Um homem das mulheres

Perdi durante anos o contacto com a ovelha negra da minha família, o mais ruinoso, boémio, mal comportado, sacana de tio que nos pode tocar em sorte, e apesar – ou por causa – disso, o favorito de qualquer sobrinha.

Voltei a falar com ele há pouco e encontrei um desses conquistadores arruinados pelo tempo e pela vida vagabunda mas que continua a sentir-se, e a ser, irresistível. Há muitos anos era um campeão da má vida, um gabarolas que ganhava todas as rixas de bares, até aquela em que lhe cortaram um tendão com um gargalo de garrafa, o que o deixou com um dedo mendinho perpetuamente espetado, sinal de elegância que pode condizer com a chávena de chá mas não com o copo de vinho tinto que ele costumava erguer. Se algum recém-chegado ao tasco tinha a infeliz ideia de fazer pouco do dedo espetado, acabava a noite nas urgências do Santo António. Acho que em alguns antros de má fama, o mendinho espetado ainda é recordado como uma lenda, como certas histórias de piratas. [Read more…]