No seu espaço de comentário televisivo de 6 de Março, Henrique Raposo falou sobre a guerra do Irão, começando por afirmar que temos de sentir uma certa alegria pela derrota de uma ditadura, que o povo iraniano comemora a derrota de um ditador. Ficamos, então, com a impressão ou mesmo com a certeza de que as acções israelo-americanas provocaram uma derrota.
A ser verdade essa derrota (ou a ser iminente ou considerada iminente), é justo que haja alegria, mesmo que possamos criticar os meios utilizados e mesmo que acreditemos nas boas intenções de Israel e dos Estados Unidos.
É perfeitamente compreensível que haja esperança entre os iranianos, massacrados por uma teocracia hedionda e Henrique Raposo mostra um vídeo de uma iraniana que deixa essa esperança clara.
Logo a seguir, acusa a esquerda de nunca estar do lado dos que querem a democracia. Não apresenta uma única fonte, uma citação, um vídeo que prove uma ocorrência dessa generalização.
Neste segmento sobre o Irão, acaba a afirmar que não é possível fazer uma transição para a democracia e que todas as operações militares americanas no Médio Oriente que tiveram ou fingiram ter essa intenção falharam.
Ainda acrescenta que Trump quer, com este ataque, encurralar a China, o que, sendo verdade, afasta os EUA de um generoso combate pela democracia.
Em suma, se não é possível fazer uma transição e se os EUA falharam demasiadas vezes (sempre?) na libertação dos povos, ficamos com a impressão de que, afinal, a ditadura iraniana não foi derrotada ou que, a haver derrota, isso não significa que nasça daí um regime democrático e que a compreensível alegria que muitos sentem seja, muito provavelmente, ilusória.
No mundo simplista do comentário televisivo, equivalente mediático das conversas de café ou das redes sociais, criticar os bombardeamentos sobre o Irão é o mesmo que defender o regime iraniano, tal como criticar o governo israelita é equivalente a ser anti-semita. É o mundo em que se antecipa uma festa da democratização de um país, como se fosse possível alterar à bomba o percurso histórico de um território com mais de 90 milhões de habitantes.
A solução será ficar parado diante da opressão a que são sujeitos os seres humanos de outros países? Com certeza que não, mas convém pensar nisso a sério, para que não nos admiremos, por exemplo, com a radicalização religiosa, militar e política provocada também pelos americanos, que andam, sob a capa das boas intenções, a cometer crimes vários desde os anos 40 do século passado, com a agravante de que os países cúmplices desses crimes serão também atingidos, sendo que as respostas a crimes são, frequentemente, outros crimes, numa perpetuação letal da luta para se saber se primeiro veio o ovo ou a galinha.








Não percebo o problema de defender, criticamente, um “regime” que sempre foi anti-imperialista e esteve na frente, por muito que cinicamente, contra o genocídio na Palestina ocupada, como também no Iémen, a ocupações e tentativas do mesmo no Líbano, lutou contra o ISIS e Al-Qaeda enquanto outros fizeram que “trouxessem a paz” à Síria, nas palavras de António Costa quando enquanto havia mais um massacrezito, mas que também elevou a esperança de vida 58 para 78 anos e a percentagem de mulheres no ensino superior para 57%, e os pedófilos não chegam a presidente. Muito menos de quem nada tem a dizer sobre o retrocesso dos direitos das mulheres, à liberdade de expressão sobre factos inconvenientes, ou sobre a censura e violência sobre quem não gosta do novo holocausto.
Ou se calhar percebo, olhando para o lugar na hierarquia mundial dos vizinhos, em que nada sobra para quem trabalha, e para os recursos gastos em convencer-nos à décadas que são uma ameaça ao mundo.
Cuidado que mais depressa caem os amigos do Bahrain ou Emirados, e ainda acabam no Iraque outra vez, onde o daddy quer também cancelar o resultado.
Que seja, portanto, o fim da fatwa anti-nuclear.
E quando levarem com uma bomba atómica, porque os dois criminosos precisam de uma vitória e do fim do mundo, também vão festejar?
Não há nada de que nos alegrarmos se o fim da ditadura custar mais vidas do que a ditadura custou devido a bombardeamentos selvagens que atingem ate escolas e hospitais.
Não há nada de que celebrar se esta ditadura for substituída por outra que volte a lançar o país no obscurantismo da ignorância, da miséria e da fome, que era isso que a ditadura derrubada em 1979 era.
E o que se quer e fazer o povo voltar a uma monarquia sob o comando de um sujeito que já provou ser, tal como o pai, muito pouco certo em contas de cabeça.
Ditadura nenhuma justifica um ataque cruel e cobarde como o Irão sofreu.
A esse preço também Portugal teria sido bombardeado.
O que se quer para o Irão não e democracia, e submissão e crueldade. O regresso da Savak, perto da qual a nossa PIDE era um grupo de escoteiros.
Por isso a nossa solidariedade tem de estar com o actual governo do Irão por muito que nos acusem de apoiar ditaduras.
Antes apoiar ditaduras que apoiar assassinos supremacistas e pedófilos.
Vão ver se o mar da Kraken.
A esquerda não falou de direito internacional quando a Ucrânia foi invadida…
A esquerda teve dúvidas sobre a veracidade das mortes resultantes do massacre em Bucha…
Pois não sabíamos…
Que a esquerda tem andado lá pela sua casa. Deve estar a dar um despesão, mas compensa… confessam tudo em troca de uns assados e uns copos de vinho!
Porque é que a parte da esquerda que não nasceu ontem ia aceitar a narrativa de criminosos de guerra, violadores de tratados, e mentirosos compulsivos, cuja principal preocupação foi (e é) banir o que era verdade até poucos meses antes disso?
No meu caso nunca tive dúvidas sobre quem foi que realmente causou todos aqueles cadáveres fresquinhos quatro dias depois de os russos de lá terem saído. Os mesmos que em 12 anos mataram 14 mil civis no Leste da Ucrânia.
Já vocês só se lembraram do direito internacional quando os russos caíram em cima de quem estava a bombardear Lugansk e Donetsk forte e feio e tinha 200 mil cães nazis as portas daqueles territórios.
Porque nunca quiseram saber de tal coisa na Síria, Líbia, Iraque, Somalia, em todas as guerras e agressões ianques.
Como agora já tivemos a orca da Ferra Aveia a dizer a propósito do Irão, que se lixe o direito internacional.
Por isso também eu posso dizer que se lixe a vossa preocupação com os direitos das mulheres do Irão.
Se calhar foi por essa preocupação que mataram mais de 100 numa escola feminina. Foi de certo por honsse, para as livrar do fardo da existência sob uma ditadura.
Vão ver se o mar da Kraken.