O Justo pelos pecadores???

A crise explicada aos meus netos

António Maria Coelho de Carvalho

Era uma vez uma dinastia de reis de um país à beira mar plantado, que envenenaram todo o seu povo com uma mistela doce, que fazia o pobre povo pensar que era rico. O último destes monarcas quando viu que o povo podia morrer envenenado, procurou remédio para o veneno. Não o encontrou no seu reino, a Lusolândia, mas, do estrangeiro, soberanos que se disseram amigos ofereceram-lhe um contra-veneno, que ele em desespero aceitou, embora a um preço altíssimo. Com medo da reacção do povo, quando descobrisse que estava em perigo de morrer envenenado, fugiu, para longe, para a Francónia.

Entretanto, o novo monarca da Lusolândia, procurou tratar o povo com o remédio que fora comprado a preço do ouro. Ainda sem grande experiência da governação, não calculou bem as doses nem explicou ao povo os efeitos secundários e a maneira de tomar o remédio. O povo, ignorante por opção da nobreza, influenciado por fidalgos candidatos ao trono, por nobres dados a utopias e barões ressabiados cansou-se de desilusões. Acha o remédio demasiado amargo e não o quer tomar. Revolta-se contra o novo soberano e prefere heróica, romântica e cegamente morrer envenenado.

Se isto fosse um conto de fadas, iria acontecer um milagre: o soberano diminuía as doses do antídoto, diluía o remédio para o tornar menos amargo e dava-o a todos, mas mesmo a todos os súbditos. O povo, ignorante mas não estúpido, sereno mas não mole, sentiria a justiça da repartição da amargura e reconsiderava o suicídio.

Bem aventurados os que ainda acreditam em milagres.

Comments


  1. Bem aventurados os que ainda acreditam em milagres. —————- e os “fazem acontecer”

  2. xico says:

    Ora cá está um protesto inteligente. No meio de tanto ruído, de tanta patetice, é bom ler algo tão lúcido como este pequeno conto.

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