Estranhas aventuras… pelos caminhos da devoção

Como a religião, e neste caso particular, a devoção, influencia as pessoas actualmente ou como a sociedade (uma parte dela, pelo menos) funciona na realidade.

O que levará as pessoas a acreditarem que alguém, que foi muito boa pessoa ao ponto de ser “santo”, mas que morreu há centenas de anos, consegue, na actualidade, interceder em favor dos terrenos, seja para milagrosamente salvar o filho da morte, salvar a Segurança Social da instabilidade financeira ou fazer com que o Benfica seja campeão?

Há uns anos atrás, fiz uma viagem até ao expoente máximo da devoção, Fátima, para tentar perceber melhor e in loco o fenómeno. Se calhar, por não ser católico, admito que vim como fui. Este fenómeno social permaneceu para mim como um mistério total, até que vi por acaso uma pequena entrevista a uma devota ao Senhor dos Aflitos.

Numa entrevista para um programa qualquer na televisão, uma senhora já nos seus 60 ou 70 anos explica para o intrigado jornalista o quanto ela acredita nas acções benéficas do Senhor dos Aflitos e como é fácil demonstrar que de facto ele age se assim lhe for pedido. O exemplo: uma comadre dessa mesma senhora contou-lhe que por causa de problemas de falta de dinheiro na Segurança Social, poderiam perder as reformas. Sim, as reformas!

“O quê? Como é que eu vou viver sem a minha reforma?” – responde a senhora com uma reacção mista de resignação e incredulidade.

 

Numa tentativa de solucionar um problema que pode ser real muito brevemente, a senhora recorre ao Senhor dos Aflitos, pedindo-lhe que a situação se resolva.

O principal motivo porque a tal senhora não deveria perder a reforma era o seguinte: com a perda da reforma, se ela não tiver dinheiro disponível, como o poderá doar para as obras do Senhor dos Aflitos?!? Se ela não tiver dinheiro, como lhe poderá oferecer flores?!? Aparentemente e perante este argumentos, o Senhor dos Aflitos interferiu mesmo, agiu e milagrosamente fez com que a simpática senhora não perdesse a reforma!

Isto faz-me concluir que a devoção é uma espécie de troca comercial ao nível espiritual: “eu dou o que te prometo SE tu me deres o que te peço”. “Ah, e faço-te publicidade!” É um compromisso negocial que se cumpre. Uma raridade hoje em dia.

Sendo assim, como é que é possível não gostar do Senhor dos Aflitos ou qualquer outro “santo” que cumpra o seu contrato?

Nos estranhos caminhos da devoção, o que conta é mesmo é ter uma excelente argumentação. Mas mais importante que a argumentação é… que funciona mesmo! Finalmente percebi.

“O Senhor dos Aflitos é bom para a gente” – senhora simpática que esteve quase a perder a suas reforma, não fosse a intervenção do Santo na estabilização financeira da Segurança Social e dos estranhos desígnios da devoção. Eu assino por baixo.

Volta e meia, as coisas correm-me mal e por isso preciso de “ajuda externa”. Como tal e já que trabalho na área gráfica com muita incidência na área da publicidade, vou-me tornar devoto da Santa Tecla e da Nossa Senhora dos Anúncios. Pode ser que ajude.