Diário de um chegano (4)

Diário másculo e viril

 

O almirante Gouveia e Melo, ainda e vergonhosamente candidato a Presidente da República, insinuou que os portugueses não têm um gene especial, como se houvesse alguma coisa portuguesa que não fosse especial também geneticamente.

Como este diário não serve para propagar propaganda enganosa, aqui deixo alguns ensinamentos, mesmo sabendo que o nosso André irá ganhar as eleições presidenciais com 600 % dos votos expressos.

O português, como toda a gente sabe, descende directamente dos lusitanos, um povo que vivia para os lados de Folgosinho e comia com frequência no restaurante Albertino, para descansar das cargas de porrada que dava aos romanos, às duas e três vezes por semana nos Montes Hermínios.

Alguns esquerdalhos apaneleirados tentam convencer-nos de que passaram por aqui demasiados povos para que tenhamos genes bem definidos. É não saber o que é um lusitano. Um lusitano não andava metido com malucas de outras raças, um lusitano só tinha relações com lusitanas, que não tinham nada de malucas, eram umas senhoras. É verdade que passaram por aqui gajas de outras raças, sempre desejosas da potência lendária dos lusitanos, mas o lusitano sempre foi forte, ciente da necessidade de manter a pureza da raça, um lusitano não se mistura, não desperdiça a sua semente. [Read more…]

«Não te contaram a história toda sobre a tua liberdade»

Graças às grandes comemorações do 25 de Novembro, descobri a existência do Instituto Mais Liberdade, uma espécie de braço intelectual e propagandístico do chamado liberalismo português.

Na extensa lista de fundadores, temos Carlos Guimarães Pinto, Rodrigo Moita de Deus ou Pedro Mota Soares. Cecília Meireles é directora não executiva. João Miguel Tavares faz parte do Conselho de Curadores. O Presidente da Mesa da Assembleia Geral é Adolfo Mesquita Nunes.

Entre outras actividades, o Instituto Mais Liberdade criou a exposição 25N, que estará presente em frente às câmaras de Lisboa e do Porto e em mais de 200 escolas. Se não estou em erro, a página 25n.pt também será da responsabilidade deste instituto.

A exposição tem como divisa «25N – A História que não te Contaram». A página exibe a frase «Não te contaram a história toda sobre a tua liberdade».

[Read more…]

Historiador de estórias

Israel confirma ter atacado campo de refugiados e palestinos afirmam que há dezenas de mortos

Fotografia: Reuters

Há quem esteja do lado certo da estória (a da carochinha, por exemplo). E há quem esteja do lado certo da História (a da defesa dos direitos humanos, por exemplo).

Já Israel é um erro histórico.

A epidemia das “aparições”

As “aparições” de Nossa Senhora de Fátima são, inegavelmente, o fenómeno religioso mais célebre e consequente da História recente de Portugal, tendo alimentado mitos e narrativas mundialmente conhecidos (pelo menos no mundo católico), feito erigir um santuário, arregimentado fiéis e peregrinos, e, inclusivamente, ajudado a legitimar regimes políticos e cruzadas persecutórias no chamado Mundo Livre. Sugestivamente, Fátima nasce republicana, ao sabor do tempo, e é reciclada pela ditadura do Estado Novo, cujo poder político vivia em simbiose com a alta hierarquia da Igreja Católica, na qual se apoiava amplamente, como anticomunista, através da conveniente revelação (muito pouco) mística da conversão da Rússia e do fim do bolchevismo.

Porém, e como veremos, as “aparições” da Cova de Santa Iria, no ano de 1917, não primaram pela originalidade, nem na forma nem no conteúdo. Com efeito, multiplicaram-se, ao longo de toda a História de Portugal, relatos de avistamentos e aparições da Virgem Maria, nos mais variados locais e das mais variadas formas. Algumas, felizmente, ficaram nos anais da História, chegaram até nós e podem ajudar-nos a desmontar aquela que é a construção mitológica, bastante mais política do que espiritual, mais bem-sucedida da contemporaneidade nacional.

Assim, o primeiro fenómeno análogo ao de 1917 de que há registo verificou-se no século XIII, exatos 700 anos antes, em 1217, quando um frade franciscano alegou ter visto a Virgem Maria no cimo da Serra do Montejunto, tendo-se aproximado e conseguido chegar à conversação com o santo avistamento. O conteúdo da conversa, porém, não foi revelado.

