A iliteracia vista por uma princesa

“Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. “É preciso agir já”, diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos (Público).

Transcrevo um excerto das declarações da Princesa ao jornal Público:  ” (…) a Europa se ter deixado chegar a estes níveis “inesperados” de iliteracia. (…) O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém.”

Ela tem razão e há que agir no sentido de elevar os níveis de literacia, mas conheço homens e mulheres que não puderam aprender a ler e a escrever e que, ao contrário do que diz a princesa, não são nada inseguros, desconfiados ou envergonhados… pelo contrário, e têm muito para contar! A sua leitura do mundo devia ser mais ouvida. Mostra-me até que sou ignorante.

Ler o mundo” –  é difícil ler este mundo. Não há literacia que nos valha.

Literacia não é para nós

Hoje no DN, a comissária europeia da Educação e Cultura, Androulla Vassiliou e Petra Laurentien (princesa dos Países Baixos), escrevem em conjunto sobre a Literacia (“precisamos de ser mais ambiciosos“).

Transcrevo parte do texto:

A literacia é essencial na vida moderna. Nas sociedades dominadas pela palavra escrita, é um requisito fundamental para os cidadãos de todas as idades. É crucial para a parentalidade, para conseguir e manter um emprego, ser um consumidor ativo, gerir a saúde e tirar partido do mundo digital.

Porém, quase 75 milhões de adultos não dispõem das competências básicas necessárias para funcionar plenamente em sociedade. A próxima geração não está em vias de melhorar esta situação.

(…) A situação em Portugal, embora seja melhor do que em muitos outros países da UE, não deve deixar margem para complacência.

(…) Os dados estatísticos atuais são maus augúrios para o futuro. As pessoas com um nível insuficiente de literacia têm menos probabilidades de completar os estudos, mais probabilidades de ficar desempregadas e de sofrer de problemas de saúde. As crianças cujos progenitores têm competências reduzidas nesse domínio são mais suscetíveis de ter dificuldades a nível da leitura.

(…) O investimento em serviços de educação de elevada qualidade é um dos melhores investimentos que os países podem efetuar.

(…) É necessário colmatar o fosso socioeconómico, causa principal dos problemas de literacia, garantindo serviços de educação de elevada qualidade a todos.

(…) Se existe uma mensagem importante a dirigir aos governos europeus é a de que precisamos de elevar as nossas aspirações. (…)

Isto não é para nós… não temos governos que invistam em educação como se tem visto; vivemos uma grave crise económica; e os nossos governos não aspiram a valores elevados.