Eva Kaili e o estranho caso das ditaduras que adquirem serviços de altos cargos da UE

Eva Kaili, vice-presidente do Parlamento Europeu e membro do PASOK, foi detida em Bruxelas, por ser suspeita de integrar um esquema de corrupção, organização criminosa e branqueamento de capitais patrocinado pelo Qatar, com o intuito de favorecer o execrável regime em tomadas de decisão comunitárias.

Não sei se se relacionará com isto, até porque a Comissão Europeia é liderada pelos conservadores do PPE, e este caso, segundo a comunicação social, envolve sobretudo membros dos S&D, mas as importações de gás liquefeito qatari aumentaram substancialmente no último ano, dada a necessidade de substituir Putin por um ditador com aspecto mais lavado. E aquelas dishdashas brancas a imaculadas sempre são mais frescas que o cinzento escuro do K(remlin)GB.

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Valores europeus

A União Europeia, depois de décadas a apertar a mão a Vladimir Putin porque lhe servia os interesses, decidiu agora apertar a mão a um Putin de marca branca e com bigode.

O que nos vale é que este Putin está do lado do Ocidente e só invade países irrelevantes como a Arménia.

Os tão aclamados “valores europeus” de alguns, são a machadada na soberania de outros.

Fotografia: AFP

Somos liberais e não sabemos?

Segundo dados da Eurostat (gráfico em baixo), há cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão social (22,4%). Os números agravam-se quando falamos de idosos. E, se pensarmos que somos dos países mais envelhecidos da União Europeia, ainda pior se torna o cenário. Já a média da UE situa-se nos 21,7%.

As pensões não sobem por aí além, os salários são baixos e tendem a estagnar. Acresce a isto uma carga fiscal desmedida sobre a classe média e uma fraqueza/laissez faire incompreensível com quem lucra milhões com a mão de obra barata. Pagamos a nossa própria pobreza, enquanto uma minoria vai comendo a maior parte do bolo (dica: não são os ciganos do RSI ou os desempregados).

Hoje em dia, e cada vez mais, assistimos a uma distribuição deficiente do bolo económico. Há cada vez mais ricos e, por contraponto, cada vez mais pobres. E só quem for inocente achará que entre uma e outra tendência não existe correlação. Só a título de exemplo, a fortuna dos bilionários cresceu 60% desde 2020 (cerca de 5 triliões de dólares), ao mesmo tempo que aumentou a pobreza no mundo. A isto, acresce a notícia que nos diz que há mais de 50 milhões de escravos espalhados pelo mundo. [Read more…]

Um PS à direita da direita

No debate do Estado da União Europeia, uma espécie de Estado da Nação comunitário, Ursula Von Der Leyen defendeu a aplicação do badalado windfall tax às energéticas – ao qual António Costa e a sua maioria parlamentar insistem em resistir – e a flexibilização das regras orçamentais, para que não se repita o desastre que foi a resposta à crise do subprime e das dívidas soberanas. Mais do que defender esta ideia, a presidente da comissão foi mais longe e anunciou um windfall tax comunitário, com o qual espera arrecadar 140 mil milhões de euros.

Por cá, o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, defendeu há dias que existem alternativas ao windfall tax, sem especificar quais. Eis o “socialismo” português em todo o seu esplendor: uma espécie exótica que se coloca à direita dos conservadores em matéria de políticas redistributivas, no momento em que elas são mais necessárias. Agora façamos um minuto de silêncio por todos os doutorados da universidade da vida que garantem que o PS está tomado pela esquerda radical.

Oremos.

O cheiro a Venezuela logo pela manhã

Andaram décadas a embargar a economia venezuelana, pediram aos “parceiros” europeus que fizessem o mesmo (e Portugal acedeu a tudo, se bem se lembram, era Augusto Santos Silva – hoje presidente da Assembleia da República – Ministro dos Negócios Estrangeiros), condenaram um povo à miséria e à fome, com a conivência da comandita de Maduro, que com isso aumentava a sua política de opressão das massas, tentaram, mais do que uma vez, um Golpe de Estado à lá Operação Condor. E tudo isto sem que a Venezuela tivesse invadido alguém.

