Raspadinhas

 

O rato é metido numa caixa transparente. Lá dentro, há uma chave ou uma pequena alavanca, que, ao ser accionada, faz cair comida de um alçapão. O animal dá umas quantas voltas dentro da caixa até descobrir a alavanca. A comida cai. A partir de então, não quer outra coisa. Tanto dá se se trata de um hamster ou de uma ratazana de esgoto, o comportamento do animal dentro da caixa é invariável: ver a alavanca, puxar por ela, receber a recompensa. E outra vez, e outra vez, e outra vez. Burrhus Frederic Skinner, psicólogo e professor na Universidade de Harvard, o homem que concebeu esta experiência a que ainda hoje se chama “caixa de Skinner”, chamou-lhe “circuito de reforço continuo”. Quando realiza uma acção que produz uma recompensa, o rato recebe uma descarga de dopamina, o neurotransmissor produzido em situações identificadas como agradáveis (beber quando se tem sede, por exemplo). E desejará mais. [Read more…]

A jogadora

Vemo-las sempre juntas. A viúva do senhor Correia – que há-de ter outro nome, mas que será sempre a viúva do senhor Correia, que morreu já ninguém se lembra há quanto tempo – e a Elisa. A viúva anda já um pouco vergada mas ainda se aguenta nas pernas magras; a Elisa caminha muito devagar, com os passinhos miúdos que as pernas curtas lhe permitem, mas com uma ligeireza que não mostra o quanto lhe custa cada passo. Saem à rua todos os dias, faça o tempo que fizer. A viúva do senhor Correia com um saia-casaco impecável, um risco trémulo à volta dos olhos e o cabelo bem apanhado. A Elisa já não tem o viço de antes, já saciou a curiosidade que tinha do mundo ou este deixou de surpreendê-la. Cansa-se muito, quase sempre tem de regressar a casa ao colo da viúva do senhor Correia. [Read more…]