald Trump, que nomeu o seu terceiro magistrado vitalício na mais alta instância jurídica dos EUA, ampliando a maioria republicana no Supremo. Uma maioria com a qual o presidente conta para invalidar uma possível vitória de Joe Biden na secretaria, plano em marcha há várias semanas, assente na narrativa da fraude eleitoral.

O cerco está montado. Mesmo que Biden vença as eleições, o Supremo Tribunal dos EUA será uma força de bloqueio à governação do novo presidente. E com três juízes nomeados por Trump, a última das quais uma ultraconservadora membro da People of Praise, uma organização fundamentalista católica que advoga, por exemplo, que as mulheres se devem submeter à vontade dos seus maridos, o cenário não é nada animador. Após vários episódios verídicos de Black Mirror, a realidade parece apostada em reproduzir The Handmaid’s Tale.