O pior do Crato

Só quem andar muito distraído – e Portugal é um país essencialmente distraído – é que pode negar o péssimo estado da Educação em Portugal. Não se pode negar, evidentemente, que houve avanços assinaláveis, se olharmos para a herança do Estado Novo, que nos deixou um país analfabeto e ignorante, com os cofres cheios de dinheiro. A democracia trouxe a massificação do acesso à escola. Ainda não trouxe a qualidade legitimamente esperada.

Nos últimos 37 anos, a Educação não tem sido uma prioridade dos cidadãos e, portanto, não foi uma prioridade dos governantes, a quem tem bastado distribuir uns subsídios europeus e inaugurar umas obras para irem alternando confortavelmente no poder. Pelo meio, a Educação tem sido um adorno, um campo para experiências, sempre em prejuízo dos alunos.

Nuno Crato, ao longo dos últimos anos, produziu um discurso interessante, mesmo se demasiado conservador, sobre Educação, pondo em evidência muitos dos erros cometidos, como a falta de rigor, o excesso do lúdico ou a preponderância da pedagogia sobre os conteúdos. Como ministro, seria lógico que tentasse uma viragem, usando de um discurso que iniciasse uma alteração de paradigma acerca de todos os intervenientes no processo altamente complexo que é a Educação, chamando a atenção para valores como a responsabilidade dos encarregados de educação, a aprendizagem como esforço, a escola como comunidade, a revalorização de todos os funcionários que trabalham nas escolas, sempre partindo do princípio de que vivemos, ainda, uma situação de subdesenvolvimento educacional, pelo que há ainda muito investimento por fazer, nomeadamente no que respeita aos recursos humanos necessários.

Em vez disso, o ministro da Educação dá uma entrevista ao Público em que se limita a falar de cortes, confessando que vão muito além do exigido pela troika e caindo no ridículo de insistir na ideia de que é possível fazer mais com menos. Hilariante, como é costume, Ramiro Marques limita-se a realçar a ideia de que os professores dos quadros não serão despedidos. Para uma visão mais crítica – ou seja, com lugar à utilização do espírito crítico – da entrevista, leiam o que escrevem Paulo Guinote, Manuel António Pina e, evidentemente, o nosso Jorge Fliscorno.