No ano de 1758 deu-se aquela que, até Fátima, seria a “aparição” que mais agitaria as almas crentes deste país: o milagre do Cabeço da Ortiga, a uns escassos 3 quilómetros da Cova de Santa Iria, e que se consubstanciou, segundo o relato, no avistamento, por parte de uma pastorinha, da Virgem Maria, que lhe pediu, alegadamente, que fosse erguida uma capela em sua honra naquele mesmo local. A construção, efetivamente, ainda hoje lá está e acolhe, anualmente, a celebração da Virgem milagreira. Este caso ficou registado nas Memórias Paroquiais de 1758, pelo punho do pároco da aldeia, e alcançou a celebridade por essa razão. Terá havido uma anterior, que ficou nos registos da Inquisição em Portugal, da qual se sabe pouco.

No século XIX ainda há uma nova “aparição”, registada em Carnaxide, em 1822, mas o grosso destes fenómenos verificar-se-á ao longo de todo o século XX, com múltiplos e variados avistamentos e “aparições”, consolidando aquilo que pode ser considerado uma verdadeira epidemia de fenómenos deste tipo, com menos diferenças do que semelhanças entre si. Com efeito, logo no ano seguinte às “aparições” da Cova de Santa Iria, registaram-se, no mesmo ano, dois fenómenos análogos, em Ponte de Sor e em São Miguel (Açores). Seguem-se Vila Nova da Coelheira, em 1924; Santa Maria da Feira, em 1934; Baião, em 1938; Vilar do Chão, em 1946; Asseiceira, em 1954; Ladeira do Pinheiro, em 1970; e Montejunto, em 1999, a última de que há registo histórico. Para além da enorme profusão de acontecimentos, é de notar que entre 1971 e 1998 (entre o fim revolucionário do regime autoritário e a consolidação tardia da democracia) nenhum fenómeno deste tipo é relatado, o que certamente se prende com as condicionantes políticas e sociais do tempo em questão, a que a perda de influência da Igreja Católica na vida política nacional não será alheia.

Posto isto, e em jeito de conclusão, gostaria de destacar a falta de originalidade (e até a reciclagem de certos aspetos) que une as “aparições” de Fátima às do século XVIII e XIX e, por imitação evidente ou inspiração forçada, as posteriores a Fátima, ao longo de todo o século XX. Por outro lado, é também de notar o aproveitamento político feito não só pelo regime salazarista (para consumo interno e externo) mas, inclusivamente, pelo Ocidente global, através da elevação de Fátima a verdadeira santa padroeira do anticomunismo, venerada em boa parte do Ocidente capitalista, demoliberal ou autoritário, e presença assídua em propaganda antibolchevista, surgindo como protetora do Mundo Livre face às ameaças do campo socialista (reproduz-se, abaixo, um exemplo paradigmático do que aqui se disse).

Panfleto anticomunista impresso pela organização católica internacional Blue Army of Our Lady Fatima, no contexto da Guerra Fria, c. 1950

Um povo sem memória é um povo sem futuro (a propósito do ataque à História no sistema de ensino)

A desvalorização, o desprezo com que as Ciências Sociais são encaradas, não é de hoje.
Ciências como a História, que nos dão o passado, a memória, a identidade, começam lentamente a ser apagadas do sistema de ensino.
Em algumas escolas, no 3. ciclo, História é unida à Geografia e à Cidadania (uma disciplina que engloba tudo como se fosse tudo a mesma coisa). Noutras escolas, vão mais longe e apagam mesmo o nome da História e da Geografia. Passam a chamar-lhes Ciências Sociais. Noutras ainda, História e Geografia já desapareceram do 7. ano. Ou deram-lhes 50 ou até 25 minutos semanais.
Do 3. ciclo, rapidamente se seguirá o secundário e depois o superior. Afinal, quem quererá seguir uma disciplina que não existe?
Compreende-se. Para o poder político, quanto mais ignorante for o povo, melhor. Mais fácil é de conduzir a manada. E nada melhor do que apagar toda a sua identidade, a sua memória, o seu passado.
Há quem chame a isto democracia.

