O rótulo que eu ando para escrever

Se tenho de comprar uma garrafa de vinho escolho-a, claro está, pela prosa do rótulo. Coisas como “mime-se a si próprio após um dia atarefado” fazem-me pousar logo a garrafa. Mas se me anunciarem “ginjas com matizes tostados” eu fico interessada, mais pela ginja, é certo, e pelo calorzinho nas faces que ela deve trazer. Se me confessarem que um vinho revela a presença de fruta “dando sinais de fadiga” imagino uvas pálidas, tombando sem ganas no cesto da vindima,  “ai filhas, que vida a nossa”.

Já “taninos firmes e redondos” soa-me a promessa de máquina para glúteos da tvshop, mas sempre traz algo de viço e juventude.

Se me dizem que as origens do que está na garrafa são “vinhas dramáticas de montanha” eu peço para me encherem o copo, que drama é comigo e dramas montanhosos, com a promessa de montes uivantes e acidentes trágicos pelas escarpas abaixo, deixam-me empolgada.

Um vinho que “na boca deixa um longo e persistente final” tem ecos de Philip Marlowe, logo imagino que será um pouco ácido, mas apenas nos primeiros sorvos.

E como rejeitar um vinho que “tem no nariz notas de especiarias, fruta preta madura e tabaco” se com um homem que cheire a isto uma mulher pode até casar-se, sem mais exigências do que essa?

Esta forma de apresentar o vinho como uma criatura exuberante e caprichosa pode ser literatura e da boa, condensada em seis ou sete linhas. É enganadora, como deve ser, e a gente acaba com um belo rótulo e um copo que não apetece esvaziar, mas, olhem lá, a vida não é mesmo assim?

Não vale a pena encaminharem-me para as páginas da especialidade, onde os entendidos sentenciam o que vale a pena beber, porque eu quero continuar a ser enganada pelos rótulos.

Há um vinho, porém, sem rótulo nem nome, modesto e digno vinho da casa de uma taberna onde gosto de ir, para o qual não há texto e eu nunca consigo escrevê-lo, porque este vinho, qual barão amante de árvores, trepa logo. E quando eu puxo do caderno e da caneta, já se me entaramelam as palavras entre linhas e não atino com um rótulo à altura.

Esta tasquinha é moderna, sem chegar a ser gourmet – deus nos livre -,  e eu vou lá pelos petiscos e pelo tal vinho da casa, que me aquece os dias frios. Os assentos são bancos de madeira e o fado toca o dia inteiro num radiozito. A taberneira, que não se ofende se lhe chamarem assim, conta a vida toda com graça e singeleza. De cada vez que lá vou fico a saber um pouco mais, sem perguntar nada, sem precisar de meter conversa. É só sorrir-lhe e perguntar que tal anda e ela conta as alegrias com um sorriso e as mágoas com leveza. Encolhemos os ombros, rimos do que tem graça, e se, como vai cantando a Amália, cheias de penas nos deitámos e com ainda mais nos levantámos, sacudimo-las à janela, pela manhã, e aí ficaram.

E eu acho-lhe graça, e até lhe tenho alguma inveja, por essa facilidade com que se desprende dos seus males, alinha-os assim sobre o balcão com um gesto rápido das costas da mão, junta-os todos, descrevendo-os numa penada, e sacode-os para o chão, como quem limpa migalhas. Já passou, sobrevivi, ainda aqui estou, venha o próximo – poderia dizer. Sem sinais de fadiga.

E entretanto, traz o jarro de vinho da casa, sem rótulo nem nome, sem literatura nem metafísica, como o Esteves, e enche-me o copo.

Para a próxima, juro, escrevo-lhe um rótulo.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Há sempre novidades. Está provado, és uma competentíssima escançã; sim porque nem escançoa nem escançona soam bem, segundo o Ciberdúvidas. Na próxima ida ao Porto, essa tasca não me escapa..


