É preciso aprender a escrever

Vítima de lirismo precoce, Vítor Cunha encerra o poema com “É preciso ireis [sic] todos para a podre gruta maternal de onde em má hora fostes paridos.”

Será que é a Língua que é traiçoeira?

Vendesse
© F.S.

Acordo ortográfico: a prova faz-se já aqui ao lado

O jornalista Paulo Ferreira aproveita a sua tribuna para lançar críticas a uma visão idílica e irrealista que António José Seguro tem revelado sobre o Interior do país. A dada altura, afirma que isso não resiste à “prova dos fatos”. O contexto ajuda-nos a perceber que não há, aqui, referência às dificuldades das tradicionais alfaiatarias: o jornalista ou o revisor, profissionais da língua, caíram na tentação de suprimir consoantes, arrastados pela corrente do chamado acordo ortográfico (AO90), transformando, num passe de mágica, factos em fatos.

provadosfatos

É, assim, a prova dos factos que nos permite concluir que o AO90 é, afinal, um enorme erro ortográfico, uma vez que contribui para acentuar a iliteracia reinante.

Para ajudar Paulo Ferreira e outros seguidores, deixo aqui um vídeo em que, ressuscitando António Silva, é possível perceber o que é uma prova de fatos.

O problema das “estigmativas”

Duas mulheres na casa dos quarenta anos a conversar na rua sobre as respectivas facturas da EDP. Uma: Eles fazem o que querem com o nosso dinheiro. A outra: É para isso que eles usam as estigmativas. A outra: É tudo uma roubalheira. E ainda querem eles que a gente vote. Abeirei-me delas e meti-me na conversa para dizer que a contagem que vem numa factura serve para ser confrontada com aquela que o contador exibe. E assim vamos, com esta gente que não conhece as palavras da Língua que fala, nem é capaz de interpretar o que está escrito numa factura de consumo eléctrico doméstico. São eles os que não votam, acreditando ser esse o procedimento virtuoso do cidadão que não quer participar da ruina do sistema democrático – paradoxalmente contribuindo para a eleição dos governantes que não nos representam. Ou será que representam, e andamos aqui a falar de um país prevalecente imaginário? Sempre essa dúvida.

A iliteracia vista por uma princesa

“Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. “É preciso agir já”, diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos (Público).

Transcrevo um excerto das declarações da Princesa ao jornal Público:  ” (…) a Europa se ter deixado chegar a estes níveis “inesperados” de iliteracia. (…) O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém.”

Ela tem razão e há que agir no sentido de elevar os níveis de literacia, mas conheço homens e mulheres que não puderam aprender a ler e a escrever e que, ao contrário do que diz a princesa, não são nada inseguros, desconfiados ou envergonhados… pelo contrário, e têm muito para contar! A sua leitura do mundo devia ser mais ouvida. Mostra-me até que sou ignorante.

Ler o mundo” –  é difícil ler este mundo. Não há literacia que nos valha.

1+1?

A Sábado decidiu fazer uma sondagem cultural à porta de algumas universidades. Até admito que, entre as perguntas e a edição, haja (como é habitual no jornalismo) uma certa tendência para enfatizar um dos lados do problema.
Também posso admitir que naquele dia estivessem à porta das universidades os mais burros – ou os menos dotados, segundo a linguagem ideológica da pedagogia moderna. Se assim fosse, cumulando os dois factores, intercessionados num dado local e momento, teríamos o que se chama uma coincidência tramada.
Vamos dar, contudo, o benefício da dúvida e considerar esta peça jornalística um bom serviço ao conhecimento da população discente universitária e da sua cultural geral.
Se algumas perguntas são deprimentes, de tão óbvias que são as respostas, o resultado é mais que negativo. É trágico. A ideia que que pessoas que alcançam a universidade com um nível de literacia tão baixo já me parece tristemente frustrante para quem é professor (o meu caso) e para quem tem colegas alunos deste nível. Mas o hediondo é que se dêem respostas ou justificações como: «Eh pá! Coisas com Jesus Cristo?! Sou fraca em religião», como se saber quem pintou a Capela Sistina tivesse a ver com religião. [Read more…]

Ao Menos, será Amarelo o Nosso Submarino?

“A redução de cinco mil docentes no actual ano lectivo foi um dos factores que ajudou a compensar a derrapagem da despesa pública provocada pelo pagamento dos dois submarinos.”

ministro que fala verdade merece a minha admiração; resta saber é se o naufrágio de 5,000 professores nos coloca mais próximos do “modelo finlandês” ou, pelo contrário, nos deixa mais na merda. Os Cagalhães flutuarão?

Noções Gerais de Electricidade

“Eu não percebo porque é que o pássaro não apanha choque”*

(recém-encartado da escola pública) – * pergunta ao Cagalhães, jovem!

A Ministra da Coerência

Isabel Alçada, actual ministra da Educação, promete iniciar a discussão sobre o fim das reprovações no Ensino. Sou-vos sincero ao afirmar que há já anos que não assistia a um tão coerente acto governativo – uma ministra que, pensando no passado recente mas sobretudo no futuro, vem garantir aos empregadores de Portugal que, doravante, como há já vários anos, os futuros escolarizados nada terão consigo que garanta que, de facto, sabem concretizar um pensamento, escrever um texto, um parágrafo, uma frase até, juntar letras…. doravante, o próprio Estado deixa de garantir mínimos na qualidade do ensino público e obrigatório. Acho muito bem este acto de coerência.

A actual situação é uma mentira pegada: é difícil um professor conseguir chumbar um aluno, é quase impossível um conjunto de professores chumbar um aluno. Ao menos assim, sabemos o que estamos a comprar: fruta com bicho lá dentro. Parabéns.

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