Mistérios

“Perro semihundido” (detalhe), de Francisco de Goya y Lucientes

 

O cão passa os dias e as noites na loja do dono. Pela manhã, ainda antes da abertura da loja, costumo vê-lo deitado ao sol, muitas vezes ainda a dormir, patas comicamente viradas para cima, uma imagem que faz sorrir quem passa e fez dele o favorito da rua. Outras vezes, segue-nos com uns pequeninos olhos negros que parecem de urso de peluche.

Hoje, porém, estava sentado e olhava a parede de granito iluminada pelo sol. Era bela a parede, de sombras rugosas suavemente esbatidas, e belo o cão. Imóvel, de perfil para nós, os que passamos na rua, que desta vez não conseguimos chamar-lhe a atenção, e atento ao percurso do sol na parede até aqui sempre fria. [Read more…]

A jogadora

Vemo-las sempre juntas. A viúva do senhor Correia – que há-de ter outro nome, mas que será sempre a viúva do senhor Correia, que morreu já ninguém se lembra há quanto tempo – e a Elisa. A viúva anda já um pouco vergada mas ainda se aguenta nas pernas magras; a Elisa caminha muito devagar, com os passinhos miúdos que as pernas curtas lhe permitem, mas com uma ligeireza que não mostra o quanto lhe custa cada passo. Saem à rua todos os dias, faça o tempo que fizer. A viúva do senhor Correia com um saia-casaco impecável, um risco trémulo à volta dos olhos e o cabelo bem apanhado. A Elisa já não tem o viço de antes, já saciou a curiosidade que tinha do mundo ou este deixou de surpreendê-la. Cansa-se muito, quase sempre tem de regressar a casa ao colo da viúva do senhor Correia. [Read more…]