Em Portugal, andaram José Sócrates, Pedro Passos Coelho ou Paulo Portas a apertar a mão aos sanguinários políticos venezuelanos, na Venezuela, quando os interesses falavam mais alto; mas, quando voltavam a Portugal, lá vinham os da ‘team’ mocassim e os da ‘team’ ‘portas giratórias’ (dos Mesquitas Nunes aos Chernes) dizer cobras e lagartos do “socialismo” venezuelano… e depois lá iam, outra vez, à Venezuela fechar um qualquer acordo com aqueles sobre quem, em Portugal, diziam “nunca mais!”.

Agora, como virgens arrependidas e inocentes pedintes de mão estendida, querem o petróleo da Venezuela, porque o aliado Putin se virou contra eles, e querem-no a qualquer preço, tanto que, para esses patetas, é um escândalo que seja a Venezuela a impor as suas regras na venda do seu petróleo.

Para quem se acha dono do mundo, dos Putins europeus aos norte-americanos desde sempre putinistas, deve ser um forte revés no ego construído ao longo do último século, ter de implorar de joelhos ao regime venezuelano pela subsistência dos povos norte-americano e europeu. E, confesso, dentro da tragédia, até tem a sua piada. É o inferno de Dante para essa gente.

É bem feita!

Adesão à UE: a mentira que estamos a vender à Ucrânia

Andamos a vender uma mentira aos ucranianos. A mentira de um sonho europeu que está a anos, décadas de distância, isto se algum dia a Ucrânia reunir as condições necessárias para conseguir a adesão. A menos que a União decida ignorar as regras, o que não é bem o seu estilo. Isto se não considerarmos os resgates da economia italiana, que não se chamam bem resgates. Resgates é para PIGS como Portugal ou Grécia. Para cães grandes do G8 usa-se um eufemismo qualquer que agora não me ocorre.

O processo de adesão, que é longo, tem várias etapas e exige uma série de garantias, não será acelerado, por dramática que seja a situação na Ucrânia. Não será nem pode ser. Porque é contrário às regras europeias, porque abre um precedente perigoso e porque a Ucrânia não está perto de cumprir os necessários requisitos. E ao contrário daquilo que alguns defendem, creio que não teria qualquer impacto prático na invasão em curso. Quanto muito aumentaria a probabilidade de alargar as fronteiras da invasão e transformá-la numa guerra a sério. E aí é que iríamos ver o que é inflação.

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Grato aos russos, aos ucranianos e a todos os soviéticos

Neste Dia da Europa, 9 de Maio, lembro sempre, gratamente, quem deu a vida para nos livrar do nazismo de Hitler, em particular os mais 22 milhões de soviéticos que pereceram, entre os quais os ucranianos. Se hoje vivemos sem o terror nacional-socialista em toda a Europa, não é aos europeus que o devemos, mas sim a quem nos veio resgatar: os soviéticos, em primeiro lugar, e os norte-americanos que, após Pearl Harbor, em boa hora decidiram tomar como deles as nossas dores.

Desde então a Europa tem sido o reflexo do poder dos vitoriosos, divididos entre pró-americanos e pró-russos, sem rumo certo, aos tropeções dos ventos políticos que foram soprando de ambos os lados, embora do lado do regime por nós fundado e erguido – a Democracia.
A Europa feneceu após a era colonial “gloriosa”, de seiscentos até ao dealbar do sec. XX, enquanto os novos imperialismos medraram, mas [Read more…]

China pressionada por Biden – Invasão da Ucrânia

Há uns dias atrás, após o logro da 3ª ronda de negociações entre Ucrânia e Rússia, onde esta ousou endurecer as suas posições em vez de as desanuviar, ao declarar que nem a independência da Ucrânia aceitaria, sugeria que uma pressão sobre a China talvez ajudasse a travar aquela horrenda tormenta que se abateu sobre o povo ucraniano.
É que, vejamos, por muito que as sanções económicas estejam a afectar a Rússia, podemos já constatar não são suficientes para demover Putin. De facto, o que está a acontecer é que as suas transacções financeiras, arredadas do sistema “Swift”, estão a ser canalizadas para o sistema “Cips”, controlado pela China, aproximando os dois países rivais desde há séculos.

