Um homem das mulheres

Perdi durante anos o contacto com a ovelha negra da minha família, o mais ruinoso, boémio, mal comportado, sacana de tio que nos pode tocar em sorte, e apesar – ou por causa – disso, o favorito de qualquer sobrinha.

Voltei a falar com ele há pouco e encontrei um desses conquistadores arruinados pelo tempo e pela vida vagabunda mas que continua a sentir-se, e a ser, irresistível. Há muitos anos era um campeão da má vida, um gabarolas que ganhava todas as rixas de bares, até aquela em que lhe cortaram um tendão com um gargalo de garrafa, o que o deixou com um dedo mendinho perpetuamente espetado, sinal de elegância que pode condizer com a chávena de chá mas não com o copo de vinho tinto que ele costumava erguer. Se algum recém-chegado ao tasco tinha a infeliz ideia de fazer pouco do dedo espetado, acabava a noite nas urgências do Santo António. Acho que em alguns antros de má fama, o mendinho espetado ainda é recordado como uma lenda, como certas histórias de piratas. [Read more…]

Homens fatais

A Glória Colaço Martins e eu estamos numa minoria tão acentuada no Aventar que, não estivéssemos nós entre amigos, seria assustadora. Dezoito homens e duas mulheres! (Ricardo, já pensaste implementar um sistema de quotas?). Alego esta condição minoritária para justificar o que aí vem.

Porque hoje apetece-me escrever sobre homens. Ou melhor, sobre um grupo específico de homens, aqueles que sofrem dessa preguiça congénita que faz com que, na conquista amorosa, se entretenham, nos intervalos das relações mais significativas, com as mulheres que não lhes interessam verdadeiramente mas que estão disponíveis e próximas.

O mais temível de entre estes espécimenes é esse tipo de galã sedutor que baseia a conquista no seu encanto pessoal e não simplesmente num encontro de necessidades. Estes homens tendem a desejar mulheres que correspondam à imagem que eles têm de si mesmos: sedutoras, provocantes, perfeitas. Não se atreveriam a exibir outro tipo de mulher, não baixariam os seus padrões. Mas quando essas semi-deusas partem – e normalmente são elas a bater com a porta – não é no dia seguinte que aparece outra à sua altura. E é nesses momentos que o sedutor se torna pragmático.

A tímida colega de trabalho, a vizinha, a empregada do restaurante, a amiga da amiga… em cada uma vai descobrindo alguma qualidade que possa vir a motivar um interesse que, estando condenado à nascença, não precisa de ser muito nutrido. Por razões que encontram sempre uma justificação em que elas aceitam acreditar, a relação, não sendo clandestina, também nunca será assumida.

Elas costumam ser inseguras. Porque não se sentem tão capazes como as outras, ou tão inteligentes, ou tão bonitas, ou tão magras, ou tão curvilíneas… Vêm de relações de desamor, ou estão há muito sozinhas. E o interesse desse sedutor que, a princípio, lhes parece inverosímil, transforma-se em pouco tempo num veneno. Inebriante, intoxicante, delicioso, fatal. Porque cada hora com ele agudiza a percepção do vazio que ficará depois. Porque nenhum sacrifício, por mais dilacerante, bastará para que elas se sintam à altura dele. Porque o que lhes restará quando tudo acabar será a tentativa de despertar os ciúmes que sabem que ele nunca poderá sentir.

Quando uma nova sedutora aparecer em cena, para elas restará um almoço de despedida, ou talvez só um café, e cairão depois nos braços das amigas que, mordidas pela inveja, não podem deixar de soltar um “eu bem te dizia” que arde como limão nas feridas… E tudo isto, imaginem, a propósito de alguém a quem acabo de ver um olhar tão triste.