O milagre e o incréu

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Tudo aconteceu na década de cinquenta, era eu um puto sem voto em nenhuma matéria, durante uma procissão em que a Sra. de Fátima (na sua versão de imagem peregrina) se deslocava, no seu andor (com a ajuda dos carregadores, bem entendido), pelas terras próximas de Fátima, numa itinerância que, veio a ver-se, era como que um ensaio para maiores viagens e aventuras por esse mundo.

A coisa passava-se em Torres Novas, nobilíssima terra de onde sou natural. E lá estava eu, acompanhando uma devota tia, senhora estimável, mas muito dada a converter todos os que a rodeavam. Naquele dia, era a minha vez, já que desde miúdo me mostrava algo renitente em seguir os apelos divinos.

Ora, ia a procissão passando solenemente entre as alas de fiéis – ou penduras inconscientes como eu – quando, de súbito, irrompe um homem visivelmente furioso que, sem temer a ira celeste, desatou a invectivar a imagem com sórdidas palavras – mas não tão sórdidas que pudessem por em risco a sua integridade física ali mesmo. “É um democrata, coitado – dizia, com um ar esclarecido, uma amiga da minha tia – a Senhora. já trata dele; não é a primeira vez que assisto a isto”. [Read more…]