Daí, ter sugerido que, sendo os europeus um dos melhores clientes de produtos chineses, uma pressão no sentido de afastar a China de um limbo de nem sim, nem não ao massacre da Ucrânia, empurrando-a para pressionar Putin e assim o encurralar, poderia [Read more…]

Conversas Vadias 49

Em mais uma edição, a 49.ª, António de Almeida, Carlos Garcez Osório, Fernando Moreira de Sá, João Mendes e José Mário Teixeira vadiaram sobre: Alexandre Guerreiro, Passos Coelho, Putin, Biden, sanções, opinião pública, oligarcas, repressão, propaganda, China, Tiananmen, boicotes, Organização Mundial do Comércio, indústria, Aznar, revalorização das Forças Armadas, integridades nacional, Projecto Europeu, União Europeia e a união da Europa e, imagine-se, Ucrânia.

Por fim, as sugestões: [Read more…]

Conversas Vadias
Conversas Vadias
Conversas Vadias 49
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De uma Negociação de Paz a uma Declaração de Guerra

Sob os auspícios da Turquia decorreu ontem um encontro entre os ministros dos Negócios estrangeiros da Ucrânia e da Rússia para, supostamente, negociar caminhos conducentes a um acordo de fim de guerra. Depois de no dia anterior o Kremlin ter dados sinais de algumas cedências nas suas pretensões, a declaração final de Lavrov intensifica-as, a ponto de tornar inviável não apenas um acordo, mas também o prosseguimento de qualquer ronda negocial.
De permitir a continuidade da independência da Ucrânia, na véspera, passa a exigir que a Ucrânia não se aproxime do Ocidente (adesão à União Europeia), e que a sua riqueza não seja explorada por capitais ocidentais.

Pieter Bruegel – A Queda dos Anjpos Rebeldes

Isto é absolutamente inaceitável para ucranianos, mas também para nós ocidentais. A independência de um país não se negoceia, nem se deve sentar à mesa com quem a não pretende reconhecer.
No início desta invasão, o Kremlin começou por dizer que se tratava de uma “operação militar”, ficando agora à vista que ontem, mais não fez do que a DECLARAÇÃO de GUERRA que tinha recusado fazer, cujo objectivo é [Read more…]

Incentivo suicida do Ocidente aos ucranianos

Importa e muito conhecer a História, particularmente a mais recente, para compreender a invasão russa da Ucrânia, mas a interpretação dos factos divide-nos, por fazermos, naturalmente, leituras diferentes.
O que nos deveria exclusivamente interessar neste momento, é como tratar o problema real actual de modo a pararmos a destruição, a morte e a fuga do horror provocados por Putin. Sobre a condenação desta invasão só pessoas muito mal-formadas não o fizeram, mas isso não demove o monstro. Numa guerra não há moral, não há ética, não há humanidade que resista à motivação bélica de quem a pratica. Não se deixem enganar nem iludir: Putin não quer saber de quantos são os que o condenam, de quão forte será a Rússia atingida por sanções económicas. Putin só persegue um objectivo – ganhar esta invasão e sequente ocupação. Nada o desviará desse propósito a não ser que o matem!

Neste contexto, temos uma Ucrânia a que permitimos que sonhasse vir a pertencer à União Europeia e à OTAN e aos ucranianos uma vida democrática e próspera como a que se vive no Ocidente. Acontece que esse sonho que alimentámos aos ucranianos esbarrou com a monstruosidade de Putin escudado no seu imenso arsenal bélico.
Qual é a situação neste momento? Estados Unidos e [Read more…]

Caros senhores da guerra,

Não há imperialismo bom e imperialismo mau.

Existe Rússia, China, EUA, UE e NATO. As ententes da guerra. Espero que se fodam todos bem fodidos.

