Jan quando ainda era James

Não percam o artigo de hoje no Ípsilon acerca de Jan Morris, a propósito da publicação, que só peca por ter tardado tanto, do seu "Veneza", magnífico roteiro da Sereníssima. James Morris escreveu o livro quando ainda era homem mas quem responde hoje às perguntas da jornalista Alexandra Prado Coelho é a simpática octagenária Jan. Reparem na admirável delicadeza, a que não falta um rigor que apenas podemos intuir, desta descrição do seu processo de transformação: "O primeiro resultado não foi exactamente uma feminização do meu corpo, mas um despir da capa rugosa que cobre os indivíduos masculinos. Não estou a falar apenas dos pêlos ou da textura da pele, nem da saliência dura dos músculos: tudo isto desapareceu efectivamente nos anos que se seguiram, mas com eles desapareceu também algo menos tangível, que sei agora ser especificamente masculino: uma espécie de camada invisível de resiliência acumulada, que oferece um escudo para o lado masculino das espécies, mas ao mesmo tempo diminui as sensações do corpo".