Há uns anos, Xanana Gusmão foi preso e apareceu na televisão a fazer declarações conciliatórias, depois de ter sido sujeito a um interrogatório “intenso”, nas palavras das autoridades indonésias. Nesse momento, eu integrava num grupo de corajosos lutadores que bebiam bravamente umas cervejas. Havia, até, alguns guerrilheiros mais afoitos que tinham chegado ao ponto de pedir umas tostas mistas. Penso que é fácil imaginar o ambiente pesadíssimo que se vivia naquela trincheira – a vida em combate é dura, meus amigos!
Um dos convivas, enquanto engolia um trago de cerveja, olhou para a televisão e sentenciou, em tom de desprezo, a propósito de Xanana: “Este gajo é um palhaço!” Como é que era possível, alguém, muito provavelmente torturado, trair daquela maneira soez os ideais da justa guerrilha que tinha comandado durante anos? Realmente, não era admissível! Fraco!
Ainda esperei uns segundos, cerrei os olhos em busca de alguma ironia. O valente bebedor estava a falar a sério. Do fundo do meu sossego burguês, sentado em cima de um privilégio que não o deveria ser, limitei-me a dizer que era muito fácil enfrentar exércitos e prisões ali onde estávamos e querer dar lições a um homem que teria sido sujeito sabe-se lá a quê. O meu interlocutor não gostou. Não éramos íntimos e assim continuámos, ninguém perdeu nada com isso. [Read more…]






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