Autopsicografia de um homem de esquerda

João Valentim André

A pergunta ressoa no mais fundo do corpo ético do homem de esquerda: “como posso eu aceitar, sem forçar todo o meu ser à dissolução, que a sociedade de que participo condene mil homens à pobreza para que possa criar um que seja rico?”

A pergunta é labiríntica. A resposta reside no seu centro mental, um ponto cósmico, guardada por um temível animal mítico. Mas uma vez chegado a esse centro, não tem, o homem de esquerda, como evitar o confronto. E ele dá-se precisamente no lugar do eixo, no axis mundi, na base da árvore da vida pela qual se ascende à resposta.

Para que o mistério não viesse a ser simplesmente um maneirismo literário, o demiurgo achou por bem fazer depender a vitória sobre a besta mítica da resposta a uma outra pergunta: desses mil homens condenados à pobreza, quantos não sacrificariam outros cem mil ao mesmo mísero destino para que a fortuna lhes sorrisse a eles?

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Sucesso escolar, pólvora, fogo, roda

Há alguns dias, o Ministério da Educação voltou a descobrir o fogo, a inventar a pólvora e a criar a roda ou vice-versa. Graças a um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas, conclui-se aquilo que já se sabe há muito tempo sobre os factores que influenciam o sucesso escolar: “o contexto socioeconómico continua a ser determinante.” Relativamente a um estudo anterior, relativo ao terceiro ciclo, já o ministério tinha reconhecido o mesmo.

É certo que, nos últimos anos, a mesma entidade, com outros ministros, tem tentado refutar a realidade. Nos finais do consulado socrático, chegou a publicar-se uma espécie de estudo cujas conclusões chocavam de frente com a realidade: com a coordenação de Cláudia Sarrico, afirmava-se que o sucesso dos alunos dependia pouco dos pais, ou seja, que o contexto socioeconómico era factor de pouca importância. Aqui pelo Aventar, o tema foi abordado várias vezes, não sendo difícil, na rede global, descobrir gente que trata o assunto com seriedade.

Com a chegada de Passos Coelho, Nuno Crato, aludindo à existência de estudos com títulos desconhecidos (técnica muito utilizada pelos políticos), insistiu na ideia de que os problemas dos alunos seriam resolvidos desde que os professores fossem bons. Logicamente, o insucesso dos alunos seria sempre da responsabilidade dos professores. Estas afirmações e outras tornaram fácil tomar medidas como, por exemplo, a de aumentar o número de alunos por turma: se a qualidade do professor fosse um factor determinante, a quantidade de alunos dentro da sala perderia importância.

A (re)descoberta da importância do contexto socioeconómico deveria obrigar qualquer governo a perceber que o sucesso escolar é uma questão social que não pode ser resolvida apenas pela escola. A esperança de que esta redescoberta tenha efeitos nas políticas, no entanto, é ténue, porque o que é preciso é evitar reprovações a qualquer preço, sem, na realidade, se perder tempo a pensar nos problemas sociais e educativos. O que vale é que, qualquer dia, volta um ministro que desvalorizará a importância do meio socioeconómico a quem sucederá um outro de sinal contrário, de adiamento em adiamento até à indecisão contínua.

Sim, é mesmo verdade: 25% dos portugueses estão em risco de pobreza ou exclusão social

Depois de um glorioso fim-de-semana de Fado, Fátima e Futebol, eis-nos de regresso ao mundo real. E no mundo real, nesta bela pátria à beira-mar plantada, solarenga e forrada a turistas estrangeiros a passear nos tradicionalíssimos tuk-tuks, existem 2,6 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social. Um número que não pode ser ignorado e que põe a nu, de forma inequívoca, o fosso profundo que divide a sociedade portuguesa. [Read more…]

Um banho de realidade

Temos novos santos, temos velhos santos e até heróis verdadeiros. Somos imensamente bons, vivemos num país belíssimo, seguro o bastante (até ver) e, numa escala apreciável, materialmente (estou a ser benévolo) indigente.

Efectivamente, de acordo com os últimos dados do INE, mais de 25% da população residente em Portugal no ano de 2016 – cerca de 2,6 milhões de pessoas – estava em risco de pobreza ou de exclusão social.

Para a aferição deste risco definiu-se, no âmbito da estratégia económica de crescimento (estratégia Europa 2020), um indicador relativo à população em risco de pobreza ou exclusão social que conjuga os conceitos de risco de pobreza relativa – pessoas com rendimentos anuais por adulto inferior ao limiar de pobreza – e de privação material severa, com o conceito de intensidade laboral per capita muito reduzida.

