
Não é fácil escrever um prefácio, mais ainda se esse prefácio for para a obra de um pai, numa viagem em carne viva pelas palavras que sulcou ao longo da vida, no fim da vida. Um prefácio que, entretanto, renasce numa mensagem que recusa despedidas.
Não é possível prefaciar um pai sem começar pelo pai, antes mesmo da obra. E não se pode falar de um pai sem começar por uma história de criança. Todos os pais que foram pais, têm, como tenho, uma imensa biblioteca de histórias de criança. Histórias simples, singelas, mas que ocupam um lugar cinematográfico na memória, que pode ser revivido ao longo da vida, vezes sem conta, o que nos permite não só não esquecer as histórias, mas, sobretudo, não esquecer o nosso preciso e precioso olhar de criança sobre as coisas.
Esta lembra um velho pesadelo. Aquele persistente. Repetido. Que por candura voltava apenas na exata medida da presença do meu pai, talvez por precisar da sua presença para que acabasse o alvoroço. Ia eu e ele no carro como tantas vezes. No vai vem das vidas que ficam. Numa curva, para atalhar caminho, na irrealidade dos sonhos, em nome de tempo útil da existência fora das necessárias contingências, decidimos saltar o eixo e voar de lés a lés a curva, com a arriba no meio, como só nos sonhos é possível. O sonho acabava sempre a meio, no abismo do salto, na expetativa se caia ou se chegava. Nessa angústia, enquanto faltava o ar, acordava na cama suada e no colo do meu pai que lá estava para acabar com o sobressalto. Era assim no sonho e na metáfora da vida, onde o meu pai ocupa o lugar de herói nas horas difíceis, discreto, mas omnipresente.
Escrever sobre o meu pai, a pretexto da obra e da sua partida, é escrever que, nele e nela, encontramos primeiro o menino e só depois o homem, primeiro a coragem e só depois o medo, a inquietude da palavra primeiro que o conforto do silêncio. Foi e será sempre assim em cada etapa, em cada prosa, em cada poema, em cada lição, em cada palavra.
Mais por respeito do que por impertinência, é no fim que se começam a ler as histórias. Para descobrir e desfrutar do caminho tendo o destino certo. É como ler o fim da história antes do começo, como sempre lhe pedia em criança, para aprender a olhar a beleza do caminho, a narrativa pela narrativa, sem estar refém da sede do desenlace. Aqui é do olhar que se trata. Do que podemos desvendar sobre o que pensa quem escreve, através do que nos narra. De perceber que caminho foi preciso para que a palavra fosse um parto.
Em cada estrofe, cada ode ou síntese, cada tributo ou crónica, procura-se perceber onde é que vamos deixando a vida ao longo da vida. Entender bem que quem viveu a guerra olha a vida sabendo que ela não segue inteira, que vai ficando pelo caminho, e poucos os que a viveram salvam além do corpo o olhar terno. Sobreviver a uma guerra tão estúpida como violenta, com a qual não se concorda, não se consegui imaginar sem se viver, mas nos tributos e poemas a Abril ouvimos-lhe os dentes e os punhos cerrados, também por causa do passado que tragicamente está de volta, às mãos dos loucos que acham ser donos da história e do tempo. Este retrocesso aos fanáticos do passado, é certamente algo que não se percebe de nenhuma maneira. Como é que no país do 25 de Abril, nos seus 50 anos, os pirómanos estejam de regresso? Esta é uma inquietação à procura de resposta e é uma inquietação que certamente meu pai levou consigo.
Nas esculturas do meu pai há muitos veios. O de pai e de homem de família, o de médico, de humanista, de republicano, de viajante, de alguém sempre na luta, em cada etapa, pelo espírito fraterno e livre.
Nos seus textos e poemas, toca-nos o seu olhar pela cidade velha, Coimbra, noutros tempos da cidade, mas também no tempo dela. A que já não existe, a que persiste e a que nasceu dos escombros, no entretanto. Nos seus textos e poemas as raízes ganhas nas Beiras, na aldeia de Folques e em muitas outras que sarapintam a serra, até ao longínquo mar que cerca o Corvo por dentro e por fora. Há as referências, os Mestres, os amigos, aqueles cujas pisadas lhe serviram de guia. As suas Rosas dos Ventos. Há os lugares, aqueles que por onde passamos e não ficamos indiferentes. Aqueles que, mesmo que por instantes, nos ficam gravados para sempre. Os lugares-gente.
Nos seus textos e poemas o médico que sabe que só é médico quem além de médico seja também outras coisas. Nos seus textos e poemas o viajante, aquele que viaja porque precisa encontrar, e o fotógrafo, aquele que precisa de fotografar porque vê para lá do que se vê com os olhos. Não é a estética que comanda o disparo, no filme ou na página em branco. É a ética de colocar sempre tudo em causa.
Como todo o escritor e poeta que nos escreve com fôlego, o que nos deixa sobreviverá ao corpo, mesmo que a vida o leve com crueldade. Os religiosos acreditam nas almas, os poetas não precisam nada disso, que são os únicos a quem é permitido deixar a alma para contar segredos. Vivem para lá do tempo porque ficam sempre vivos nas folhas que ficam escritas para contrariar a agonia que nos é imposta. Eles sabem bem que nós sabemos que só a palavra nos salva do silêncio, seja esse silêncio imposto por uma ditadura, uma página em branco, ou pela tristeza da morte.
A noite é cerrada. Quando chego a casa, tarde, sempre tarde, só ele se mantém acordado no seu canto de cima. Subo para as despedidas. Entre cigarros, livros, folhas e o sobrolho levantado, lá está ele, onde vai estar sempre, tatuado nas minhas retinas para mais um jogo de xadrez, o culto da palavra e outro beijo de boa noite para levar para o caminho.
Carlos Maia Teixeira, Sempre!






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