Acordos, rendições, História e vida

Há uns anos, Xanana Gusmão foi preso e apareceu na televisão a fazer declarações conciliatórias, depois de ter sido sujeito a um interrogatório “intenso”, nas palavras das autoridades indonésias. Nesse momento, eu integrava num grupo de corajosos lutadores que bebiam bravamente umas cervejas. Havia, até, alguns guerrilheiros mais afoitos que tinham chegado ao ponto de pedir umas tostas mistas. Penso que é fácil imaginar o ambiente pesadíssimo que se vivia naquela trincheira – a vida em combate é dura, meus amigos!

Um dos convivas, enquanto engolia um trago de cerveja, olhou para a televisão e sentenciou, em tom de desprezo, a propósito de Xanana: “Este gajo é um palhaço!” Como é que era possível, alguém, muito provavelmente torturado, trair daquela maneira soez os ideais da justa guerrilha que tinha comandado durante anos? Realmente, não era admissível! Fraco!

Ainda esperei uns segundos, cerrei os olhos em busca de alguma ironia. O valente bebedor estava a falar a sério. Do fundo do meu sossego burguês, sentado em cima de um privilégio que não o deveria ser, limitei-me a dizer que era muito fácil enfrentar exércitos e prisões ali onde estávamos e querer dar lições a um homem que teria sido sujeito sabe-se lá a quê. O meu interlocutor não gostou. Não éramos íntimos e assim continuámos, ninguém perdeu nada com isso. [Read more…]

Abril – mês internacional da Arquitetura Paisagista

Central Park, Nova Iorque

Uma simbiose onde são combinadas em harmonia ciências naturais, sociais e artísticas, são diversos os ramos que definem esta complexa e completa área que é a Arquitetura Paisagista. Muito sustentada na componente vegetal, este é o principal traço que a distingue da Arquitetura que conhecemos. Não é possível falar nesta área sem saltar rapidamente à memória 3 grandes nomes: Frederick Law Olmsted (criador do Central Park, em Nova Iorque), Gonçalo Ribeiro Telles (pai da Arquitetura Paisagista em Portugal) e Francisco Caldeira Cabral (considerado o pai do ensino da Aquitetura Paisagista).

Segundo Caldeira Cabral, esta é uma ‘arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem‘ – os arquitetos paisagistas desenvolvem capacidades para planear e projetar paisagens ecológica, social e economicamente sustentáveis, com vista à promoção da qualidade de vida das comunidades humanas, da qualidade do meio ambiente e da biodiversidade. [Read more…]

Orgulho no passado?

Há pessoas que louvam a grandiosidade do passado português, com um discurso que revela arrepios e êxtases. As batalhas medievais, a gesta dos Descobrimentos, a acção dos restauradores da Independência, tudo é apainelado, pintado em murais virtuais gigantescos, do tamanho de uma glória incomensurável.

Não sou insensível aos feitos extraordinários dos nossos antepassados. É verdadeiramente incrível a coragem de quem participou num combate medieval ou a abnegação de quem viajou em frágeis naus por oceanos desconhecidos e entrou em selvas inóspitas. Talvez por ser um impotente de sentimento, como dizia Carlos da Maia, não consigo, no entanto, sentir orgulho, admiro à distância, gosto de saber, consigo espantar-me.

As mesmas pessoas que sentem orgulho no passado relativizam quase sempre as atrocidades. Ou porque outros fizeram antes o mesmo ou pior ou porque não fomos tão maus como os outros ou (e este é sempre muito interessante) porque é preciso atender ao contexto. Também há quem defenda que, no meio de tudo, interessa realçar o papel civilizador.

Colonizar um território foi sempre o mesmo – é como se eu, transportando uma arma, uma cultura e uma religião, entrasse no apartamento de uma família desarmada e lhes explicasse, tendo em conta a evidência da arma e a superioridade da cultura, que teriam de passar a viver na despensa, passando a existir para me servir a mim e aos meus. Algures, no meio ou no fim da história, ainda ficaria surpreendido com alguma reacção agressiva. [Read more…]

Canções Históricas

 

Te Deum, Marc-Antoine Charpentier. 1688

 

Elite Brasileira

Jean-Baptiste Debret em 1835 mostrava a verdadeira face da elite brasileira. A crueldade e indiferença. A soberba, o horror a gente pobre, o racismo, escravocratas natos.

