O milagre e o incréu

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Tudo aconteceu na década de cinquenta, era eu um puto sem voto em nenhuma matéria, durante uma procissão em que a Sra. de Fátima (na sua versão de imagem peregrina) se deslocava, no seu andor (com a ajuda dos carregadores, bem entendido), pelas terras próximas de Fátima, numa itinerância que, veio a ver-se, era como que um ensaio para maiores viagens e aventuras por esse mundo.

A coisa passava-se em Torres Novas, nobilíssima terra de onde sou natural. E lá estava eu, acompanhando uma devota tia, senhora estimável, mas muito dada a converter todos os que a rodeavam. Naquele dia, era a minha vez, já que desde miúdo me mostrava algo renitente em seguir os apelos divinos.

Ora, ia a procissão passando solenemente entre as alas de fiéis – ou penduras inconscientes como eu – quando, de súbito, irrompe um homem visivelmente furioso que, sem temer a ira celeste, desatou a invectivar a imagem com sórdidas palavras – mas não tão sórdidas que pudessem por em risco a sua integridade física ali mesmo. “É um democrata, coitado – dizia, com um ar esclarecido, uma amiga da minha tia – a Senhora. já trata dele; não é a primeira vez que assisto a isto”.

Entretanto o homem continuava. Mas algo soava a falso. Parecia uma personagem das cenas de palco do Pai Tirano ou, pior, um actor do esforçado grupo de teatro do padre Búzio. Atrás de mim, um compadre ria entre dentes e esclarecia vizinho de que já conhecia o figurão de uma cena parecida ocorrida em Tomar. “ O gajo é pago para isto – garantia em surdina – milagre uma ova, já vais ver a cena; daqui a pouco dá em comunista”. E riam baixinho os dois. A minha tia e a amiga ouviram e ficaram abespinhadas.

Mas a verdade é que, logo a seguir, o dito estava feito: o homem proclamava a sua condição de comunista e inimigo da fé. “Um comunista – exclamou a amiga da tia, com um ar preocupado, mas conhecedor – assim vai ser mais difícil, mas nada é impossível à Senhora”! De repente, estando as imprecações do comunista no auge, este, como que atingido por um raio, ajoelhou e desatou a pedir perdão, desenrolando uma interminável contrição. Estava convertido.

“Milagre!”- gritava-se. “Eu não disse?”- gabou-se, com o seu ar esclarecido, a amiga da minha tia. Esta, olhando-me com amorosa mas austera severidade, chamou-me a atenção para a cena que acabáramos de presenciar e as lições que ela encerrava. Obediente e disponível para ser iluminado, perguntei cheio de interesse: “O que é um democrata? E um comunista?”.

O semblante da minha tia pareceu perder a cor. Mas não deixou de responder – levantando o sobrolho – que um democrata era uma pessoa que achava que o povo devia governar o país. Olhei em volta e, na altura, pareceu-me uma ideia bizarra. O povo que ali se via, estava num desatino. O padre tinha agarrado pelos ombros o convertido e abençoava-o repetidamente distribuindo, depois, bênçãos a todos os presentes. O povo, esse, gritava, rezava, enfim, uma confusão. Como podia, perguntava-me eu, na minha inocência, tal entidade governar um país? Talvez a desconfiança que adivinhava na minha tia tivesse alguma razão de ser. Porém, quanto à questão do que fosse um comunista, não tive sorte. “O teu pai que te explique. Palpita-me que ele sabe”- recomendou-me, num tom que me pareceu de fraternal censura.
Chegado a casa, não perdi tempo a contar o que tinha visto e a fazer as perguntas que me inquietavam: “Afinal o que era um democrata e um comunista?”. Observei, surpreendido, que a minha Mãe e o meu Pai não reagiram, de início, com a solenidade que, pensava eu, o assunto impunha. Pelo contrário, pareceu-me vislumbrar um esforço para conter sorrisos que, na minha presunção infantil, se me afiguravam algo despropositados. Mas recebi uma muito mais desenvolvida explicação de que era um democrata, dada com um suspeito entusiasmo que parecia justificar o tom sibilino usado pela minha tia. No final, estava satisfeito e orgulhoso de merecer essa partilha de ideias, vendo mais uma vez confirmada a ideia de que os meus Pais eram os maiores e estavam muito mais informados e certos que todas as tias juntas. Todavia, sobre a questão do que fosse um comunista, recebi a resposta que os putos mais detestam: “Quando fores grande, conversamos”. Ainda pus a hipótese – quanta inocência! – de levar a questão ao meu professor – tinha entrado, tempos antes, na escola primária – mas o meu Pai rejeitou terminantemente a ideia, fazendo-me prometer que jamais faria tal coisa. Contristado, apesar das dúvidas, obedeci.
Passaram os anos, passou muita vida, a habitual água debaixo das pontes e, quando numa tarde de Primavera, me inscrevi na União dos Estudantes Comunistas – ao tempo organização estudantil do PCP – ocorreu-me uma amável epifania, daquelas reservadas aos incréus: naquele longínquo dia, em Torres Novas, pode ter acontecido um milagre: tinha-se convertido um comunista! Mas não nos termos e no sentido em que os padres de serviço, a minha tia – paz à sua memória – e respectiva amiga pensaram. Em verdade vos digo, misteriosos são os desígnios…

Comments

  1. Maquiavel says:

    AMEN! 😀

  2. JgMenos says:

    Nunca tinha tido notícia dessa ‘performance’.
    Eu a julgar que uns palhaços vestidos de capitalistas que aparecem pelo Chiado eram inovadores!!!

    Eis como o que parece novo é afinal tão antigo…


    • O que narro aqui,caro JgMenos, com a natural composição que impõe uma memória tão longínqua, era vulgar, sobretudo nas décadas de 40 e 50. A conversão de “comunistas” e as “curas” milagrosas atingiram tais proporções que os próprios médicos do santuário foram obrigados a impor alguma decência. Natural de Torres Novas e com família em Ourém estive, como imagina, muito próximo da operação- Fátima. Repare que, quando decorreu o processo de beatificação dos pequenos pastores, nenhum médico do santuário aceitou sancionar ou ratificar qualquer dos milagres atribuídos, popularmente, aos miúdos. Verdadeiramente, não aceitaram sancionar nenhum dos milagres alegadamente ocorridos em Fátima. “Os verdadeiros milagres são os do trabalho e dedicação de todos os técnicos de saúde que aqui trabalham”, declarou, na altura e apesar das pressões, o honrado director do Hospital do Santuário. E, devo dizer-lhe, os meus familiares que assistiram às tão badaladas “aparições” e supostos fenómenos meteorológicos associados, apesar de serem crentes, sempre me garantiram, honestamente,que não tinham notado nenhum dos acontecimentos patrocinados por uma certa histeria popular e aproveitados, pelas razões que conhecemos, pela hierarquia da Igreja e, depois, pelo Estado Novo. De resto, como dizia um médico meu familiar na altura, o que fazia ali falta eram psiquiatras, não milagres. Foi a primeira vez que ouvi uma referência à “histeria de conversão” que Freud nos ensina.


  3. Há sempre esperança!


  4. Há sempre esperança de os que nascem parvos não morrerem, igualmente, parvos – isso sim seria milagre

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