Pastilha elástica:

“Estamos a tomar o pequeno-almoço ao sol e de súbito o torso que antes víramos denso e liso antecipa a decadência da carne velha: urgem umas visitas à pedicura, o hálito ressuma ao jantar de ontem”, Fernanda Câncio, Notícias Magazine.

Segundo a revista Sábado, a Fernanda Câncio escreveu isto na NM sobre o fim de uma relação amorosa. A Sábado vai mais longe e numa espécie de puxão de orelhas escreve: “Fernanda Câncio não diz se está a falar de Sócrates, mas sabe que toda a gente está a pensar que sim”.

A bisbilhotice é um desporto nacional antigo a que muitos se dedicam com afinco. Recordo-me que nessa altura, julgo que no Aventar, escrevi que achava uma pulhice as notícias(????) publicadas sobre essa matéria e uma invasão de privacidade. Por ser a f. ou o Primeiro-ministro da altura? Não, por ser, nesse caso como noutros, uma invasão de privacidade. Ponto.

Por sinal, não li o artigo de opinião em causa. Não costumo ler a Notícias Magazine. Por isso vou arriscar, confesso, comentar aquele parágrafo sem conhecer o seu contexto e partindo de um pressuposto, arrisco, simples: a autora não está a falar de si. Pura ficção, portanto.

Então, o que me leva a escrever sobre isso? O que me fez olhar para aquele parágrafo e gelar? Simples, o que ele representa sobre as relações actuais. [Read more…]

Queixume

Haverá conversa mais desoladora do que aquela em que alguém a quem muito estimamos, mas com quem a relação é pautada ainda por um cortês distanciamento, nos pergunta, em tom distraído, o mesmo que nos havia perguntado dias antes e a que havíamos respondido com ingénuo entusiasmo?

“Ah, sim, já me tinha dito”, responderá, por fim, quando lhe repetimos, sem conseguir disfarçar o desencanto, os factos que havíamos já descrito. E mordendo o canto do lábio, como fazem as crianças que já têm vergonha de amuar, nos afastaremos com grande dignidade e o coração ressentido. [Read more…]

Homens fatais

A Glória Colaço Martins e eu estamos numa minoria tão acentuada no Aventar que, não estivéssemos nós entre amigos, seria assustadora. Dezoito homens e duas mulheres! (Ricardo, já pensaste implementar um sistema de quotas?). Alego esta condição minoritária para justificar o que aí vem.

Porque hoje apetece-me escrever sobre homens. Ou melhor, sobre um grupo específico de homens, aqueles que sofrem dessa preguiça congénita que faz com que, na conquista amorosa, se entretenham, nos intervalos das relações mais significativas, com as mulheres que não lhes interessam verdadeiramente mas que estão disponíveis e próximas.

O mais temível de entre estes espécimenes é esse tipo de galã sedutor que baseia a conquista no seu encanto pessoal e não simplesmente num encontro de necessidades. Estes homens tendem a desejar mulheres que correspondam à imagem que eles têm de si mesmos: sedutoras, provocantes, perfeitas. Não se atreveriam a exibir outro tipo de mulher, não baixariam os seus padrões. Mas quando essas semi-deusas partem – e normalmente são elas a bater com a porta – não é no dia seguinte que aparece outra à sua altura. E é nesses momentos que o sedutor se torna pragmático.

A tímida colega de trabalho, a vizinha, a empregada do restaurante, a amiga da amiga… em cada uma vai descobrindo alguma qualidade que possa vir a motivar um interesse que, estando condenado à nascença, não precisa de ser muito nutrido. Por razões que encontram sempre uma justificação em que elas aceitam acreditar, a relação, não sendo clandestina, também nunca será assumida.

Elas costumam ser inseguras. Porque não se sentem tão capazes como as outras, ou tão inteligentes, ou tão bonitas, ou tão magras, ou tão curvilíneas… Vêm de relações de desamor, ou estão há muito sozinhas. E o interesse desse sedutor que, a princípio, lhes parece inverosímil, transforma-se em pouco tempo num veneno. Inebriante, intoxicante, delicioso, fatal. Porque cada hora com ele agudiza a percepção do vazio que ficará depois. Porque nenhum sacrifício, por mais dilacerante, bastará para que elas se sintam à altura dele. Porque o que lhes restará quando tudo acabar será a tentativa de despertar os ciúmes que sabem que ele nunca poderá sentir.

Quando uma nova sedutora aparecer em cena, para elas restará um almoço de despedida, ou talvez só um café, e cairão depois nos braços das amigas que, mordidas pela inveja, não podem deixar de soltar um “eu bem te dizia” que arde como limão nas feridas… E tudo isto, imaginem, a propósito de alguém a quem acabo de ver um olhar tão triste.