Quem ousa romper essas estruturas ou questiona-las é punido. O castigo vem na forma de tortura. Uma elite torturante, parasitária que custa o trabalho de muita gente e deixa o país em uma atraso sem fim.

Canções históricas

 

(e também por ocasião da Páscoa)

2 – Bella Ciao

È questo il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
È questo il fiore del partigiano
Morto per la libertà

De como a perspectiva nos interpela e invoca

A lamentação de Cristo, tema que apenas surge após o sec. XI sem qualquer ligação bíblica, nunca antes nos fora mostrado como Andrea Mantegna o fez, sem ser enquadrado na sua deposição da cruz amparado por várias personagens, ou ao colo de Maria.

Andrea_Mantegna_Lamentação_de_Cristo

Mantegna oferece-nos um corpo não definhado nem débil, mas forte, apesar de já exangue, depositado sobre uma laje, evidenciando as perfurações a que foi submetido nas mãos e nos pés, com os rostos de Maria, S. João Evangelista e, possivelmente, Maria Madalena, sem aflorar seus olhos, [Read more…]

Canções Históricas

 

1- Ah! Ça Ira (1790)

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira,
Le peuple en ce jour sans cesse répète,
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira,
Malgré les mutins tout réussira.
Nos ennemis confus en restent là
Et nous allons chanter « Alléluia ! »
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
 

O Zé julga que é historiador

O Zé acredita que é jornalista. Agora, pensava que era historiador, mas fascismo não é quando um homem quiser.

J’Accuse, agora e sempre

j'accuse

Foi a 13 de Janeiro de 1898 que Émile Zola publicou o seu “J’accuse” no jornal Parisiense Aurore. Uma carta aberta ao Presidente da República Félix Faure onde era denunciada a injustiça do julgamento e prisão de Alfred Dreyfus, oficial francês e judeu, acusado de traição (e efectivamente condenado por isso). Excepcionalmente, numa época em que o anti-semitismo estava absolutamente disseminado pelas sociedades europeias,  Zola teve a humanidade suficiente para perceber a imoralidade – e o perigo – do preconceito, denunciando o anti-semitismo do governo e dos oficiais que trataram do caso.

A seguir à publicação da carta, Zola foi condenado a pena de prisão. Fugiu para Inglaterra onde continuou a lutar por Dreyfus que tinha sido enviado para o exílio numa ilha na Guiana Francesa. Mais tarde, em 1899, Dreyfus regressou a França e ofereceram-lhe um perdão – por um crime que não tinha cometido. Em 1906, foi oficialmente exonerado tendo-lhe sido atribuído a Legião de Honra.

Zola morreu em 1908 e Dreyfus estava presente aquando a transferência das suas cinzas para o Panteão nacional.

Versão Portuguesa da carta.

 

Dehors les immigrants! – diz o Santos

front_national_daniel_dos_santosEu (e todos os meus amigos da escola também) tenho (e cada vez mais!) m familiar, um vizinho ou alguém próximo que emigrou para França ou já de lá voltou depois de décadas a aforrar para um futuro menos pesado. Eu, e possivelmente todos os portugueses, conheço pessoas na diáspora em quatro continentes, em latitudes distintas e múltiplos fusos horários.
Pela coragem que tiveram no momento da partida (agora já não vão num comboio de saudades) e pelas provações por que passaram, fico também reconhecido aos países que os acolheram e onde fizeram questão de se integrar.
Não tenho dúvida alguma de que Portugal seria muito mais pobre do que apenas  “o país mais pobre da Europa Ocidental” (como escrevia o The Guardian há dias).
Se Paris (teremos sempre Paris, não é?) não fosse a terceira maior cidade portuguesa, se no Luxemburgo não se falasse português, assim como em Andorra ou na Alemanha, se na Califórnia, em Toronto ou Montreal, qual teria sido a miséria dos que para lá ousaram partir?

Mas, ainda que possamos achar estranho que portugueses (de segunda ou mesmo de primeira geração) a residir e trabalhar noutros países se associem a movimentos anti-imigração, a verdade é que tal acontece sobretudo a coberto de muita ignorância e alguma estupidez.