Só o povo salva o povo.

Protesto anti-guerra. Estados Unidos da América, 1970. Autor desconhecido.

A paixão assolapada do Governo português pelos investidores estrangeiros

A paixão assolapada do governo português pelo investimento estrangeiro, a qualquer custo, é bem conhecida; seja a negociata dos vistos Gold, seja a Zona Franca da Madeira, seja a entrega de terras para agricultura intensiva ao agronegócio estrangeiro, seja o apego canino à justiça paralela privada para investidores estrangeiros do ISDS (Investor-State Dispute Settlement) – os tribunais VIP exclusivos para investidores processarem os estados.

O governo português tudo faz para abrir as portas ao dinheirinho, mesmo que no fim sejam os contribuintes e o ambiente a pagar a conta.

Aqui fica mais uma notícia que tão bem encaixa nessa tradição servil:

A Comissão Europeia iniciou acções por infracção contra sete estados-membros da UE por não terem denunciado os tratados bilaterais de investimento intra-UE.

A Comissão Europeia ameaçou remeter a Áustria, Suécia, Bélgica, Luxemburgo, Portugal, Roménia, e Itália para o Tribunal de Justiça Europeu, a menos que suspendam os seus tratados bilaterais de investimento intra-UE (TBI).

Todos os TBI deviam ter sido extintos em 2020, uma vez que foram considerados incompatíveis com a legislação da UE. [Read more…]

Brexit, in theatres

Isto não tem paralelo. Pelo menos na história recente de um reino que é uma potência cultural, económica, militar e, não menos importante, democrática. Não tem. O Brexit foi há dois dias, e os efeitos já se fazem sentir, muito antes do que era expectável, pelo menos para mim. E para muitos outros. E surpreende-me, com toda a sinceridade, a quantidade de negacionistas deste desastre em curso. A quantidade de pessoas que acredita, verdadeiramente, que a escassez de combustíveis e as filas para os postos de abastecimento são uma encenação. Que as prateleiras vazias em inúmeros supermercados são montagem. Que a falta de mão de obra em vários sectores é fake. Que os militares nas ruas a substituir camionistas é algo que nunca aconteceu. O Reino Unido não se vai dissolver, apesar das ameaças dos descendentes de William Wallace, nem se vai transformar num Estado falhado. O UK é too big to fail. Mas que isto é muito grave, e inimaginável há poucos anos, e um dos maiores embaraços da história deste país, é.

Chegou-se a este ponto. Ao ponto de ser necessário abater 120 mil porcos saudáveis, todos os 120 mil impróprios para consumo, porque faltam trabalhadores. Porque os imigrantes que foram demonizados durante a campanha negra do Brexit já não entram ou foram embora. E não há, entre os súbditos de sua majestade, quem queira ocupar as vagas abertas. Na volta anda tudo agarrado ao RSI lá do sítio. Deve ser isso.

Deixem os funcionários públicos em paz

Não compreendo aquela malta que às Segundas, Quartas e Sextas quer mais polícias nas ruas, médicos e enfermeiros nos hospitais e técnicos nos vários sectores da administração pública, e às Terças, Quintas e Sábados rasga às vestes porque existem funcionários públicos a mais. Já é tempo de alguém lhes explicar que não é possível querer tudo e o seu contrário. Os países europeus que ocupam o topo de todos os rankings que interessam têm mais funcionários públicos que Portugal. Muitos mais. Aliás, a esmagadora maioria dos Estados-membros da UE têm mais funcionários públicos que Portugal. O problema não são os funcionários públicos. O problema é critério que privilegia as clientelas partidárias de quem manda, a quem os caciques pagam lealdade e favores com tachos.

A salada de intervenções e a linearidade simplista – em Moçambique

No passado dia 12 de Julho, o Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia aprovou uma missão de treino militar e apoio logístico e financeiro do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz para Moçambique – tudo isto com fraca legitimidade democrática, nomeadamente à margem de qualquer debate no Parlamento Europeu.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, veio ufanamente anunciar que a Presidência Portuguesa se “empenhou muito” no “lançamento” da missão de formação militar da União Europeia (UE) em Moçambique (…)”.

