Dia Internacional da Mulher

dia mulher

Hoje é Dia Internacional da Mulher.
Por cá, há quem use dar uma flor ou um «miminho» às mulheres da sua vida ou como campanha de promoção de alguma coisa.
E ficamos por aí. Mulheres felizes porque receberam alguma coisa, homens felizes porque deram provas de ser grandes e atenciosos para com as mulheres. Assunto encerrado.

Eu não recebo nada no Dia da Mulher. Não preciso. Recebo todos os dias aquilo que muitas mulheres nem no Dia da Mulher recebem. Tenho a sorte de ser tratada como todas as mulheres merecem ser tratadas. Mas eu pertenço a uma minoria.

Neste dia, tal como em muitos outros, mas admito que no 8 de Março particularmente, penso na infelicidade que ainda é ser-se mulher em muitos cantos do mundo, até mesmo em Portugal.

Se é verdade que as mulheres de um modo geral já não são as coitadinhas infelizes de antigamente, e estou a referir-me apenas à nossa sociedade, também é verdade que, hoje, o acumular de funções distintas leva muitas vezes à perda da qualidade de vida. Muitas das minhas amigas são trabalhadoras a tempo inteiro, mães 24 horas por dia, donas de casa em horário pré ou pós laboral e esposas nos tempos livres. Onde está o tempo para elas próprias?

O casamento ressente-se? Claro que se ressente. Quase todas as relações em que as pessoas convivem diariamente se ressentem da rotina que acaba por se instalar. Mas quando não há divisão de tarefas, quando tudo recai sempre sobre a mesma pessoa, a coisa piora. Muito. Não é porque as mulheres trabalham. É porque, frequentemente, elas fazem tudo sem a menor ajuda. Os maridos chegam tarde ou cedo, mas quase nada contribuem para a partilha efectiva das tarefas domésticas e familiares. Pôr a mesa e levantá-la é uma gota no oceano de afazeres que uma mulher tem. Lavar a louça é bom. Mas, e tudo o resto? Tomar conta dos filhos, atendê-los durante a noite, ir buscá-los ao infantário ou à escola, levá-los ao médico, passear com eles, educá-los, fazer o jantar, arrumar a casa, aspirar, limpar o pó, lavar as roupas, estendê-las, passar a ferro, fazer as camas todas as manhãs, fazer os pequenos almoços, ir às compras,… Tanta, tanta coisa que tem que ser feita. E as pessoas esgotam-se nessas pequenas tarefas sem as quais a engrenagem não funciona.

A mulher vai fazendo tudo isso nos tempos que lhe sobram do trabalho e das respectivas deslocações e ainda tem que, mesmo estourada, encontrar tempo e disponibilidade para ser amante, companheira, amiga da pessoa que muitas vezes contribui para esse cansaço.

Hoje o homem dá-lhe uma flor, uma caixa de bombons, e espera que logo ela esteja disponível para lhe dar uma intensa noite de amor. Acabam por ficar ambos desapontados.

Ela espera mais. Se ele lhe deu uma flor, ela vai querer respeito, consideração, divisão de tarefas. A mulher vê a flor, o gesto, qualquer que ele seja, como um sinal de esperança. Mas como nada muda realmente, ele fecha-se na sua concha. Torna-se agressiva, amarga, sem disponibilidade para a intimidade. Enterra no mais profundo do seu ser toda a paixão que antes sentia. Aquilo que antes era um prazer, hoje é um frete. Ele toca-lhe e ela encolhe-se, não quer. Mas sabe que tem que ser. Para manter o marido, companheiro. Se ela não estiver disponível, se não lhe fizer as vontades, se não lhe satisfizer os caprichos, outra o fará… Muitas destas mulheres são completamente independentes dos maridos/ companheiros e até viveriam muito melhor sem eles e, ainda assim, não os querem perder.

Ele espera paixão, reconhecimento, agradecimento porque teve aquele gesto para com ela. Foi simpático, lembrou-se dela. Quer uma noite de que já não tem memória. Ela não lhe dá. Fica para ali apática enquanto ele lhe toca e a acaricia. Ele toca-lhe e vem-lhe à ideia um saco de batatas. Ela quase não se mexe, não geme, não mostra prazer. Tem a pele áspera, cheira a comida ou ao gel de banho comprado no supermercado. Há quanto tempo não arranja o cabelo? E aquelas unhas? As mãos secas que finalmente lá acedem em tocar-lhe sem o mínimo interesse. Ele sente que ela só quer terminar aquilo o mais depressa possível para poder dormir umas horas. E pensa na colega do escritório, na MILF que viu no autocarro, na vizinha do lado. Tão lindas, talvez não tão lindas, mas tão arranjadas, tão cheirosas, tão simpáticas… O prazer chega sob a forma de uma dessas fantasias. Função cumprida! Deixa-se cair para o lado dela e adormece instantaneamente. Já ressona.

Ela deixa-se ficar para ali. Sozinha. Fez-lhe o favor de o receber, de perder uns minutos de sono e ele, nada. Já dorme. Ela levanta-se, vai tomar um banho e pensa no que a sua vida se tornou. Pelo menos os filhos dão-lhe algumas alegrias… Por falar nisso, já ali está o mais pequeno a chamar por ela. Volta a adiar o sono. Como tem sempre adiado os sonhos.

Feliz Dia da Mulher!

Comments

  1. maria aquino says:

    relato mais fiel da vida de tanta mulher não seria possível….ainda há quem esteja atento…

  2. vitor says:

    adoro as mulheres. Talvez por isso procuro ajudar em tarefas: cozinho todos os dias, adormeço os meus filhos, acordo todos os dias para dar leite ao mais pequeno e de manhã vou leva-los à escola. Ao fim de semana vou levar a mais velha às atividades desportivas e procuro aspirar casa


  3. PARABÉNS MULHERES E CONTRIBUAM PARA MELHORAR O
    MUNDO . VOCÊS SÃO FUNDAMENTAIS NA SOCIEDADE , PARA LUTARMOS CONTRA A CORRUPÃO E A MALDADE .


  4. Noêmia, Parabéns!
    Sua sensibilidade me tocou.
    “Exerça todo o seu Poder e Avance sem medo” ao lado do seu amado.
    Norma – Rio de Janeiro

  5. alda says:

    Tão cruel e tão verdade! Obrigada por não deixar esquecer a realidade perante uma rosa comprada à pressa.

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