“Vêm para cá roubar os nossos empregos, baixar os salários”, dizia um… filho de um emigrante português… é por isso que é cada vez mais importantes o ensino da História nas escolas.
Por falar nisso, neste país com quase 900 anos, há um programa na tv aberta sobre História? – será por falta de tema?

(cartaz via Nuno Roby Amorim)

O Dicionário Filosófico de Voltaire: Liberdade de Pensamento

 

Por volta do ano de 1707 quando os ingleses que haviam vencido a batalha de Saragoça protegiam Portugal e na mesma altura em que, durante algum tempo, deram um rei a Espanha, Lord Boldmind, um oficial que tinha sido ferido, estava a tomar as águas em Barèges. Ele encontrou nesse local Conde Médroso que tinha caído do seu cavalo atrás da bagagem, a uma légua e meia do campo de batalha e que também tomava as águas. A Inquisição era-lhe familiar enquanto Lord Boldmind era apenas familiar na forma de conversar. Um dia, após o vinho, ele teve o seguinte diálogo com Médroso:

[Read more…]

Um magno embuste e outras cartas

foral_guarda

Anda por aí um corropio por causa de uma tal de Magna Carta que faz 800 anos. É conhecido o fenómeno da manipulação da História ao serviço das ideologias, um clássico, e que pelos vistos hoje é assumido por uma facção da chamada ciência política, instalada na “universidade” da ICAR (um excelente local de exílio para académicos de carreira fracassada nas universidades laicas).

A tal carta resulta de um clássico conflito entre nobreza feudal e poder régio. Afirma direitos aos barões perante um rei fraco. Nada de especial, a História Medieval europeia está cheia disso. Fazer dela um documento fundador da liberdade das elites faz algum sentido, simbólico. Mas qualquer carta de foral que por esse mesmo tempo em Portugal defendia os direitos dos povos perante a prepotência senhorial, nas particulares condições portuguesas que levaram os reis a com eles tantas vezes se aliaram precisamente contra os nosso barões, que eram mais condes, é um muito superior exercício da liberdade, no sentido que lhe podemos dar nesse tempo. [Read more…]

Azinheirices

Fatima_children_with_rosaries

O 31 que vai pelo 31 da Armada, porque José Maria Barcia assinalou “uma alucinação de meninos com fome e frio que se tornou num dos maiores produtos de marketing da Igreja Católica“, com uma caixa de comentários que é um primor, não é bem uma questão religiosa: contam-se por dezenas as tentativas da santa aliança ICAR/talassas para através de uma aparição parirem um movimento de ataque à República. Fátima é isso, embora a coincidência com o ano da Revolução Soviética lhe tenha dado um folgo maior. Há aquela parte teológica de servir como mais um exemplo do politeísmo e paganismo dos homens do Vaticano (desde JP I), mas não me meto nessa guerra.

Num blogue monárquico compreende-se que lhes tenha doído.

A guerra não foi um filme americano

together-we-shall-strangle-hitlerism

É natural que os vencedores escrevam a sua versão de uma guerra, as suas histórias. Não lhe chamem é História.

Setenta anos depois da derrota do nazi-fascismo Clara Barata escreve no Público, e sem se rir, sobre “o mito estalinista de que a salvação do fascismo assentou no sacrifício do povo russo“,  para depois tropeçar em sim mesma e criticar: “os 27 milhões de mortos só contam como pequena história, a história familiar, dos indivíduos, e não como análise, reflexão. Aliás, desde 2014, existe uma lei que pune com penas até cinco anos de prisão a “distorção” do papel da União Soviética na II Guerra Mundial.”

Como se o revisionismo não estivesse sujeito a idênticas condenações em França ou na Alemanha, como se a II Guerra Mundial tivesse sido um filme americano desembarcado na Normandia.

O primeiro problema historiográfico das guerras, seus vencedores e vencidos, é o da sobrevivência do positivismo oitocentista, que reduz a a História aos líderes, fazendo de Hilter o único mau da fita, elevando Churchill a homem espectáculo (e esquecendo que em Inglaterra, no poder, estava um governo de coligação) e metendo Estaline onde não é chamado. [Read more…]

São apenas pretos

No episódio 5 do documentário A Guerra de Joaquim Furtado (aquele onde se clarifica a natureza racista e esclavagista do colonialismo português) um enfermeiro moçambicano narra o seu diálogo com um superior hierárquico, a quem questionava por uma sua colega com muito menos habilitações do que ele ganhar o dobro:

– Tens dúvida de que és preto?

