
Do vizinho bem entrado em anos a quem um ataque fulminou antes de termos tido tempo de sabê-lo doente, o bairro sentenciou:
– Antes assim, Deus lembrou-se dele.
Nos anos da minha infância, quando era mais habitual ouvir essa frase, pensava em Deus como uma criatura distraída, ou absorta em temas para nós inalcançáveis, que por vezes se compadecia dos humanos em sofrimento e concedia-lhes a suprema mostra de compaixão que era fulminá-los. Isto implicaria que, enquanto viviam uma vida mais ou menos tolerável, estavam esquecidos por Deus. E que Ele se lembrava deles como de um refogado esquecido ao lume.
Deus negligente com as suas criaturas. Deus cruel quando insistia em deixá-las esquecidas, a sofrer para lá do tolerável. E nós, miseráveis, a agradecer a graça de sermos aniquilados quando Ele, por fim, se recordasse da nossa existência. Todos na sarjeta – assim o disseste, Oscar – mas alguns a olhar as estrelas. [Read more…]






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