Livros infantis para adultos

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[Alex Gamela]

Tenho a mania que escrevo umas coisas, e não escrevo tanto que justifique a mania.
Leio muita coisa, mas não leio talvez o suficiente ou suficientemente bem.
Leio muito sobre escrita, o que me reforça a crença nos pontos anteriores, mas também me dá alguma noção sobre a qualidade dos textos que me aparecem à frente.
Escritores por aqui tenho muitos, e muitos muito maus, que, se calhar deviam ler mais e melhor, e sobre escrita também, a ver se escreviam melhor.
São raros os textos que encontro com qualidade ou diferentes dos bitaites à la chagas freitas, com personagens que não nascem do umbigo ou presos a dilemas sentimentais infantis.
Esses maus escritores têm o mérito de ter alinhado 50 mil palavras, umas atrás das outras, sem terem conseguido sair do mesmo lugar. É mais do que eu, que não saio do meu lugarzinho para alinhar tanto palavreado junto, como neste postzinho inútil.

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Das excelentes ideias

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Já que aqui estou gostava de chamar a atenção para esta ideia do Instituto Goethe. O projecto intitulado House Call coloca 10 escritores Europeus em várias cidades Europeias de onde escrevem pequenas histórias, narrativas de viagem, pensamentos, anotações, tudo condensado num pequeno livro traduzido em seis línguas. O escritor português eleito  é Gonçalo M. Tavares, mas o projecto conta com a participação de quatro alemães, uma francesa, um espanhol, um belga, um italiano e um luxemburguês.

Quatro histórias já estão publicadas e podem ser lidas aqui. Vale a pena também ler o prefácio de Nicolas Ehler do Instituto Goethe em Nancy:

“No DEBATE PROLONGADO acerca da chamada crise europeia, tem-se referido repetidamente a necessidade de uma narrativa da Europa no seu conjunto: uma história que suscite o entusiasmo pelo projecto comum, que lhe confira uma forma convincente e uma identidade contemporânea”

O que dizer deste livro?

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Sttau Monteiro escreve-o em 1961 mas podia perfeitamente escrevê-lo em 71 ou 81 ou 91. O livro começa quase sem época. Isto é, a expressão Estado Novo nunca é referida e a primeira referência a um tempo é uma menção à guerra colonial. Assim se percebe, juntamente com a introdução de Pedro, o período em que as personagens vivem. Isto não é de menos pois a indefinição revela já algo do carácter generalista da história. Pessoas como o Gonçalo, a Teresa, o António e, graças aos céus, o Pedro, vão sempre existir. Não precisam de uma ditadura. A ditadura ajuda, mas não é estritamente necessária.

O livro é profético. Sttau Monteiro via claramente o fim do Regime apesar de ele só vir a cair 14 anos mais tarde num belo dia de Abril. Contudo, o que está em causa não é “apenas” o fim do regime em Portugal mas algo muito mais transversal. Aquilo a que Sttau Monteiro chama a “lógica de classe”, ou seja, a injustiça que é conscientemente perpetuada por uma classe privilegiada que despreza os que não nasceram com tais privilégios. Parafraseando o Gonçalo, as classes altas arranjam sempre mecanismos para se protegerem, superando inclusivamente os próprios regimes que as suportam e que elas suportam. Este livro não é mais do que a velha história dos  mais fortes a baterem nos mais fracos e a conseguirem safar-se com isso. Ou quase.

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Ainda o Nobel

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(Jean-Baptiste Auguste Leloir: Homer, 1841.)

Devo dizer que discordo de Francisca Prieto aqui no Delito. “A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.”  Este foi um argumento que vi replicado em vários sítios. Mas não creio que seja de todo assim. Até ao século XVII na Europa, os livros eram lidos em voz alta para uma sala de pessoas (na corte, por exemplo). A literatura não era tanto lida como era ouvida e como era um exercício colectivo. As cantigas de amigo que são a base de qualquer programa de literatura portuguesa, eram originalmente cantadas.

