Carta do Canadá: Dá que pensar

Fernanda Leitão

O funeral de Eusébio, que a RTP-Internacional teve a feliz iniciativa de transmitir em directo para as comunidades de portugueses emigrados, deu que pensar a vários títulos.
Desde logo, porque mostrou, de forma clara, como os portugueses têm fome e sede de figuras públicas honestas e limpas, das que servem uma causa por amor à camisola e fidelidade ao país. Há muitos anos, quase cem, que os portugueses olham de lado, com desconfiança e ressentimento, a maioria das figuras públicas. Os povos precisam de figuras em que se revejam. Foi o caso com Eusébio: menino pobre que, com muito trabalho e sacrifício, com grande talento e bom carácter, com disciplina e bondade, foi um dos melhores futebolistas do mundo e o maior de Portugal. A emoção causada pela morte de Eusébio varreu o mundo de língua portuguesa, transbordou nas ruas de Lisboa e atingiu um pico dramático no cemitério: todos pareciam recusar enterrar o seu herói, todos o queriam por mais um tempo, mesmo debaixo de chuva torrencial. Um povo a reagir como um menino órfão e desamparado.
Se Eusébio deve ser, ou não, sepultado no Panteão Nacional, não sei pela simples razão de nunca ter sido explicado ao povo o que significa um panteão nacional, à luz do estado português. [Read more…]