Maior o contentamento porque a missão militar será chefiada por um brigadeiro-general do Exército português (Nuno Lemos Pires).

Outra coisa não era de esperar de uma diplomacia que põe as relações entre os chefes acima dos direitos e aspirações dos povos. Numerosas análises já demonstraram que o que se passa em Cabo Delgado tem causas que vão muito além de violência “jihadista” do Estado Islâmico.

„Se, de facto, quisesse ajudar a população de Cabo Delgado, o Governo português, com apoio do secretário-geral da ONU, deveria ter tido coragem e dado o exemplo, posicionando-se contra a corrente dominante de belicistas. Isso implicaria que Portugal tivesse tido a coragem de usar a influência da UE para enfrentar o corrupto GoM, apelando à implementação de todos os meios pacíficos de resolução do conflito, em vez de usar quase exclusivamente o trunfo militar.“

Forças do Ruanda, SADC e UE irão agora formar uma “salada de intervenções militares” – como lhe chama a ONG moçambicana CDD (Centro para a Democracia e Desenvolvimento) – e há fundados receios de „que o conflito se agrave e arraste durante anos, à custa da população civil.“

Quantas voltas mais se quer dar a um tratado anacrónico antes de o atirar pela borda fora? Ou: defendam o Planeta, acima do negócio

É a sexta ronda de negociações sobre a modernização do Tratado da Carta da Energia que está a decorrer de 6 a 9 de Julho.

Há mais de um ano que a UE anda, supostamente, a tentar compatibilizar este tratado da última década do século passado, que protege os combustíveis fósseis, com o acordo de Paris. Em vão. São 55 membros e alterações substanciais exigem unanimidade. Informações “vazadas” sobre a anterior ronda de negociações realizada de 1 a 4 de Junho passado, mostram que não há “avanços substanciais“ quanto à eliminação da protecção aos combustíveis fósseis. Países cuja economia depende em grande medida dos mesmos, como o Cazaquistão, rejeitam liminarmente passos para a eliminação da protecção especial (ISDS) a esses combustíveis, largamente responsáveis por emissões com efeito de estufa.

Perante este impasse, a Comissão Europeia parece estar com vontade de “flexibilizar” a sua posição para procurar “possíveis compromissos”, agarrando-se a um tratado obsoleto, que está a bloquear a tomada de medidas dos governos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, através de tribunais privados exclusivos nos quais as multinacionais exigem indemnizações milionárias, a pagar pelos cidadãos (ISDS). Foi o caso dos Países Baixos, que estão a enfrentar processos de milhares de milhões por terem decidido eliminar progressivamente o carvão para a produção de energia até 2030. [Read more…]

Orbán agradece a “neutralidade” do Estado português

A presidência portuguesa do Conselho da União Europeia termina dentro de poucos dias. Uma semana, para ser mais preciso. Ainda assim, essa curta semana serviu de argumento para que o governo português se recusasse a assinar uma carta subscrita por 12 estados-membros (Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Estónia, Letónia e Lituânia), que apela as instituições europeias para “utilizar todos os instrumentos à sua disposição para garantir o pleno respeito pelo direito europeu” face à legislação homofóbica aprovada recentemente pelo parlamento húngaro, que vem reforçar o segregacionismo da comunidade LGBT. O governo português, que alegou “dever de neutralidade”, por ainda ocupar a presidência do Conselho da UE, coloca-se, deste modo, do lado do opressor. Porque não existe verdadeira neutralidade quando perante um tabuleiro tão desequilibrado. Existe a coragem ou a rendição. E o governo português, sempre tão alegadamente progressista, escolheu vergar-se ao homofóbico neofascista Orban. Escolheu ceder quando não podem haver contemplações, como o primeiro-ministro holandês deixou hoje claro. E sim, isto deve preocupar-nos. Começam a ser sinais a mais de défice democrático.

