
Confesso que reflecti um bocado antes de avançar para este texto. Mas a irritação é demasiada e não consegui evitar.
Estou farto desta narrativa de que temos de estar gratos a um jogador de futebol pela “identidade nacional” ou por “colocar Portugal no mapa”. Cansa. É redutor. É ignorante e, no limite, é até bastante anti-patriota pensar assim. Se Portugal, enquanto país, deixa a sua imagem depender de um jogador de futebol, para o bem e para o mal, então Portugal não é um país. É um entreposto de néscios deslumbrados com a grandeza de um só um homem.
Portugal tem mais de novecentos anos de História. Já éramos Portugal antes do jogador de futebol e continuaremos a ser Portugal depois do jogador de futebol. Seja esse jogador de futebol quem for. Sim, Cristiano Ronaldo é uma marca e, como tal, usa o marketing e a publicidade a seu favor. E aprendeu-o, sobretudo, em Madrid, no clube que melhor faz lavagem de imagem na Europa. Na Arábia, cimentou-o: depois de lavada a sua própria imagem, especialmente depois da fuga ao fisco espanhol e da violação de Kathryn Mayorga, foi lavar a imagem da pior ditadura do Mundo a troco de muito dinheiro. A carreira futebolística de Cristiano acabou quando saiu da Juventus; tendo, a partir daí, virado a antena para os negócios, sendo o futebol apenas a linha férrea que transportava o comboio até ao destino final.
Um estupendo jogador de futebol que como pessoa deixa muito a desejar, por tudo o que tem mostrado ser neste final de carreira.
Vi todas as fases de Cristiano Ronaldo. Quando saiu do Sporting, eu teria uns sete anos, pelo que pouco retenho. A partir daí, seguir a carreira de um dos melhores de sempre foi um regalo. Sobretudo em Manchester, mas também quando deixou o futebol-magia e passou a ir atrás de recordes, no Real Madrid. Quando vai para Itália começa o declínio, pelo que deixei de acompanhar, uma vez que preferi manter presente o Cristiano feito Monstro e não este Cristiano que se arrasta, qual sombra do que já foi. O Cristiano jovem e tímido de Manchester que, com humildade e trabalho iluminava os relvados ingleses, deu lugar ao Ronaldo prepotente e arrogante de Madrid, a olhar para si próprio em mil espelhos e que trocou o futebol imprevisível pela previsibilidade dos golos que foi marcando.
Que Cristiano não queira reconhecer que 2012 já lá vai… mas 2012 já lá vai. Afirmar que quem defende que Cristiano já atrapalha mais do que ajuda, está a destratar o próprio Cristiano, não podia ser mais errado. Destratar Cristiano seria continuar a iludir-nos de que o Ronaldo de 2026 ainda é o Ronaldo de 2012. Não é, de muito longe. A ovelha negra pode ser aquele que, no momento oportuno, diz o que toda a gente vê sem abrir a boca; mas quem realmente não ajuda são os que continuam a iludir o avô. “Sim, avô, é claro que vai vencer o Mundial e marcar 12 golos na competição; e se não o fizer não faz mal, continua a ser o melhor do mundo até 2126. Está decretado, avô!”.
Depois, há o argumento da “gratidão”. Eu prefiro gratinados. A gratidão não é um lugar comum. Não somos obrigados a ser eternamente gratos ao que quer que seja. Até porque ser grato não é prolongar isto até à mais que natural morte do artista. ser grato é reconhecer que acabou, que tudo foi fantástico, que conquistámos coisas juntos e que o percurso foi bom de se ver; grato, mas já não dá. Grato, mas tudo tem um fim. Grato, mas assertivo: Cristiano Ronaldo não joga futebol mais ou menos desde 2018. E se me querem pôr a comer bacalhau, que seja gratinado porque assim cru não tem piada nenhuma e sushi não é assim.
Para além de tudo isto, há ainda a narrativa de que “Ronaldo deu muito à Selecção”. Sim, deu sobretudo golos em fases de apuramento; mas, mesmo que gratos, reconheçamos: Pauleta foi o melhor marcador da Selecção durante uma década por isso mesmo, só que depois marcava menos em competições oficiais. Mas não o deu sozinho. Em 2004 perdemos, em casa, o Europeu, na fatídica final contra os gregos. Cristiano despertava para o futebol nessa altura; mas as estrelas eram Figo, Deco ou Rui Costa. Ainda humilde, Cristiano era o caçula do grupo, não jogava sempre de início, mas quando entrava deixava-nos estarrecidos com a sua finta, o seu remate e o seu atrevimento no jogo. Em 2006, no Mundial que nos deixou em 4.º lugar, caímos nas meias-finais frente à França. Figo ainda era a estrela, mas com trinta e muitos anos preparava-se para dar lugar a outro. E quem era o outro que assumiria o estrelato? Cristiano Ronaldo, que caso Figo tivesse decidido continuar, iria viver alguns anos na sombra deste na Selecção (pela gratidão, pois claro), pois na altura jogavam na mesma posição – extremo-esquerdo, ainda que Figo por vezes passasse para a direita ou para o meio. A partir de 2006, Ronaldo estabelece-se como figura maior da FPF. Mas ainda não com o nível “de malucos e alucinados” de hoje em dia. Era só um jogador de futebol muito bom, ainda. Portugal passou anos a penar, onde, claro, Cristiano continuava a facturar: mas relembro que o futebol é um desporto colectivo. Euro2008, Mundial2010, Euro2012, Mundial2014… Euro2016. Portugal vence o Europeu de futebol em 2016 sem saber ler nem escrever, de empate em empate… até que, no jogo da final, Cristiano sai lesionado bem cedo. E Portugal começa a jogar bem… até entrar um proscrito chamado Éder que, contra todas as probabilidades, mete a bola na rede e traz o Europeu para Portugal pela primeira vez. E quem é o Éder hoje? Pois… a gratidão. Daí em diante, o real declínio de alguém que atingiu o estatuto de melhor marcador da Selecção Nacional e de jogador com mais internacionalizações, mas que se serviu da Selecção, mais do que servir a Selecção.
Mas desengane-se quem achar que Cristiano vai abandonar. Pode ter assumido que daqui a 4 anos não estará, mas terão de levar com ele ainda nas fases de apuramento e no Europeu… porque chegar aos 1000 golos pode não dar um título a Portugal, mas Portugal tem de estar grato e deixar o menino chegar à marca redonda… porque sim.
Portugal não é Cristiano.
Portugal é Portugal, sempre foi Portugal e continuará a ser Portugal. com as suas qualidade e com os seus defeitos, como qualquer país e por muito que certos zés (ou ronaldetes, como lhes chamam) queiram reduzir o país a um jogador de futebol.
900 anos de História. Zero ídolos.








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