Rosa, 30 anos, em fuga

Vamos chamar-lhe Rosa. O resto da história, garanto-vos, é verdadeiro, mas o nome, já sabem, é falso. A Rosa fez 30 anos há meses, não completou a escolaridade obrigatória e viveu toda a vida num bairro social do Porto. Os pais até teriam desejado que ela estudasse, eles que não foram além da quarta classe, mas a Rosa nunca gostou da escola e eles não acharam que valesse a pena insistir. No bairro, de resto, os miúdos vão-se dividindo entre os que “dão” e os que “não dão” para a escola e a Rosa rapidamente se escondeu no segundo grupo e ali ficou à espera de ter a idade mínima para ir trabalhar. Mas quando a idade chegou, já a Rosa, a quem os pais só muito vagamente falaram de contracepção, esperava o primeiro filho. Vieram outros três e assim chegou a Rosa aos 30 anos sem formação escolar, sem experiência profissional que não a de umas limpezas ocasionais, e com quatro filhos a seu cargo, já que a relação com o pai das crianças terminou e ele desapareceu de cena.

Com os pais doentes e sem nenhum tipo de apoio familiar, a Rosa e os filhos vão sobrevivendo com o apoio do RSI e com as tais limpezas, que não são certas nem sempre compagináveis com quatro filhos pequenos. Mas a certa altura, a Rosa pede dinheiro emprestado. Neste escalão social, a ideia de recorrer à banca para conseguir um empréstimo é tão absurda que só pode dar vontade de rir. Não, a Rosa pede dinheiro a um agiota, um dos muitos que oferecem os seus serviços nos meios sociais mais castigados. E aqui a taxa de juro é a que eles quiserem: 10%, 25%, 50%, até 100%. Depende do desespero de quem pede, da ganância de quem empresta, da concorrência entre agiotas. Se apanhados jurarão em tribunal, como eu mesma já ouvi em certa audiência, que não faziam ideia de que cobrar juros é crime. [Read more…]