Portugal dos pequeninos #1

Maria Helena Loureiro

Portugal dos pequeninos
O senhor F tinha uma loja de tecidos e atoalhados mesmo ao lado da igreja. Pelo menos uma vez por mês, a minha avó pegava na carteira e em mim e ia até à loja onde o senhor F, solícito, lhe puxava um banquinho torneado para ela se sentar enquanto ele desdobrava metros e metros de tecido para vestidos, camisas, naperons, toalhas, guardanapos, fardas e aventais para a criada de dentro e para a criada de fora e panos.
Um dia a minha avó não me levou e, quando chegou a casa, ouvi-a a cochichar com a senhora Gracinda, “coitado … e logo com um caixeiro-viajante … que vergonha…”
E, durante muito tempo, lá ficou, na loja e na minha memória, o senhor F, sempre vestido de um meio luto que o esbatia no meio das fazendas de inverno e me levava a assoar furiosamente para disfarçar as lágrimas que teimavam em me envergonhar, sem perceber nem por que vinham nem por que brilhavam os olhos míopes da senhora Gracinda, “aluada … e logo com um caixeiro-viajante … que vergonha…” [Read more…]