Terra rasa

Há tempos, cansada das paragens do costume, rumei a sul. Parei no Alentejo. Como a maioria dos portugueses, gosto muito do Alentejo. Tenho uma capacidade razoável para mimetizar sotaques e ao fim de dois dias falava aquilo que eu achava que era um alentejano excelente e que aos alentejanos deveria parecer uma anedota, que só não chegava a ser insultuosa porque desenvolveram uma saudável capacidade de não levar a mal o que outros achariam uma afronta, encolhendo os ombros e fazendo de conta que não perceberam.

Gosto do Alentejo, como a maioria dos portugueses, pela simpatia amavelmente prudente das pessoas, pelo despojamento das paisagens, limpas da mancha verde no Inverno e chamuscada no Verão a que o norte nos habitua, porque a comida e o vinho são excelentes, porque os dias trazem uma agradavelmente monótona sucessão de calor e sol sem nuvens, e as povoações têm ainda lugares de silêncio e sombra que convidam a meditações erráticas e especulações irrealistas.

Tenho o hábito já sem emenda de não preparar viagem alguma, e de partir sem saber o que vou encontrar. Cheguei a uma localidade com pouca graça, não direi qual, e no dia seguinte, de manhã, fui ao posto de turismo.

Encontrá-lo requereu a ajuda de quatro solícitos mas pouco informados autóctones, a quem estranhou que alguém quisesse encontrar o posto de turismo. Ninguém sabia bem onde ele estava, algures numa praça em obras, talvez ao fundo do jardim, ali para as bandas de quem vai para a estrada nacional, antes de chegar à rotunda do supermercado. Acabou por aparecer o almejado posto de turismo escondido, com efeito, num jardim, nas costas do jardim, melhor dizendo, e lá estava, sem esperança de ver vivalma, a responsável pelo posto, a quem chamaremos Maria.

Fumava, a Maria, um cigarro à porta e não escondeu a surpresa quando percebeu que havia gente a procurá-la e ao seu posto. Trocámos umas palavras enquanto ela acabava o cigarro e entrámos. O posto tinha mapas, folhetos, cartazes, mas suspeito que a Maria nunca tinha olhado para nenhum. Sobre o lugar onde estávamos, recomendou, sem ponta de entusiasmo, a igreja e uma das suas freguesias. Sobre os lugares à volta, nem uma palavra. E cante alentejano, algum lugar? Oh, disse ela com um encolher de ombros, talvez alguma tasca, se já estiverem bem bebidos. E as localidades mais próximas, que recomenda? Novo encolher de ombros. Peguei no mapa, já em desespero, e comecei a apontar, num raio cada vez mais amplo, uma série de aldeias, vilas e cidades, culminando na capital do distrito.

A todos os nomes a Maria respondia com um “Oh!” e encolhia os ombros. Quando se cansou da insistência, confessou: “Eu, sinceramente, não lhes acho piada nenhuma”.

Depois disso, já não valia a pena insistir. Até senti que havia algo de obsceno em fazê-lo, porque o que Maria dissera era uma confissão de derrota, o reconhecimento de que havia desistido da sua terra, uma espécie de desistência de si mesmo, com a agravante de que seria também, neste caso, um reconhecimento da incapacidade de fazer bem o seu trabalho. Maria, a responsável pelo posto de turismo, não entendia que raio alguém desejava ver naquela terra ou nas proximidades, não percebia para quê fazer quilómetros de estrada para enterrar-se ali, num fim de mundo de onde ela apenas desejava fugir, e não era capaz de mentir para enganar forasteiros, não era capaz de sentar-se frente ao molho de folhetos que alguém lhe tinha enviado, para decorar meia dúzia de recomendações em que ela não acreditava e repeti-las aos incautos recém-chegados.

Maria pareceu-me um triste retrato do país entediado, sem esperança, enterrado nas traseiras do jardim, a fumar um cigarro à porta. Conheci, nos dias seguintes, pessoas que eram o oposto da Maria, a começar pelo dono de um restaurante que podia ser dono de um restaurante em qualquer parte do mundo, que conhecia, aliás, boa parte do mundo, mas que estava ali, numa terreola que não tinha muito mais a oferecer do que a divina açorda que ele fazia, tão harmoniosa no uso dos coentros como eu nunca havia provado, mas que era a terra onde nascera e onde escolhera ficar.

Encontrei, nos sítios a que a Maria não achava piada nenhuma, esplêndidas justificações para os quilómetros percorridos, ou não tivessem as viagens que começam sem grandes expectativas a vantagem de em tudo encontrarem motivo de encanto. Mas o que recordo melhor é a Maria, e o seu aceno à saída do posto de turismo, a perplexidade com que encarava a visita de forasteiros, a sua descrença no pedaço de mundo que lhe tocara, que é como quem diz a descrença na vida que é a sua.

Comments

  1. rui lima says:

    Muito Bom,parabéns pela prosa, infelizmente é assim.
    A menina do Posto deve ser sobrinha do Presidente da Câmara ou afilhada…..ainda bem que ficamos sem saber onde era.
    Mas como isso já me aconteceu tantas vezes.
    Sobre uma das aldeias mais antigas de Portugal e muito bem recuperada, a Sortelha, dizia-me a recepcionista de um Hotel cujo nome também não vou divulgar ” mas que vai lá fazer ? aquilo não tem nada ”
    Caiu o pano sobre
    mais um tragédia de pessoas que nunca saberão o que é cultura e turismo !


  2. Com raízes alentejanas, conheço ou conheci, porque há bem mais que uma década que não ando por essas paragens, todos os concelhos do Alentejo, menos um. Nem digo qual, pois é vergonhoso faltar logo esse, situação que urge reparar logo que me seja possível. E posso garantir que a menina do posto de turismo não será única, existirão muita mais por lá. E não tem que ver forçosamente com a situação actual do país, no final da década de 80 e primeira metade de 90, havia muito por lá quem lamentasse o atraso a que estavam votados, pois os Centros Comerciais, Hipermercados e afins estavam a ser construídos nas grandes cidades e para fazer compras como deve ser tinham que ir ao Jumbo a Setúbal, caso o tempo não permitisse dar um salto a Lisboa. Mesmo cidades como Almada ou Barreiro eram olhadas com desconfiança, pois eram locais onde habitavam alguns primos ou gente da terra, que não tinham conseguido afinal lugar na grande cidade…
    E vale bem a pena conhecer o Alentejo, todo ele…

  3. Anasir says:

    Triste…

  4. Fernando Torres says:

    Somos mesmo umas abeculas, em termos de selecção!


  5. És benevolente na análise que fazes; eu, ao contrário, gostaria de ser o “patrão” que despedisse um funcionário assim… uma obra de caridade é dar o lugar a quem quer.


  6. O alentejo e lindo a pulicao nao insiste e uma zona saudável visitei no mês de Abril se gosta de flores no campo so a um problema como em todo o lado a grande falta de trabalho pois muitos trabalhos forom dados a estrangeiros etc António p

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.