– Isso não tenho dúvida

– É isso, ela é branca, ganha mais do que tu, que és preto.

Há por lá mais exemplos do mesmo. Enquanto por estes dias editava o documentário de forma a poder utilizá-lo nas minhas aulas de História, apareciam-me mentalmente no monitor as imagens dos que atravessam o deserto e o Mediterrâneo, e por ali morrem. Vítimas das guerras que homens brancos foram inventar a Sul, vítimas de nem parte da globalização os deixarem ser, vítimas da natureza humana, que tem aquela pretensão, os do costume dirão estúpida, de quererem alimentar-se, vestir-se, habitar, viver. Os do costume explicam: têm dúvidas de que são pretos? E para que não as haja em sacos negros os embalarão.

O culto da imbecilização no ensino num suposto exame da 4ª classe

Tem feito furor por aí um suposto exame da 4ª classe de 1968, que circula nas redes. Acabo de descobrir que a coisa partiu de um jornal, o Dinheiro Vivo, e circula agora por várias páginas comerciais, daquelas que publicam tudo o que dê cliques. Como qualquer não-idiota pode constatar, isto não é um exame, são páginas de um caderno de exercícios:

cadernos exerfcicios primária

Nem é preciso ter a 4ª classe, ou o 4º ano para lá chegar. Não me daria ao trabalho de escrever aqui uma linha sobre o assunto, não fosse a circulação disto grave pela ideologia, e estupidez, que está a espalhar. Vamos lá ver: [Read more…]

Como era Portugal antes da Democracia?

Ando há anos a tentar utilizar excelente série da RTP Portugal, um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes, nas minhas aulas de História.

Sendo objectivo do trabalho sociológico comparar o Portugal dos anos 60 com o do séc. XXI, recolheram excelentes testemunhos de como era a nossa vida antes de Abril de 1974, servindo tanto de fonte primária como de secundária. Um computador mais rapidinho permitiu-me agora editar esses extractos, numa remontagem um pouco longa e não muito bem organizada, mas sempre melhor que utilizar os dvd’s originais. Espero mais tarde completá-la com pequenos vídeos específicos (por exemplo sobre a emigração).

Aqui fica à disposição dos interessados, que podem igualmente efectuar o seu download directo.

Humberto Delgado, o aeroporto e os ceguinhos

Humberto_Delgado_coimbraAntónio Costa apresentou uma proposta no sentido de o Aeroporto da Portela ser baptizado com o nome de Humberto Delgado. Acho bem. Passam 50 anos sobre o seu assassinato e o homem até foi aviador.

Curioso é o 31 que a extrema-direita levanta a propósito da proposta. A coisa desce ao nível disto: ” Deverá ser esta a primeira personagem histórica a conhecer por quem nos visita?”

Portugal tem três aeroportos internacionais. O segundo, em volume de tráfego, chama-se Sá Carneiro. É essa a primeira personagem histórica que quem nos visita também conhece, um líder partidário  (que muita falta faz ao seu partido, mas isso é outra conversa).

Mas enfim, quem a seguir acrescenta a conquista de Ceuta (só a maior imbecilidade da autoria de governantes portugueses, que apenas trouxe despesas e nenhum benefício) e Afonso de Albuquerque como glórias nacionais, deve ter um problema qualquer com o turismo marroquino ou indiano. Com a História tem de certeza absoluta, e não é miopia, é cegueira pura.

Imagem: comício de Humberto Delgado em Coimbra. Entre a multidão o meu tio e o meu pai, com muito orgulho.

O neoliberalismo não é um slogan – histórias de uma ideia poderosa

Afinal o que é isso do neoliberalismo? João Rodrigues, em quatro colóquios que tiveram lugar na Cultugeste, disseca a História da corrente ideológica que hoje, discretamente, domina o mundo. Quatro magistrais lições que podem ser ouvistas na respectiva página, da qual republico a primeira por ter um erro de edição no original.

Em louvor e glória dos egrégios avós

antonio mattoso

Anda pela nossa extrema-direita dita liberal uma vaga de revisionismo histórico (ou de regresso à historiografia à moda do séc. XIX, mas essa deixo para outro dia).

