A receita da Fernanda

MRPP - O que é?

Há uns anos, em 2013, a Fernanda ia ser operada e receou já não acordar da anestesia. Por isso, preparou-se devidamente, escrevendo noite fora um dos seus textos mais pessoais, sobre Natália Correia e sobre mais uma catrefada de gente que viveu os loucos tempos do PREC.

A primeira vez que vi Natália Correia foi nos idos de 1959/60, pela mão de Vasco Lima Couto, poeta e actor que morreu novo. Foi num sarau literário num antigo clube perto do Rossio. Eu era então estudante universitária e os meus olhos deliciaram-se a conhecer outro poetas, outros escritores, que, viciada em leitura desde muito cedo, eu tinha lido. Não fui apresentada a ninguém, não tinha estatuto para isso, mas ainda assim fui brindada com uma briga homérica entre Lima Couto e Natália Correia que, incomodada com a irreverência do jovem do Porto, desfaleceu nos braços de Pedro Homem de Melo. Fiquei pregada ao chão. [Premonições, Fernanda Leitão]

Foi o João José Cardoso que nos deu a notícia.
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Fernanda Leitão (1936-2017)

Fernanda LeitãoOs templários não morrem. Afastam-se.

Na passada quarta-feira,  no Hospital Toronto Western, a Fernanda afastou-se em paz, depois de 80 anos ricos de vida. Escrevia-nos as suas cartas e bilhetes do Canadá, com a sabedoria de quem passou por tanto e no seu jeito de quem está de bem com a vida. Foi jornalista e lutou contra a ditadura, antes e depois da revolução, primeiro na France Press, depois no jornal O Templário, do qual foi proprietária até ir para o Canadá. Pessoas como a Fernanda deixam verdadeiros vazios quando se vão. Descanse, Fernanda, teve uma vida admirável.

Deixamos-vos as crónicas da Fernanda no Aventar, que estão aqui, e o auto-retrato que nos ofereceu, pintado com as cores nas quais ela era mestra, as da Língua Portuguesa.

Nasci em Malanje, no Nordeste de Angola, numa família de classe média chefiada por um funcionário público. No início da década de 50 o meu pai reformou-se. Fomos viver em Tomar, onde havia o Colégio de Nun’Alvares, com perto de mil alunos, quase todos internos, muitos das colónias, um batalhão do Alentejo e Ribatejo. O director era o Dr. Raul Lopes, que ficou na lenda coimbrã como o Raul das Troupes. Governava um bocado à chapada, era ditador, mas ao mesmo tempo havia um ar de rebalderia naquela malta toda. Eu teria preferido outro colégio, mas na verdade ali fiz amigos para a vida. Os rapazes do meu tempo cantavam fado e pegavam toiros. Ficavam ofendidos se alguém lhes oferecia leite ou iogurte. Todos de barba rija, como manda o figurino.

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Bilhete do Canadá – O que eles dizem

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ANTÓNIO BARRETO: “O mais impressionante é como tanta gente se acovarda hoje”.  Grande exemplo de valentia e coerência dá esta pantera que se esconde atrás do merceeiro que, por sua vez, se esconde atrás duma fundação. Haja dinheiro e paraísos holandeses.

MOURINHO FÉLIX: “O deputado Leitão Amaro  ou tem um profundo desconhecimento do RGIC (Regulamento Geral das Instituições de Crédito) ou uma disfuncionalidade cognitiva temporária”.  Tanto floreado para dizer uma coisa que o país inteiro sabe: aquele deputado sustentado pelo dinheiro do povo, ou é um ignorante ou tem surtos de estupidez.

NUNO MAGALHÃES: “Se o CDS acreditasse em sondagens não estávamos aqui há muitos anos”.  Não é um problema de crença, deputado que sustentamos, é uma questão de descaramento e falta de coluna vertebral. Toda a gente sabe, e os membros do CDS melhor do que ninguém, que esse partido é uma sopa de restos do salazarismo que outros partidos, por falta de coragem, aceitam como capacho quando é preciso fazer mais votos.

JOÃO AMARAL: gritou contra a “esquerda envergonhada”.  Pois devia estar caladinho porque, para o país não se estatelar graças à direita desavergonhada, tem a esquerda que fazer alguns fretes.

