A jogadora

Vemo-las sempre juntas. A viúva do senhor Correia – que há-de ter outro nome, mas que será sempre a viúva do senhor Correia, que morreu já ninguém se lembra há quanto tempo – e a Elisa. A viúva anda já um pouco vergada mas ainda se aguenta nas pernas magras; a Elisa caminha muito devagar, com os passinhos miúdos que as pernas curtas lhe permitem, mas com uma ligeireza que não mostra o quanto lhe custa cada passo. Saem à rua todos os dias, faça o tempo que fizer. A viúva do senhor Correia com um saia-casaco impecável, um risco trémulo à volta dos olhos e o cabelo bem apanhado. A Elisa já não tem o viço de antes, já saciou a curiosidade que tinha do mundo ou este deixou de surpreendê-la. Cansa-se muito, quase sempre tem de regressar a casa ao colo da viúva do senhor Correia.

O grande passatempo de ambas é ir à tabacaria comprar raspadinhas. Não lhes faz falta o dinheiro, o senhor Correia deixou-as bem, com uma reforma de oficial do Exército e umas quantas casas alugadas pela cidade. A viúva pode dar-se ao luxo de comprar uma dúzia de raspadinhas de uma vez e sair da tabacaria com as mãos a abanar. Vai raspando uma a uma e pedindo outra mais à dona da tabacaria. Adivinha-se nela o impulso incontrolável de uma jogadora. Toda ela treme enquanto vai passando a moeda pelo cartão. Pouco tempo dedica a avaliar o fracasso, pede logo outra. E outra. E outra. A Elisa espera pacientemente, as pálpebras vão-lhe pesando, enrosca-se um pedacinho e bate uma soneca ali mesmo, no chão da tabacaria.

Entre a viúva Correia e a dona da tabacaria há um entendimento antigo, que ambas fingem não recordar. Quando a viúva atinge as doze raspadinhas sem qualquer prémio, a dona da tabacaria responde, ao pedido da décima terceira, que as raspadinhas esgotaram.

– Agora só quando a Paulinha for lá abaixo à Casa da Sorte, hoje já não há.

A Elisa conhece a deixa, ergue as orelhas e olha para a amiga.

A viúva Correia murmura “Paciência, melhor assim” e abaixa-se com cautela para pegar na amiga ao colo. Algumas vezes pareceu-me surpreender uma piscadela de olho cúmplice entre a dona da tabacaria e a cadela Elisa.

Comments


  1. “Saem à rua todos os dias, faça o tempo que fizer” – ainda sem saber que a Elisa era uma cadela, pensei: isto só costuma acontecer a quem tem cão, ou cadela. Como eu 😉

    Gostei muito!

    • Carla Romualdo says:

      obrigada, Cristina. Neste caso (porque, aqui para nós, estas duas existem mesmo, ainda que com outros nomes), também é a única forma de verem gente


  2. Parabéns, cara Carla! É tão bom lê-la que, acabada de ler este post, já estou ansiosamente à espera de mais!

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