Terra rasa

Há tempos, cansada das paragens do costume, rumei a sul. Parei no Alentejo. Como a maioria dos portugueses, gosto muito do Alentejo. Tenho uma capacidade razoável para mimetizar sotaques e ao fim de dois dias falava aquilo que eu achava que era um alentejano excelente e que aos alentejanos deveria parecer uma anedota, que só não chegava a ser insultuosa porque desenvolveram uma saudável capacidade de não levar a mal o que outros achariam uma afronta, encolhendo os ombros e fazendo de conta que não perceberam.

Gosto do Alentejo, como a maioria dos portugueses, pela simpatia amavelmente prudente das pessoas, pelo despojamento das paisagens, limpas da mancha verde no Inverno e chamuscada no Verão a que o norte nos habitua, porque a comida e o vinho são excelentes, porque os dias trazem uma agradavelmente monótona sucessão de calor e sol sem nuvens, e as povoações têm ainda lugares de silêncio e sombra que convidam a meditações erráticas e especulações irrealistas.

Tenho o hábito já sem emenda de não preparar viagem alguma, e de partir sem saber o que vou encontrar. Cheguei a uma localidade com pouca graça, não direi qual, e no dia seguinte, de manhã, fui ao posto de turismo. [Read more…]