Foi no princípio da década de 60. Era noite de Santo António e estávamos em Alfama. O grupo residia no Bairro Santos para poder frequentar a universidade mas tratava aquelas vielas por tu. Todas as sextas-feiras, como quem cumpre uma promessa, abancava na Guitarra de Alfama, uma tasca de fado vadio por onde, em noites de grande sorte, passava João Ferreira-Rosa, Teresa Tarouca e um actor de teatro que juntava à sua bela figura uma voz estupenda, o Francisco José Teixeira. Artistas fixas da casa eram a Cesária, a cigana, e a Júlia, que era vendedeira e à noite, por não ter com quem deixar o filho, deitava o bebé numa canastra que todos nós embalávamos enternecidos. Parece que deu resultado porque, muitos anos depois, numa noite em que fui dar dois dedos de conversa com a Celeste Rodrigues à Viela, ali encontrei o rapagão em cozinheiro a acompanhar no pão de cada dia a sua orgulhosa mãe. O dono da tasca era o Alexandre que, de guitarra em punho, cantava de cabeça à banda fados espirituais e finíssimos como se pode ver pela amostra: “Fui enganado por três / Com promessas como as tuas / Vais lá para casa um mês / Se eu me der bem continuas”. Acontecia de tudo naquele lugar. Até aconteceu o Zé Tamagnini aparecer-nos com um saco de bacalhau demolhado a pedir a cozinha emprestada para ali fazer um Bacalhau à La Goyera de que o pai, o saudoso cirurgião Augusto Tamagnini, lhe tinha dado a receita. A enchente foi tal , a rebaldaria tão tamanha, que o petisco se ficou pelas mesas próximas da cozinha, onde o Zé pontificava com um grupo de ajudantes organizado pela Solveig Hansen, que era hospedeira de terra duma companhia de aviação americana. Não tenho opinião sobre o cozinhado porque não o vi nem ao menos o cheirei. Mas nunca duvidei dos dotes culinários do Zé. Realmente, ali acontecia tudo. Uma noite até apareceu uma senhora chiquíssima, acompanhada de uns meninos da Linha, que pediu ao Alexandre para apagar as luzes todas porque só gostava de cantar à escuras. O tasqueiro andou de mesa em mesa a transmitir o recado e a pedir obediência. Foi no meio duma completa treva que a senhora deitou aos ares o seu fio de voz. E nós, mudos como penedos. Mas logo havia o Luís Artur, que era meu colega na faculdade, de se lembrar de dizer em tom de pânico: “Oh Júlia, dá o biberon ao menino a ver se ele se cala”. Foi ali o ensaio geral do Dia de Juízo. [Read more…]
Carta do Canadá: Uma memória
27/07/2015 by fleitao
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