A continuar assim, qualquer dia acordamos mesmo em Gilead

No mesmo dia em que a Hungria recebeu Portugal para o jogo inaugural do Grupo F do Euro 2020, o governo de Viktor Orban fez aprovar legislação que proíbe a “promoção” da homossexualidade junto de menores de 18 anos, e a “representação” da homossexualidade e da transexualidade em espaços públicos, no âmbito de um conjunto mais alargado de medidas, alegadamente orientadas para a protecção de menores e para o combate à pedofilia. Entre as medidas, filmes como o Diário de Bridget Jones e a saga Harry Potter serão proibidos a menores de 18 anos, por conterem menções à homossexualidade. O Harry Potter, então, é todo um tratado de ideologia de género. Wingardium LGBT.

Não é preciso ser um rocket scientist para perceber o que está aqui em causa. E o que está em causa é um novo ataque do governo húngaro aos direitos, liberdades e garantias de determinados cidadãos, em função da sua orientação sexual, para assim oprimir e segregar ainda mais estas pessoas, sob o falso pretexto da protecção de menores, demonizando a comunidade através da associação à pedofilia, sem qualquer tipo de fundamento, e tudo isto perante o silêncio cobarde/cúmplice (escolher uma, ou ambas) de uma União Europeia incapaz de fazer cumprir a sua Carta dos Direitos Fundamentais, que proíbe qualquer discriminação com base na orientação sexual. Sempre muito poderoso lobby, o LGBT!

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Bielorrússia, Israel e as virgens ofendidas que na verdade são putas

Não foi preciso esperar muito tempo até que aparecesse um representante do PCP, partido que se recusa a condenar o regime totalitário bielorrusso, a dizer que o sequestro do voo da Ryanair é condenável “mas…”. E este “mas”, segundo Lúcia Gomes, dirigente comunista, prende-se com as ligações à direita neo-nazi, nomeadamente ao Batalhão Azov, organização paramilitar e supremacista ucraniana, conhecida pela violência e pela determinação em transformar a Ucrânia numa ditadura de extrema-direita. Protasevich colaborou directamente com o Batalhão Azov e, inclusivé, integrou as fileiras da sua “jota”.

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Dia Internacional Contra a Homofobia

Cartaz alusivo à história dos direitos LGBTQ+ em Portugal, afixado pelas ruas de Porto de Mós.

Assinala-se hoje, dia 17 de Maio, o dia Internacional Contra a Homofobia.

Em 1990, por iniciativa da Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade foi retirada da lista de “doenças e problemas relacionados com a saúde”.

Trinta anos volvidos, as pessoas homossexuais continuam a ser violentadas todos os dias, pelo mundo fora; na própria casa, com a família, na rua, por desconhecidos, na escola por colegas, no trabalho, etc. Em setenta países ainda é “ilegal” ser homossexual e seis países aplicam a pena de morte a quem obstruir a “lei”. [Read more…]

A União Europeia e o privilégio de aqui estar

Foi há 71 anos que Robert Schuman proferiu o seu famoso discurso, eternizado como Declaração Schuman, que marcou o início do processo de construção europeia, colocando, assim, um definitivo ponto final em anos de guerras sangrentas e instabilidade política e social no continente europeu. De lá para cá, a hoje União Europeia transformou-se na capital mundial da democracia e da liberdade, onde o esforço conjunto resultou em mais direitos, mais liberdades, mais garantias, mais igualdade, mais fraternidade, mais respeito pela diferença e maior acesso a oportunidades do que em qualquer outro local do mundo. O caminho é sinuoso, e muito há ainda para construir, para reformar, para melhorar e ajustar. Na balança, contudo, os ganhos colectivos ultrapassam largamente as consequências nefastas que deste projecto resultaram. E nós, portugueses, que nem sempre sabemos usar ou executar o investimento que chega de Bruxelas, somos dos que menos se podem queixar. Seríamos um país muito mais atrasado, muito mais pobre, caso tivéssemos optado por qualquer uma das propostas “orgulhosamente sós”, na periferia e ultraperiferia da União. Sempre tive e – suspeito – sempre terei dúvidas quanto ao funcionamento e estrutura da União Europeia. Mas nunca deixarei de acreditar no melhor projecto civilizacional construído até à data. E não vejo propostas alternativas que nos conduzam a mais prosperidade. Só retrocesso e barbárie. Celebremos, pois, esta Europa a 27 e tudo o que conquistamos. Se não for por mais, que seja pelo privilégio de aqui estar.