Considera-se no limiar da pobreza o cidadão europeu que não obtenha 60% do rendimento médio por adulto equivalente no seu país, correspondendo a proporção dos que não atingem esse limiar à taxa de risco de pobreza.

Sem querer retomar agora a discussão sobre se é legítimo padronizar desta forma a pobreza, introduzindo uma medida da qualidade de vida das pessoas que não leva em devida conta o custo de vida de cada país – uma vez que o rendimento médio pode, como sucede em Portugal, indiciar já a carência dos recursos financeiros necessários para assegurar aquela qualidade de vida, visto ser muito inferior ao rendimento médio, não dos países mais ricos da Europa, mas da média dos países da UE a 28 -, o facto é que mesmo os dados assim obtidos são de tal modo graves e socialmente insuportáveis que não podem deixar de requerer uma permanente e consequente mobilização política e social contra a pobreza.

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A economia da pobreza

greed

Segundo o mais recente relatório da Oxfam, as oito pessoas mais ricas do mundo possuem uma riqueza combinada superior aos 3,6 mil milhões de terráqueos mais pobres. Metade da população mundial. Este facto, por si só, seria motivo de vergonha para a humanidade, não fosse ela tão passiva para com as graves desigualdades que continuam a aumentar o profundo fosso entre ricos e pobres. Perdão: entre multimilionários e desgraçados.

A situação é de tal forma grave, que, há um ano atrás, seria necessário juntar os 62 mais ricos para perfazer a mesma quantia que a metade mais pobre do mundo possui. E isto diz-nos muito sobre os efeitos das sucessivas crises nas carteiras de quem governa o planeta. Recorrendo a um dos clichés mais realistas que existem, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. [Read more…]

Pobre país, pobre Porto

Um país mais pobre, uma cidade mais desigual.

Fezes de Coelho não chegam ao céu

besouro

Todos recorremos a mecanismos de negação para lidar com situações especialmente perturbadoras, é uma forma de defesa e pode preparar a consciência para o rebate. Eu uso a desvalorização para não soçobrar à realidade. Morreram 200 mas salvaram-se 500. E há dezenas de reconfortantes maneiras de chupar um seixo… Agora, insistir nas virtualidades da austeridade para a recuperação económica de um país e na eficácia dos seus resultados tendo à frente o resumo do estudo coordenado por Carlos Farinha Rodrigues, intitulado “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal – As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento”, já não pode ser negação, é perversão sexual. Saborear o produto defecado e insistir em servi-lo aos outros como uma iguaria não é senão uma forma de sado-masoquismo coprofágico.

São conhecidas as primeiras conclusões do documento: o “processo de ajustamento” teve profundas consequências na distribuição de rendimentos em Portugal. Entre 2009 e 2014, os 10% mais ricos sofreram uma quebra de 13% no seu rendimento enquanto os 10% mais pobres tiveram uma quebra de 25%, o que agravou o fosso entre ambos os extremos, ou seja, a desigualdade social.

É que, na verdade, como se refere no dito estudo, a forma como os custos do “processo de ajustamento” foram repartidos entre a população portuguesa constitui um elemento essencial para a caracterização das políticas seguidas neste período. O desemprego delas resultante tornou irrelevantes os paliativos fiscais para os rendimentos do trabalho mais baixos. E, citando, o recuo das políticas sociais (no Rendimento Social de Inserção, no Complemento Solidário para Idosos e no Abono de Família), tanto na sua abrangência como nos montantes atribuídos, alterou significativa e decisivamente as condições de vida das famílias mais pobres.

Ou seja, o discurso oficial da justiça distributiva da penalização dos rendimentos revela-se uma treta absoluta em todo o seu esplendor.

A pobreza disparou, mais cerca de 143.500 pobres – eram, em 2014, números corrigidos, 2,5 milhões de pobres, quase ¼ da população -, como cresceu a intensidade da pobreza e em números que rondam os 30%, atingindo este indicador o valor mais alto desde que há registos desta natureza (2002). O estudo não leva sequer em conta a situação dos 500.000 portugueses que tiveram de fugir de toda esta carnificina programada.

Foi assim, enojado e enjoado, que ouvi ontem o debate parlamentar. Que a política se pode tornar num alucinado exercício de retórica… Mas isto, em bom inglês, já é tomates.