Bilhete do Canadá – Ganda Rebaldaria

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Ivanka Trump, que faz gala em exibir-se ao bom estilo da boazona pirosa, deu uma entrevista ao programa 60 Minutos, da CBS, e deixou perplexos os entrevistadores que se perguntam, agora, que jogo escondido tem a rapariga e o marido. Afirmou e reafirmou, com a maior candura, que o papá a convidou a fazer parte da sua equipa governamental… mas sem pasta. Vai lá estar, diz ela, apenas como filha. Todos estão desconfiados que vai ser, de facto, a primeira dama. De resto, Trump pai opinou a rebentar de orgulho: “A Ivanka é realmente uma beleza. Se não fosse minha filha, era minha namorada”. É de cavalheiro. God bless you America.
Durante toda a entrevista, Ivanka agitou o braço onde exibia uma espampanante pulseira de ouro. No dia seguinte, os responsáveis pelo programa foram abordados por um vendedor da ourivesaria de que a dama é cliente para sugerir que publicitassem a pulseira, posta à venda por cerca de 11 mil dólares, uma pechincha, desde que fosse adquirida através do website de Ivanka. É o que se chama ir com sede ao pote.
Entretanto, Obama e McCain prometem refilar, alto e bom som, quando surgirem anomalias trumpescas. Coitados, vão ser uns mouros de trabalho diário em full time.

Bilhete do Canadá – O que eles dizem

aventar news

PASSOS COELHO (a propósito da CGD) acusa governo de despudor, indignidade e total falta de ética. Esqueceu-se do imenso pudor com que se conduziu na Tecnoforma, na falta de pagamento de impostos por anos e na promoção escandalosa de Miguel Relvas. Anda tão esquecido que parece ter Alzheimer. Coitado, tão novo.

CRISTAS diz que “primeiro ministro não se pode esconder mais atrás de ministros e secretários de estado”. A rapariga anda a precisar de óculos. Quem se esconde, e atrás dela que tem farta saia, é o Portas caixeiro viajante pago ao quilómetro, o tal que diz que a ideologia mata os negócios. O Costa, com aquela largura toda, não tem onde se esconda. [Read more…]

Carta do Canadá – O Albertino

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Naquele tempo o Ti Xico Porto era o tesoureiro do Comando Geral da PSP, na Avenida António Augusto de Aguiar, e uma vez por semana eu ia almoçar com ele. Geralmente à sexta-feira e a seguir ao almoço íamos para Tomar gozar o fim-de-semana. Eram almoços reinadios, na messe, e tomávamos café um pouco acima, na mesma rua, mesmo em frente a um chalet arte nova, na esquina da Luís Bívar, se bem recordo, que exibia uma placa explicando que ali tinha vivido António José de Almeida, grande figura da 1ª República. Volta e meia aparecia o Albertino,   construtor civil feito a poder de baldes de cimento desde os 12 anos, porque o país era o que era e a vida é o que é. Gostava muito do Ti Xico e vinha quase sempre só para o ver  e se regalar no café com os amigos dele. Todos achavam piada ao Albertino e puxavam por ele, que era um meia leca magrote, esturricado, olhinhos matreiros de rato. E muito rico. Podre de rico. Abria a boca e dizia coisas espantosas. Inesquecíveis. Sentenciava, por exemplo, que os alquitetos mandam mais que os inginheiros.  Devia saber disso, porque era um gaioleiro desembaraçado que cirandava pela câmara e pelas ruas de Lisboa a impingir projectos, a fazer e vender casas. Tinha ideias claras. Os pretos, dizia, era para estarem em África e porrada neles que eram uma cambada de malandros. Uma ocasião, naquele café manhoso da Avenida Conde Valbom, que era o quartel-general dos empreiteiros, leu num jornal que a Inglaterra se propunha legalizar as uniões de homossexuais  e não esteve com modas: meteu-se num avião  para Londres,  onde o filho estudava, e obrigou-o a regressar a casa sob pena de o pôr fora de casa se não obedecesse.  Sobre mulheres, era definitivo: quando inquirido de qual discurso tinha gostado mais nas festas regionais, nem pestanejava ao declarar que “dos discursos o que eu gostei mais foi das pernas das gajas”, que ele observava palitando os dentes enquanto os oradores  palravam. [Read more…]

Bilhete do Canadá – Olha quem ele é

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O PSD, pela voz tronitruante de Carlos Abreu Amorim, pediu explicações sobre o novo cargo da ministra da Justiça como juíza do Supremo. Serena e educada, Francisca van Dunem explicou a situação. O paquidérmico Amorim deve andar a encher-se de vento com o trampismo americano.  Nada racista, como se sabe. A fazer pendant com o passado extrema direita do deputado.

Em contraponto, está o chefe do partido, o Passos Coelho: sempre azedo, sempre casmurro, sempre de trombas, a tartamudear desgraças que aí vêm, a pôr defeitos a tudo. Não há pachorra para aturar estes mecos.