    • Escançona soa mal como o caraças. Por acaso acho que tenho mais vocação para taberneira, mas acho que nessa não vais acreditar.

      • Carlos Fonseca says:

        Só acredito no verosímil, ó escançã, escritora renegada, talentosa automarginalizada. Escreve, escreve obra que te mereça. Eu, de avental azul e branco, sirvo de taberneiro e bebo um copo atrás do balcão à tua saúde.

  2. Rui Moringa says:

    Há cantinhos do nosso Porto assim, sem teias nem peias.
    Parabéns, pelo bom “naco” de prosa.

  3. subcarvalho says:

    bela prosa, mesmo sem ser em rótulo.
    estou a trabalhar num projecto de vídeo onde documentaremos, ou pelo menos tentaremos, trata-se de um colectivo de vídeo, as tascas da invicta.
    gostava de saber de que tasca falas.

    obrigado,
    sub!


    • Sub: eu até te posso dar uma lista de sugestões, mas o que não posso é dizer-te qual é que esta é. Quer dizer, posso, mas não vais encontrar exactamente o que eu conto. Isso era só se viesses filmar dentro da minha cabeça, coisa que eu não deixo 🙂

  4. Eduardo Louro says:

    Delicioso! O texto, não o vinho porque isso é coisa que nunca vem no rótulo. Pode ser encorpado, aveludado ou de sabor frutado. Nunca delicioso, como o seu texto.

  5. João Filipe Ferraz says:

    Bem haja pela prosa tão verdadeira e definidora do que é VINHO. Quanto a invejo não só pela mensagem lúcida e própria de conhecedor/apreciador, mas principalmente pela arte.
    Sim, anda por aí muita gente que não sabe nem conhece alguns aromas que se encontram em determinados vinho.
    Onde terão ido buscar o aroma a tabaco? por acaso andei cerca de 2 anos em busca desse aroma, mas num conteúdo agradável, mas em vinhos ainda não o presenciei.
    Como podem encontrar determinados aromas e sabores quando nunca estiveram em presença desses “substantivos” que lhe deram origem.
    Já encontrei casos mais ridículos como um dito “connoisseur” que encontrou num vinho o aroma a: ameixas verdes conservadas em câmara. Se forem tão “certeiros” no detectar desses “adjectivos” é por que os conhecem/contactaram nas anilinas.
    Grande contributo ao VINHO.

    • Maquiavel says:

      Um vinho com aroma a ameixas verdes conservadas em câmara?
      Cheira-me a “ehpá, o cheiro disto é ácido cumó caraças, deixa-me cá arranjar maneira de embelezar adjectivamente isto, ou entäo ninguém vai comprar esta bodega…”

      Mas pelo menos o gosto näo tinha ameixas verdes conservadas em câmara, ou tinha? É que nesse caso era… vinagre! 😀

  6. João Filipe Ferraz says:

    b

  7. António Fernando Nabais says:

    Sua grandessíssima escritora!

  8. sinaizdefumo says:

    Grandessíssima escritora diz o sôr Nabais e com todà rzom, ele que tamém escreve qu’é um mimo mas que nos deixou pràqui tristes e abandonados, ò contrairo da Carla que nunca s’esquece da gente e tem sempre mais uma prenda, sempre (e mais) bonita mesmo qando triste, pra nos ofrecer. Num quero saber do tal vinho qu’ele há praì munto do bô e barato mas bubi e sorvi as palavras todinhas qu’afinal até pracia que estava a buber do tal vinho da Carla. Parabeins menina e qando escrever um livro olhe qu’eu quero estar no lançamento, ouviu? Ou srá que já escreveu e eu num sei?


  9. Delicioso e inspirado texto. Obrigado por partilhá-lo.

  10. henedina says:

    Este vinho “não tem vinhas dramáticas da montanha, e no nariz não vai sentir notas de especiarias, fruta preta madura mas é confiável e, vai querer que seja o seu vinho”. Este rótulo, agradava-lhe Carla?

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