Sem notícias de Deus

Do vizinho bem entrado em anos a quem um ataque fulminou antes de termos tido tempo de sabê-lo doente, o bairro sentenciou:

– Antes assim, Deus lembrou-se dele.

Nos anos da minha infância, quando era mais habitual ouvir essa frase, pensava em Deus como uma criatura distraída, ou absorta em temas para nós inalcançáveis, que por vezes se compadecia dos humanos em sofrimento e concedia-lhes a suprema mostra de compaixão que era fulminá-los. Isto implicaria que, enquanto viviam uma vida mais ou menos tolerável, estavam esquecidos por Deus. E que Ele se lembrava deles como de um refogado esquecido ao lume.

Deus negligente com as suas criaturas. Deus cruel quando insistia em deixá-las esquecidas, a sofrer para lá do tolerável. E nós, miseráveis, a agradecer a graça de sermos aniquilados quando Ele, por fim, se recordasse da nossa existência. Todos na sarjeta – assim o disseste, Oscar – mas alguns a olhar as estrelas.

Deus displicente, sentado à soleira da porta de casa, a cortar as unhas dos pés. Deus a não querer saber do monte de requerimentos em cima da secretária, da pilha de cartas, Deus entediado, com o seu corta-unhas e a unha grande do pé a merecer-lhe mais atenção do que qualquer um de nós. Pudéramos nós passar à porta de Deus e ouvir-lhe o clique-claque do corta-unhas e rir para não sentir náuseas.

Deus cansado e com fome, Deus sem vontade de muito mais. E de repente, depois de tanto lhe puxarem pela manga, a virar os olhos para a criatura moribunda, a soltar um suspiro e a estalar os dedos. Ah. Lembrara-se dele.

Quando eu tinha quatro anos e gostava de observar formigas, uma vez fingi que ia matar uma, mas calculei mal a força e pisei-a de verdade. Não a matei, mas ela ficou a rabear no chão. Algo de poderoso e inesperado atravessara a sua existência e destruíra tudo o que até aí tinha sido. Disseram-me: “Ai, é melhor matá-la, assim está a sofrer.” Senti um aperto no estômago. Fora eu. Esmaguei-a, então, com toda a força. De nada vale.

Deus só se lembra de nós quando é demasiado tarde.

Fiz a foto no edifício do Centro Português de Fotografia, que foi, não esqueçamos, a Cadeia da Relação.

Comments

  1. José almeida says:

    Excepcional. Parabéns.

  2. Rui Moringa says:

    Deus é a expressão de cada um de Nós. É Espírito.
    É, também, tudo o que a Carla escreveu: As memórias, o sentido, a Vida, o sofrimento, a morte.
    Às vezes o sofrimento é mais penoso, para muitos de nós do que a morte ou a ideia de morte.
    Sou crente nas imagens de Deus, feita num NÓS.
    Gostei do seu texto.


    • “Às vezes o sofrimento é mais penoso, para muitos de nós do que a morte ou a ideia de morte.”
      Sem dúvida. Mas se acompanhar alguém que vive em sofrimento, possivelmente constatará que basta um pequeno alívio para trazer de volta a esperança, ainda que o preço a pagar pela vida, por essa vida, seja alto.
      Obrigada, Rui.


  3. Excelente texto, escreva mais! Para quando um livro? Eu comprava-o!


  4. O deus que o Homem criou, omnisciente e omnipresente, poderá nada ter a ver com Deus, para quem n’Ele acredita. De facto, é quando Ele parece faltar, no sofrimento e na dor, e na nossa incompreensão pelo que é a vida, ou de que serve ela se é que deverá servir para alguma coisa que nos questionamos assim.
    No entanto, o que mais realço neste excelente texto (mais um, Carla), é a busca de Deus, através da tristeza profunda de não O sentir presente quando mais d’Ele sente falta.
    Acredito, Carla, que Deus tem mais que fazer do que nos atender a todos e talvez estejamos mais precisados de sermos nós lembrarmos d’Ele, do que de bom chegou a até nós, para que nos recordemos, amiúde, do caminho de bem que necessitamos, não por Ele, mas por nós.
    Parabéns pelo texto!


    • É uma busca de sentido, sem dúvida. Do sentido possível entre tudo o que não o tem. E obrigada pelas leituras atentas, Carlos.

  5. joão says:

    Deus? só me entendo com o Dionísio.

    • Rui Moringa says:

      Ao entenderes-te com o Dionísio, entendes-te Connosco. O Dionísio é também parte de Nós, não é ao que se saiba “marciano”.
      Este comentário não é provocação é animação…
      Saúde.


    • são incompatíveis?

  6. Orvalho says:

    Meu deus, quão grande é a pedra que tu carregas por teres criado estas Carlas. Maior e mais pesada que a do arrumador?
    E por seres omnisciente e, portanto, saberes desde sempre que aquele que ainda não nasceu vai sofrer, por seres sempre infinitamente misericordioso, não nos terás imposto um pedra demasiado grande para te compreender?
    E, já agora, és capaz de fazer uma pedra tão grande, tão grande … que nem tu possas com ela, ó omnipotente?

    • Rui Moringa says:

      Há muitos deuses, por aí, que fazem pedras muito grandes para ous outros carregarem. Eles como são deuses, auto-nomeados, transferem as pedras que lhes caem da vida para todos os outros.
      Por isso se transformam em diabos. Há por aí muitos diabos a fingir que são outra coisa…