Mais importante: Homero – a ter existido – não sabia ler nem escrever e os seus épicos sobreviveram por via oral até alguém os decidir fixar em escrita. Não podemos dizer simplesmente que Homero já não é relevante pois viveu há muito tempo. Homero é a base de toda a literatura ocidental e quem pensa em literatura e no que ela é hoje não o deve perder de vista.

Hoje em dia, em África e na Índia a oralidade continua a ser uma forma de contar histórias que não têm certamente menos valor do que as ocidentais histórias escritas.

No caso de Dylan, nem sequer estamos a falar na ausência total de um texto porque ele existe sendo “apenas” cantado.

Tudo isto para dizer que a nossa visão de literatura como algo ligado obrigatoriamente a um texto que tem de ser lido individualmente é muito recente.  Eu nem estou necessariamente a favor do Nobel a Dylan. Preferia que o prémio tivesse ido para outros possíveis candidatos. Mas parece-me salutar que a Academia tenha uma visão lata do que é Literatura, uma visão lata da importância da Palavra, seja ela escrita ou oral e especialmente, uma visão que obviamente sabe de onde tudo isto veio.

O Nobel

A ideia de que o Nobel da literatura premeia alguém que é o melhor de todos é um bocado ingénua para não dizer impossível (o melhor de todos é o Tolstoy e já não lhe podemos dar um prémio).
O que o Nobel premeia é alguém que é muito bom de uma forma consistente e que a maior parte das vezes o merece verdadeiramente. Não é a questão de ser o melhor de todos mas é sim de ser muito bom e de ser premiado em resultado disso. Se formos a pensar no Nobel em termos competitivos enlouquecemos.
É óbvio que há pessoas que o receberam e que não mereciam e pessoas que não receberam e que mereciam. Mas o Nobel premiou, ao mesmo tempo, pessoas como Thomas Mann, Saramago, Garcia Marquez, Toni Morrison, Gunter Grass ou Neruda . Ou seja, o desprezo que muitos sentem em relação ao Nobel da literatura pode ser compreensível mas simultaneamente parece-me de mau gosto rejeitá-lo e reduzi-lo a um prémio atribuído por razões políticas. Por muitos génios que não foram reconhecidos, muitos outros foram.

Elena Ferrante: as pessoas têm o direito de saber?

transferir-3Elena Ferrante é autora de uma tetralogia que anda a entusiasmar leitores do mundo inteiro. O nome da escritora é, na realidade, um pseudónimo. Tendo manifestado a vontade de manter o anonimato, respondeu sempre por correio electrónico às entrevistas que concedeu.

Recentemente, Claudio Gatti, um jornalista italiano, terá desvelado a identidade de Ferrante. Sabendo-se que isso vai contra a vontade de autora, parece-me que esta investigação, na melhor das hipóteses, pisa uma fronteira ética. Se um escritor quiser ser apenas um nome ou um narrador, está no seu direito.

Claudio Gatti, no entanto, resolveu complementar a sua descoberta com argumentos a favor da sua investigação. A ser verdade o que se lê no Diário de Notícias, oscilam entre o oco e o disparatado.

Em primeiro lugar, recorre ao estafado as pessoas têm o direito de saber. Não é sequer invulgar ouvir jornalistas de rádio e de televisão usarem a pergunta “O público não tem direito a saber?” Sendo certo que um jornalista presta (ou deveria prestar) um serviço público, a verdade é que esta pergunta é apenas sensacionalista e/ou provocatória, porque a realidade é que há assuntos que as pessoas não têm o direito de saber, especialmente a partir do momento em que alguém não quer que se saiba. [Read more…]

Fazer o Secundário para aprender a escrever requerimentos

1087 Deslocacoes automovel proprioA Educação, em Portugal, continua a ser palco de lutas feudais, o que inviabiliza a existência de pactos, de consensos ou, no mínimo,  de um debate sério.

A instabilidade no sistema de ensino é crónica, sendo ainda pior no âmbito da disciplina de Português, continuamente sujeita a alterações curriculares, terminológicas e ortográficas a um ritmo tal que irmãos com pouca diferença de idade não podem, por exemplo, partilhar o mesmo manual. Mais absurdo ainda: muitos alunos aprenderam duas terminologias gramaticais e duas ortografias ao longo do seu percurso escolar. [Read more…]