Quo vadis, União Europeia?

Sempre fui um europeísta convicto. Acredito numa Europa de nações com parte da sua soberania partilhada, celebro os seus feitos e virtudes, que (ainda) superam as suas falhas e limitações, reconheço a necessidade de a reformar, mas, devo dizê-lo, a minha convicção já conheceu melhores dias.

Não que me tenha deixado infectar pelo vírus da conspiração reptiliana do globalismo, que me merece a mesma reacção que as 40 virgens que aguardam os terroristas islâmicos no céu deles – eles que acreditem no que quiserem, desde que não chateiem e ou rebentem com os outros – mas os factos são o que são e eles aí estão para testar a minha fé no projecto europeu.

Primeiro foi a resposta à crise financeira do final da década passada. A receita da austeridade autoritária foi um desastre, trouxe ao de cima o egoísmo e a ausência de uma verdadeira solidariedade entre os membros, e deixou a nu a incapacidade que muitos Estados têm de aceitar que estamos nisto juntos, no exacto mesmo barco, mais não almejando que poder beneficiar de uma moeda única, nefasta para as economias dos países mais frágeis, e de um mercado interno sem barreiras, para pessoas, mercadorias e, sobretudo, capitais. Sobretudo capitais.

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A Astrazeneca e o negócio da pandemia

Em 2020, os lucros da Astrazeneca registaram um aumento de 159%, face ao resultado do ano anterior, fixando-se nos 2592 milhões de euros. A farmacêutica atribui o resultado, em larga medida, aos avanços produzidos no desenvolvimento da vacina contra a covid-19 que, recorde-se, foi subsidiada pela União Europeia, que entregou, sem garantias de absolutamente nada, mais de 11 mil milhões de euros – só em apoios directos!!! – a um punhado de farmacêuticas que estão na corrida às vacinas.

Apesar dos subsídios estratosféricos que recebeu da União, e dos acordos subjacentes aos mesmos, a Astrazeneca tem estado em permanente incumprimento do contrato assinado com as autoridades europeias, havendo já registo de outros clientes que, de bolsos gordos, pagaram para passar à frente da fila. Sorte a deles, o facto de serem conservadores, não socialistas, permitiu-lhes passar incólumes ao spin da direita trauliteira e à ira da bastonária da Ordem dos Gajos com Palito na Boca que Batem na Mulher. [Read more…]

Nota de pesar pelo falecimento da liberdade de imprensa na Hungria

A radio Klubrádió, um dos últimos redutos de independência no seio do que ainda resta da comunicação social húngara, para lá da grande máquina orwelliana ao serviço da extrema-direita no poder, é a mais recente vítima do regime autoritário de Viktor Orban. A revogação licença para radiodifusão da estação, decidida pela entidade reguladora do país, nomeada e controlada pelo Fidesz, viu a sua decisão confirmada pela justiça, igualmente controlada pelo partido de Orban.

Neste momento, todo o espaço mediático é – literalmente – ocupado pela propaganda da extrema-direita, e os opositores do Fidesz deixaram simplesmente de ter voz. E isto acontece sob a batuta de um partido que integra o PPE, a família europeia da presidente da Comissão, Ursula Von der Leyen (e dos nossos PSD e CDS-PP), sem que nada de particularmente grave lhe aconteça por atropelar o Estado de Direito, a liberdade de imprensa e expressão ou a separação de poderes. [Read more…]

Em causa: a coragem dos Ministros da Energia em relação ao TCE

Ontem e hoje está a decorrer a reunião do Conselho de Ministros da Energia da UE. Em cima da mesa, devido à enorme pressão da sociedade civil, está o Tratado Carta de Energia (TCE) – o maior obstáculo à luta contra as alterações climáticas na Europa.

