De Tavira para o 25 de Abril de 1974

Foi um acaso, sim. Mas não é a História feita, também, de acasos? Um acaso que, quase 50 anos depois, é ainda um facto praticamente desconhecido: muitos dos cravos que marcaram as imagens do 25 de Abril de 1974 foram criados no Posto Agrário de Tavira.

Esta recente informação – também obtida por acaso, através de uma investigação sobre o Posto agrário de Tavira -, deu asas à ideia de recriar a viagem dos cravos que são o símbolo da liberdade de Abril. Aliás, também isso, por acaso. Segundo testemunho da Eng. Guilhermina Madeira, que à data trabalhava no Posto Agrário, os cravos seguiam de Tavira para Lisboa à consignação para um distribuidor, a firma Laranjeiras e irmãos, e era ao sr. Laranjeira que as senhoras que vendiam no Rossio e na Praça da Figueira compravam as flores. “Tanto quanto me apercebi, foram as mulheres que distribuíram os cravos, era o que tinham, se calhar se tivessem tulipas ou gladíolos em abundância, teriam dado também…”.

Inspirados por este acaso, um grupo de voluntários dos talhões das hortas comunitárias que hoje existem no espaço do (hoje denominado) Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT), decidiram nos últimos meses voltar a plantar cravos, para distribuírem no cinquentenário do 25 de Abril.

E antecipadamente, já no dia 1 de Março, uma associação e um movimento locais realizaram um evento no mesmo espaço, com um programa mesclado de momentos diversos e intensos e uma assistência expressiva, que encheu a sala da biblioteca do CEAT.

Desde uma visita à colecção de fruteiras do CEAT e ao local de cultivo dos cravos, à exposição “Posto Agrário de Tavira 1926-1974”, seguida de uma intervenção musical pelo grupo Fado Tropical, à declamação sublime, por Victor Correia, do “Poema de Parabéns” de Teresa Rita Lopes, à intervenção de vários representantes de entidades, ao discurso do representante da Associação 25 de Abril, Capitão-de-Mar-e-Guerra Mário Júlio Simões Teles, ao visionamento do vídeo “Cravos de Abril”, produzido pela associação Ecotopia Ativa, à intervenção do historiador Ignacio García Pereda (que descobriu o acaso da origem dos cravos), tudo foram momentos altos da comemoração do acontecimento supremo da Historia de Portugal, que foi a queda do Estado Novo, no dia 25 de Abril de 1974.

Para as pessoas que, apenas dotadas da sua vontade e empenhamento criaram os cravos nas hortas comunitárias e organizaram este evento e para as que estiveram presentes, este foi um verdadeiro momento simbólico de tudo aquilo que o 25 de Abril representa e que, como todos já notámos, urge defender.

Nunca pensei ter de vir a ouvir, como ando a ter de ouvir, que há cinquenta anos tudo era muito melhor. Onde este neoliberalismo prepotente e perverso nos fez chegar!

Comments

  1. Antonio Miguel says:

    Eram as mulheres que eram e são as mais sacrificadas.
    Antes do 25 de Abril as mulheres eram excluídas e perseguidas, sem as mulheres não teria havido o 25 de Abril, foram os seus filhos e filhas que geram o 25 de Abril. Ainda hoje as mulheres sofrem exclusões, sem ilusões. A direita exclui as mulheres😡!!!!

  2. JgMenos says:

    «há cinquenta anos tudo era muito melhor»
    Há cinquenta anos discutia-se o que então era o presente, sonhava-se o que se queria ver futuro.
    Não como agora, que tudo é centrado em memórias, e que, no caso da esquerdalhada, pela dislexia que lhe é própria, pensam em Março de 75 e dizem Abril de 74!

    • Depois houve uns caralhos que estacionaram um porta-aviões em Lisboa, assassinaram um primeiro-ministro, educaram a elite a ser boa aluna, e cá estamos, sem futuro, como os tais caralhos a ter certeza que vamos primeiro.

  3. POIS! says:

    Pois citando Menos…

    “Há cinquenta anos discutia-se o que então era o presente, sonhava-se o que se queria ver futuro.”

    Assim fala o conhecido “Penseur” gaulês JgMoinspalisse.

    Que, no entanto, sonhava mais com o que queria ver passado. Ou com o passado que queria ver presente. Ou com o presente que queria ver como o passado. Ou como o futuro que tenha no presente o regresso ao passado.

    Ou com o passado, que julga não estar passado, porque está completamente passado. Do bestunto.

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