Agora é o Ferreira, putativo candidato a salazarinho que quer fazer “fazer uma carta aberta aos portugueses a explicar porque é que a história é muito maior do que se diz. Escrever uma carta aos portugueses sobre “A tua história foi muito maior do que te dizem”, por exemplo. É que nós somos mesmo bons.” Modéstia e ignorância.

Já o ex-maoísta, ex-pioneiro do eduquês de Boston, ex-formador de professores mal formados, ex-autor de um blogue que apagou porque ali defendeu a escola pública contra os ataques da dupla Valter/ Rodrigues, aliás também ex-apagador de calúnias sobre um conhecido cronista que se lixe a colega que as reproduziu e deu com os costados em tribunal, e actual e único grande defensor do Crato e do “ensino” vocacionado para a mão-de-obra desqualificada e barata, Ramiro Marques, vem em defesa, imaginem, de Putin, e proclama que o Ocidente tem motivos para se orgulhar do seu passado e para celebrar os seus valores comuns. Não há sítio melhor para fazer isso do que as escolas. [Read more…]

Rescrever a História? – II

-O assunto nem merece toda esta polémica que se levantou à volta dos bustos. Mas estão porque não retirar os quadros de todos os Presidentes da República que estão expostos no Palácio de Belém. Durante 40 anos ninguém levantou a questão. Nestes 40 anos em sucessivas audiencias aos diversos P.R. terão passado extremistas e radicais durante o PREC, enquanto líderes de oposição Álvaro Cunhal, Carlos Carvalhas, Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã entre outros. Quando este programa foi para o ar na RTP, ocupava o Palácio de Belém como chefe de Estado, Mário Soares. Será ele também um perigoso revisionista que pretende branquear o passado? Os quadros podem ficar expostos em Belém, mas os bustos em S.Bento já são intoleráveis? Porquê agora, passados 40 anos? Ou tem apenas a ver com o momento político e querem à força arranjar mais uma disputa ideológica?

Peninsulares

Iberian_peninsulaOnde, na Europa, um parlamento expõe bustos dos seus ditadores do séc. XX? na Alemanha ou em França, países com legislação anti-revisionista, que têm metido na cadeia os que tentam branquear a História?

Imaginam vária imprensa e imensos blogues a glorificarem um criminoso de guerra e terrorista confesso por altura do seu falecimento nesses dois países, ou numa Bélgica ou Holanda?

Estão a ver os partidos de um governo na defesa da “memória” de um Hitler (que até foi eleito), das estátuas de Estaline ou pregando por Petain?

Neste canto da Europa, o ibérico, também a desgraça nos une. O governo espanhol e o português juntam-se na mesma mistificação, são governos  sabonete, lavam e ainda perfumam. Somos o canto das ditaduras que não soubemos extirpar, uns trocaram a democracia pela desonra dos seus milhares de heróis assassinados pelo bárbaro Franco, nós deixámos que lentamente o Estado Novo seja visto com a brandura habitual proclamada pelos seus herdeiros.

Somos a vergonha da Europa.

Rescrever a História?

-O Estado Novo existiu. É um tempo Histórico que ninguém deseja ver repetido, mas também não deve ser esquecido. Muito menos apagado como se entre 1926 e 1974 ninguém tivesse exercido o cargo de Presidente da República em Portugal. Ou não se realizaria uma exposição e parece-me duvidoso que a presença de 3 personagens o justifique, ou se vamos pelo carácter provavelmente alguns dos políticos da 1ª república talvez merecessem um escrutínio mais apertado. Isto para não ir mais longe, porque se abrirmos a caixa de Pandora acabamos a retirar as estátuas do Marquês de Pombal. Tenham juízo. Apagar imagens e rescrever História é prática de regimes totalitários, não de Democracias.

A História dos últimos 39 anos em Portugal

É de enaltecer que Mário Soares tenda cada vez mais para uma sinceridade que chega a ser comovente. Que viva muitos anos e mais episódios sejam contados, completando a História do empreendedorismo à portuguesa, sempre alapado aos governantes e ao estado.

O oportuno vídeo é do 31 da Armada, que se enganou no título: são 39 e não 40 anos. Vindo de quem comemora com tanto afinco o 25 de Novembro foi um deslize indesculpável.