Croniquetas de Maputo: Toponímias

     O Nuno lançou-me um repto que eu queria concretizar: fotografar a sua antiga casa em Maputo, numa rua que tivera nome de princesa e agora ostenta nome de presidente/poeta.

A Av. Salvador Allende, tinham-me dito, era perpendicular ao Hospital Central, o qual ficava entre as avenidas Eduardo Mondlane e Agostinho Neto. Estando eu na popular Rua do Bagamoyo, e sendo ainda um esticão até à avenida do  chileno, convinha-me decidir como lá chegar.

Podia ir a pé pela Karl Marx acima, cruzar a 24 de Julho, a Ahmed Sekou-Touré e apanhar a Eduardo Mondlane bem junto ao cemitério hindu. Mas também podia subir a Av. Samora Machel, seguir a Ho Chi Min, virar na Amilcar Cabral e continuar pela Agostinho Neto ou, até mesmo, pela Mao Tsé Tung, sem no entanto chegar à Kim Il Sung,  e entrar na Salvador Allende pelo seu início.

Também podia ir de taxi, é claro, negociar o preço antes de entrar, ter o dinheiro mais ou menos contado, passar pela Vladimir Lenine, atravessar a Patrice Lumumba e entrar na avenida do poeta pelo lado oposto. Ou, então, podia ser radical e apanhar um chapa atulhado, onde cabe sempre mais um e tem que se entrar e sair do carro a cada paragem numa dança constante de arrumação e desarrumação de passageiros.

E onde, a partir do Bagamoyo, apanhar um chapa directo? Num lugar perto dali, num cruzamento com a 25 de Setembro, vibrante, caótico, cheio de vozes, mercadorias, trânsito, fumo, pó, cheiros intensos e buracos como crateras no intervalo dos quais restam alguns pedaços de alcatrão – a excitante  e sugestiva Avenida Guerra Popular.

Depois disto, depois de me deparar com todos estes nomes, não deixa de ser curioso encontrar o banco Millenium/Bim na Vladimir Lenine ou uma filial do BES na Karl Marx. Ironias que a história tece.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    E na Rua Araújo ainda há cozido à portuguesa ao Domingo. Se fores até lá, um ‘tuga’ dá-te boleia. Eu seu que o Nuno é muito aristocrático para campanhas populares, embora solidárias. Caso fosse mais popular – como por exemplo o Rei D. Carlos – lançava uma campanha no Aventar de angariação de fundos, designada ‘Vamos levar o Nuno ao Maputo – Lourenço Marques está fora de questão e dava borrasca’.
    Como aí uns camarões por mim e cumprimentos à tua mulher.
    Um abraço
    Carlos Fonseca


  2. Salvador Allende também era poeta? ou referes-te a outro que não o assassinado presidente Chileno? Abraço e continua a cronicar….

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