É este um momento especialmente explosivo, dois dias antes da Conferência da Carta da Energia, que se realiza quarta-feira/quinta-feira desta semana.

Conseguirão os Ministros aprovar uma estratégia para a retirada colectiva da UE do TCE?

Até agora, os governos têm-se remetido para o processo de modernização do TCE que está em curso. Mas as alterações relevantes ao tratado exigem unanimidade dos membros, o que, segundo revelam as negociações, não é atingível. [Read more…]

Combater o vírus da evasão fiscal para salvar a União Europeia

TH

Imagem via Pressenza

Dinamarca, Polónia e França tomaram uma decisão muito sensata e corajosa, ao excluir todas as empresas sediadas em paraísos fiscais de qualquer apoio estatal, no âmbito do combate às consequências económicas da pandemia. O meu aplauso e votos de que o governo português tenha a mesma coragem e sensatez. Que este seja o primeiro passo para um boicote total da UE à evasão fiscal, e que todos os membros lhes sigam o exemplo. E que o segundo seja um projecto de harmonização fiscal no seio da União, para acabar com as práticas desleais e contrárias ao espírito que está na base da sua constituição, das quais países como a Holanda, o Luxemburgo e a Irlanda não querem abdicar. Se queremos sobreviver e sair desta crise com uma União Europeia mais coesa, mais justa e mais solidária, ao invés de ficarmos sentados a assistir ao seu colapso, o momento de agir é agora.

A trafulhice fiscal das Holandas desta vida

TH

Panama Papers, Swiss Leaks ou o famoso “double Irish, Dutch sandwich” (se não estão familiarizados com a expressão, sugiro que a pesquisem e se maravilhem com os embustes que são o milagre irlandês e ética financeira holandesa), existem esquemas para todos os gostos e à medida de cada evasor fiscal. E todos eles, sem excepção, contam com a participação de “respeitáveis” instituições financeiras europeias e norte-americanas. E de estados-membros da União Europeia. E com a inércia e o silêncio cúmplice da Comissão Europeia. Ou não estivessem, todos eles, nas mãos dos principais beneficiários dessa trafulhice. Sim, trafulhice. Deixem-se de politicamente correctos e chamem os bois pelos nomes. É trafulhice, sim. E é trafulhice feita à custa de milhões de pessoas, que pagam a factura em doses cavalares de austeridade, independentemente do nome que se decide, em cada momento, dar a essa austeridade.

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O editorial esquerdalho do Financial Times

KM

O editorial que se segue foi publicado no Financial Times, sendo a tradução da autoria de João Rodrigues, perigoso ladrão de bicicletas. Tentem não entrar em pânico, não baixem a guarda, mas preparem-se: os esquerdalhos andam aí e querem comer os vossos filhos ao pequeno-almoço.

A existir um raio de esperança no Covid-19, este é a injecção de um propósito comum em sociedades polarizadas. Mas o vírus e o confinamento económico necessário para o combater, também lançaram uma luz horripilante nas desigualdades existentes, para lá de terem criado novas desigualdades. Para lá de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve consiste em saber se os actuais sentimentos de propósito comum moldarão a sociedade a seguir à crise. Como os líderes ocidentais aprenderam na Grande Depressão e depois da Segunda Guerra Mundial, a exigência de um sacrifício colectivo implica oferecer um novo contrato social que a todos beneficie.

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A União Europeia ligada ao ventilador

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Na foto: dois imbecis holandeses

António Costa esteve muito bem, mas muito bem mesmo, a chamar os bois pelos nomes: as palavras do Ministro das Finanças holandês, que pediu uma investigação à falta de margem orçamental do governo espanhol para lidar com a pandemia, são, efectivamente, repugnantes. São repugnantes, irresponsáveis, negligentes e arrogantes. São mais um prego no caixão da União, que avança, triunfante, em direcção ao abismo da dissolução, para gáudio da extrema-direita. E são tudo que a União Europeia não precisa neste momento. [Read more…]