Se tenho de comprar uma garrafa de vinho escolho-a, claro está, pela prosa do rótulo. Coisas como “mime-se a si próprio após um dia atarefado” fazem-me pousar logo a garrafa. Mas se me anunciarem “ginjas com matizes tostados” eu fico interessada, mais pela ginja, é certo, e pelo calorzinho nas faces que ela deve trazer. Se me confessarem que um vinho revela a presença de fruta “dando sinais de fadiga” imagino uvas pálidas, tombando sem ganas no cesto da vindima, “ai filhas, que vida a nossa”.
Já “taninos firmes e redondos” soa-me a promessa de máquina para glúteos da tvshop, mas sempre traz algo de viço e juventude.
Se me dizem que as origens do que está na garrafa são “vinhas dramáticas de montanha” eu peço para me encherem o copo, que drama é comigo e dramas montanhosos, com a promessa de montes uivantes e acidentes trágicos pelas escarpas abaixo, deixam-me empolgada.
Um vinho que “na boca deixa um longo e persistente final” tem ecos de Philip Marlowe, logo imagino que será um pouco ácido, mas apenas nos primeiros sorvos. [Read more…]









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